quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Levemente pessoal

Eu li crônicas muito bonitas nos últimos dias. Em verdade, eu li crônicas tão diferentes entre elas e tão diferentes de tantas outras que já li, que acho difícil falar delas, assim. Pode ser que eu não consiga colocar as palavras do outro em palavras, numa citação indireta mal explicada.

Veja lá. Autores que te conquistam no primeiro romance (livro), você leva-os pra casa sempre que encontra com eles na livraria (metáfora). E imediatamente. Encontrei A Última Madrugada do Cuenca e levei comigo pro hotel. (Eu não estava em Natal, o que significou imersão em livrarias, com destaque para a próxima fatura do cartão de crédito.) Não abri nem folheei, não vi orelha (eu nunca vejo orelhas, no sentido literário e literal da expressão, nunca vejo), no máximo uma olhada na foto do autor para ver se era ele mesmo. O mesmo. E só no dia seguinte descobri que leria suas crônicas, e não mais um romance.

E foi uma surpresa que acompanhou o livro inteiro. Cuenca escreveu crônicas que terminam e/ou que são permeadas com muita sutileza. Não há leveza, necessariamente, mas beleza. Em verdade, ele alterna o sutil com o profundo, algumas vezes; coloca em superfície as imagens nítidas, mas subscreve com intensidade. As crônicas têm seu quê de conto, mas não sei se ele iria gostar dessa comparação.

Porque nem vale. A Última Madrugada é uma coletânea de crônicas muito próprias em si mesmas. Parece que muito pessoais. O cotidiano delas não é assim tão passageiro, mas algo que fica. E, por isso mesmo, são crônicas cheias de imagens (sentido figurado, só), com cenas, com memórias, com traços de lugares e episódios que são possíveis pra fotografar com rapidez.

As fotografias são de países, do mundo, de arte, de música, do Rio, e de memórias de nossas vidas. O arsenal de temas impressiona, e algumas vezes afasta um pouco o leitor daquilo ali; há muitos países e gentes, nomes curiosos, fatos também assim, há muito de desconhecido por ali, e a distância é inevitável. O que faz com que se aprecie, mais do que se critique. E aí eu fico aqui tentando apreciar com minhas palavras. Não sei se faço jus.

Os pontos finais dos textos surpreendem. Porque o término quase sempre é de um jeito sutil, pontual, espontâneo. Os olhos arregalam e sorriem, de vez em quando, surpresos com aquela frase com cara mesmo de ponto final. Ou de laço.

Trechos que ficam:
Como "eu te amo" é daquelas frases que só têm sentido quando ditas pela primeira vez.

Escrever uma crônica dedicada aos pierrôs que descobriram seus amores nas mãos do alheio, a boca aberta em outra, fazendo gargarejo com suas lágrimas.

Porque a verdade é que ainda acredito na metafísica e, pior, em Paris como metáfora de existência - cada vez que venho aqui, conheço menos a cidade, ela é como uma mulher ou a própria vida.

Simulamos que nos importamos muito uns com os outros, o que é doce e necessária mentira.

À espera que os minutos se transformem em frases, e as horas em parágrafos - para que não precise mais escrevê-los.

(...) enquanto procuro por um rastro dos seus olhos nos olhos da gente que passa pela rua.


E os (meus) destaques: Ore por mim; Os objetos da mulher; As últimas vezes; O homem polvo; Dinâmica de grupo sob luz estroboscópica; O homem de trinta anos; O último brasileiro; O casal que se beija; A última madrugada.


~ A Última Madrugada, de João Paulo Cuenca. Editora Leya, 2012.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A terça básica

Todo mundo surpreso. Todo mundo com vergonha agora. Estarrecido. Indignado. Todo mundo mais que isso. Aonde tanta gente enfiou o respeito e a noção breve e limitada de que existem mais pessoas no mundo além de você, mais pobres, mais famintas, mais difíceis de viver com... respeito. É preciso encontrar esse depósito logo, para que as coisas voltem ao normal. É preciso acender algumas lâmpadas. Algumas centenas de milhares. E ainda há gente que precise ser lembrado o tempo inteiro...

Faz já seu tempo que não opino mais, que não opino tanto. É tudo tão inflamado e hostil, as inimizades hoje surgem tão fáceis (por que será, hein?), que eu desliguei minhas antenas wi-fi (simbolicamente falando; realisticamente, minha banda larga tem feito isso, de fato, dia sim dia não) para evitar o desgaste. Dos dedos nas teclas. Mas:

O problema é que, no fim das contas, tudo gira em torno não de políticas públicas nem de projetos milionários. Nem de regulamentar a profissão mais bem regulamentada da história da humanidade. Muito menos de acordar ciclopes - e isso seria tão mais fácil. Começa e termina, e por assim fica, por toda a eternidade, em cima de um abismo imenso que agora temos, o lugar onde deveria haver praticamente a única coisa que nos faz legitimamente humanos: o respeito. O lembrete básico de que o outro é tão igual a mim, assim como sou igual a ele. E esse outro não tem predicados nem variáveis associadas. É um outro. E, justamente por falar assim, de um jeito anônimo e indefinido, sem sabermos nem podermos defini-lo muito mais, é que devemos encobri-lo de respeito. Sem exageros. É assim que tem que ser.

Hoje é aniversário da minha profissão, e sei que é mais um dia onde os psicólogos renovam esses votos aí, que eles valorizam tanto, militam, se tornam às vezes insuportáveis vendendo essa ideia básica, que é somente um componente vital para se estar em sociedade. E para que a gente não sucumba. Se sua profissão segue pelo mesmo, se o seu trabalho é cuidar de uns outros, não esqueça dessa regra. Não esqueça. Um dia você incorpora, e a gente quem sabe vive melhor assim.

A gente

E eu com o rosto cheio de cansaço, com as costas tão corcundas e a vontade tão ausente. Com o corpo tão fora daqui, vazio e raso, sem cor. E você me sorrindo. E eu sem saber a que dia voltará a disposição pelo dia, pela noite, a que dia ficará mais claro, sem saber por que tudo tão assim, moribundo. Eu moribunda e você me sorrindo, armando os abraços.

Vem mais de mim cheia de dor, tão pálida, tão feia. Meio desgraçada no azar. Você desejando meu melhor e trocando seus melhores pelo meu benzinho. Nem que seja um pouco. É preciso fazê-la feliz hoje. Eu encostando as armas ou pendurando as chuteiras ou o que quer que seja tudo isso. Erguendo os braços e pondo em suspense o tudo. Eu agora sendo o nada. Você me dando tudo.

A gente.

domingo, 25 de agosto de 2013

Domingo assim

É difícil se despedir do domingo. É difícil juntar as roupas e os livros e pegar as três mochilas que eu terminei deixando por aqui. É como se a cada final de semana eu tentasse entupir um pouco de mim nos corredores dessa casa. Vai que um dia a gente não precise mais da despedida.

Se despedir do domingo é deixar nós dois a sós sozinhos outra vez, logo depois de dois ou três dias em uma quase simbiose. É. Com o consolo único de que os dias passam e o outro final de semana vem. Com o conforto falso de que os dias que vão correr por nós precisam ser preenchidos por nossos labores, individualmente, pois dois juntos não fazem tanto pelos dias. Só pedem que eles estacionem ou rastejem.

Deixar o domingo é pedir que venham domingos onde a única despedida seja um beijo de boa noite trocado na mesma cama.

Chicletes, lambidinha, e mais de Ana

Lá estava eu outra vez com a Ana, só nós duas, cochichando como duas colegas da escola, experimentando os minutos antes do sono para trocar histórias e rir um pouco de si mesmas.

Eu estava lendo mais um livro dela. Ela não veio passar o sábado aqui em casa nem tomamos leite quente antes de dormir. Nem tiramos no par ou ímpar para decidir quem ia para a cama e quem ficava no colchão. Foi só mais um livro dela que parecia eu. Porque, como acho que muitos devem de dizer igual a mim por aí, existe uma identificação muito própria com o texto de Ana Elisa Ribeiro. Pelo menos daqui pra lá, há. Sempre róla. E como eu atestei pelo Capitu, é assim mesmo, você lê, concorda, concorda de novo, se encontra, diz eu também! inúmeras vezes, e, quando viu, entrou na cozinha e sentou pra conversar com ela (com a Ana, com Capitu não há tanta troca assim). E dessa vez a intimidade foi maior.

No Chicletes e Lambidinha, Ana Elisa fica mais próxima, mais perto de mim, mais Ana. Ela é ainda professora e literata, literatura pura, sem ser exagerada, dessas perdidas em devaneios que não interessam a ninguém. Não. Isso nem combina com ela. É que no Chicletes ela é mais mãe, mais estudante, mais filha, mais mãe (2), mais amiga, mais mais. É mais papo de café, de boteco, de carona no meio da semana. De novidade que se conta no fim do dia quando dois amigos se encontram por acaso, ou de propósito. Vai ver. Vai ler. Ana Elisa Ribeiro distribui uns pedaços seus em cada livro. Você descobre um pouco dela a cada vez. Isso é coisa de mineiro, deve ser, vai saber. "Prooonto", como fala o natalense, né, querendo dizer  sim e concordar.

O que mais me impressionou nos seus Chicletes, mais do que a qualidade absoluta de tantas, tantas crônicas (o título poderia ser Chicletes, lambidinha & muitas crônicas; Chicletes, lambidinha & muitas ótimas crônicas; Chicletes, lambidinha & todas as crônicas são legais, pode ler, vá), foi uma mescla muito curiosa de lirismo e boa história, de humor em texto belo, umas verdades claras numa escrita branda. Coisas que a gente quase nunca mistura, que dá trabalho, quase sempre pode dar errado. Você só pode ser uma coisa de cada vez. Ana parece que não. Os textos terminam muitas vezes com uma frase tão bela e tão plena, que dá vontade de sorrir. Eu sorri.

Está aqui, ele, cheio de orelhas, sublinhados, riscos, interjeições. Tamanha foi minha surpresa de ver tanto texto simples com fim belo, tanta coisa difícil de se falar em palavras simples. Essa mistura é caso pra livro-de-cabeceira ou livro-de-consulta na estante (já usei para esse fim esses dias). É caso pra se ler e guardar para a vida toda.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Para agora

E você se pergunta sem necessidade diante da necessidade, vistas tanta ausência e mudança. Por que as cartas não voltaram, por que os e-mails se perderam, por que as imagens ficaram no álbum do colégio e não aumentaram em quantidade nos anos para frente. Por que foi mesmo que o abraço escasseou. E depois folgou, sofreu desaperto e desalinho, uma dor tão grande que é abraçar sem aperto. Folga.

Onde exatamente os laços começam a se afrouxar, e por que a gente não reata logo duma vez? É um esperar o outro que espera o um, que o laço afrouxa, se perde e sai correndo. A gente nunca mais acha.

É um namorado de ciúme esquisito ou uma cidade tão grande tão longe. A mágoa apertada que ninguém solta - ah, essa ninguém afrouxa, nem deixa afrouxar. É o ciúme esquisito de nossa parte. E uma tristeza isolada que ninguém entende. Aí, é fim, é palco de fim, começo de fim, uma dor escandalosa que a gente esconde. Todos de fingir não sentir. Mas que vergonha.

E não é nada disso. Não são pequenas coisas nem grandes arroubos. Momento nenhum. Nem é um tudo-isso junto, meio mal mesclado. É o nada. É um nada vazio, sincero, afoito por ocupar espaços que não são bem cuidados. É um nada espaçoso. Não teme nem ameaça, só surge.

Faltou misturinha, faltou tempero. Faltou um abraço apertado com mágoa frouxa, uma lágrima que escapulisse mesmo, seguida de um foda-se, vem cá, aí sim, mescla meio esquisita, mas sincera de nós. O estoque não esgotou coisa alguma. Paramos foi de gastar os nossos. Uma indisposição de investir e de ouvir, abrir os olhos para o coração do outro, tão parecido com a gente de virar espelho. E passa. O nada encheu. Foi tudo o que nos restou, depois do tanto e do tudo. O nada.

Como puder ser

Me põe nos seus planos? Me inclui no seu dia cinza que eu tô pra chegar cheia de cadernos coloridos. Me coloca no meio dessa mobília opaca. Eu vou chegando. Me põe nos seus planos. Me coloca no meio dessa cidade nova e eu me viro. Me coloca metade dentro da sua rotina e eu sou inteira sua. Até quando pudermos com nós dois. Eu vou levar.

Me põe nos seus planos. Eu não falo alto nem falo tanto, eu não mexo nos livros. Eu durmo enquanto você trabalha e estudo no contraturno. Eu sou toda ao contrário. Mas nos seus planos eu caminho na mão única. Vou certa.

Vamos certos. Me coloca aí no começo no meio e no não fim dos planos todos. Eu sei que não há tantos. Mas vamos abrindo um lugar e então nosso destino senta aqui. Assenta assim. Eu não me perco em você, eu sou pequena e grande pra você escolher perder-se ou não por aqui. Vem, vamos. Me coloca nos seus planos.

E um futuro sem expectativa passa na frente.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Lambendo o livro

Daí, já que não tem jeito e que tudo depende do referencial masculino, fui lá ver o que é "homem" e continuei em crise. "Qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que apresenta o maior grau de complexidade na escala evolutiva". Além da complexidade (que não sei exatamente o que é) e do posto mais alto na tal "escala evolutiva", descobri que isso se alcança sem grandes esforços. Está lá no dicionário que homem é o "adolescente que atingiu a virilidade". E se não atingir? Acho melhor mudar de verbete, não?
Mais adiante, obtenho maiores informações:"dotado das chamadas qualidades viris, como coragem, força, vigor sexual, etc." O que eu quero ser quando crescer? E se eu tiver, um dia, coragem para enfrentar bandido, parto normal, uma cesárea, separação, marido? Viro macho?


Quando eu era adolescente, achava o máximo alguém ser ambidestro. A pessoa que escrevia com as duas mãos, mesmo que fosse forçadíssimo, tinha um ar de inteligente. Espalhava-se por aí que esse tipo de gente usava os dois hemisférios do cérebro com mais facilidade que os pobres coitados destros. Mais ainda do que os reprimidos canhotos, engalfinhados com a sensibilidade apurada. E eu me apegava a esse tipo de mitologia. Até o dia que ouvi duas pessoas conversando (isso deve ter 5 uns anos). Um era adulto e o outro, adolescente. O primeiro perguntou: você é destro ou canhoto? O menino, espontâneo como um girassol, ficou perplexo com a pergunta. O adulto percebeu e traduziu: com que mão você escreve? O menino disse, com ar de obviedade: com as duas! E fez um gesto de quem teclava.


Não há tempo suficiente para amar as pessoas. Não há jeito satisfatório de fazê-las saber disso. Não há modos eficazes de fazer planejamentos. Quando alguém voa, para sempre, é melhor confiar que nada se adiantou ou atrasou, que nada deixou de ser ou foi demais. As simulações do "e se" só são boas nos computadores. Aos humanos, trazem sofrimentos e respostas impossíveis. As redes que a gente teceu são irreversíveis, mesmo quando um tecelão tira uma sonequinha mais profunda.


E ainda tem quem não entenda porque eu babo tanto a Ana Elisa Ribeiro. Fragmentos de Chicletes, Lambidinha & Outras Crônicas.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Nossa voz

E eu deito na cama e me ponho a te chamar pelos lábios, simplória. E você ao lado esperando o fim de tarde arrebentar e ir embora duma vez, para que o café fique pronto.  Eu balbucio e depois escancaro os lábios. As cordas vocais vibrando. Você vê, sinto eu.

É um nome muito bonito esse, você não vê? Eu acho. Termina em ditongo. É paroxítona terminada em ditongo. Por isso acentuada. Mas nome próprio não é obrigado que se acentue. Seus pais que seguiram à risca. Como provável que a gente faça com a Olívia. Mas se vier ele, não vai ser Olívio. Nem Olivio.

Você sai até não sei mais onde e eu chamo, mais vezes, mais vez. Me ouço pelos quatro cantos da casa, agora. E escuto o nome que dá nome ao dito sentimento mais nobre de se conhecer em vida, segundo dizem. E me escuto dizer o nome que nunca digo, dono desse sentimento que tenho o tempo inteiro. Como pode. É esquisito.

Esquisito que é mais ou menos como se diz que algo é delicioso, lá no Chile.
E eu me delicio. Te chamo outra vez.

Sentido

Não importa. Tem dias que simplesmente não importa. E tudo que eu tenho, o que não tenho, o que eu quero e o que já consegui, o que falta, o que completa, nenhum desses vale conta. É tudo tão infinito e vazio que... que se foda. Não importa.

Não existe sorriso que compre, que pague tudo isso. Que encubra o sol que arde. Pior. Não existe angústia onde realmente deveria haver, e isso preocupa e arde muito mais. Arde e não dói. Como se alçasse um extremo da dor física onde não haveria mais dor. E há só pensamento raso. Já estou lá.

E não importa a escolha certa, finalmente uma escolha certa. Porque não importa escolha alguma. A gente aqui passando o tempo e sofrendo ataque da única culpada de termos vindo parar aqui. A existência. E não dá vontade de acabar com ela, mas de apaga-la em certo modo. Algum jeito deve ter. E o principal eu sei que é fingir que viver superficialmente é mais, é top, é tudo. É praticamente a única forma.

Se se puser pra pensar a valer, esquece. O fim é bem próximo. E desespero já é até etapa ultrapassada. Vai restar o sentimento último que se tem perto de morrer, quando se sofre muito antes de morrer, só que, nesse caso, nem se sofre, que feio: a resignação.

É como se eu estivesse desconfortável no mundo. Desconfortável no mundo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Até o dia em que

Não consigo conviver muito tempo com ninguém. E tinha isso em mente ao decidir que não teria telefone em casa. Se houvesse a possibilidade das pessoas me ligarem, eu sofreria demais nas noites em que ninguém ligasse. Quando ligassem, eu me irritaria por estarem me incomodando. Então apenas acendia um cigarro, ou abria uma garrafa de cerveja, sentava no sofá e me concentrava em nada, até que uma relativa sensação de paz de estabelecesse.
E em havendo tanta conexão e aparelho, tanta conexão sem intimidade, tanto personagem sem gente, eu desligo e esqueço. Eu sofro com a insistência possível, e mais até com a ausência, e com o desconforto da indiferença. A conexão absurda desvela mais a indiferença. Eu desligo e esqueço. E vazia, fico melhor.

Todos os sonhos dela estavam marcados pra dali a três, cinco, dez anos. Nenhum deles valia pra agora, pro dia em questão. Me dava agonia ver alguém se preparando constantemente pra começar a viver.
Todos os sonhos marcados pra daqui a três, cinco, dez anos. Todos os sonhos marcados. Todos os sonhos pra daqui a três ou cinco ou dez, bem desenhados, sem tanto cor-de-rosa, mas certeiros e absolutos. Todos os sonhos fazem parte de tudo o que não existe agora. E eu digo que são meus.

Dezessete andares me separando da civilização, apenas o murmúrio dos carros chegando aos meus ouvidos. Na água do Guaíba e no horizonte, eu enxergava uma tranquilidade ao meu alcance no presente, ali dentro do apartamento. Era só acender um cigarro e esvaziar a cabeça de qualquer expectativa e pronto, eu a sentia. Acabei me viciando nessa tranquilidade. São as expectativas que fodem tudo.
Perseguindo a nulidade de expectativa para daqui a três, cinco, dez anos. Em haver nulidade de expectativa depois dos sonhos alcançados, claro. É expectativa e sonho para daqui a três, cinco, dez anos: não esperar mais nada, ou não esperar mais tanto.

Não sei o que estava pensando quando achei que poderia me sustentar sozinho. Apenas segui o caminho natural das coisas, como me ensinaram que elas deviam acontecer. Onze anos de colégio, quatro de universidade. Fiz minha carteira de identidade, meu título de eleitor, meu CPF, abri minha própria conta no banco, fiz carteira de trabalho, registro no INSS. Aulas particulares de inglês, três anos praticando remo, carteira de motorista. Segui o roteiro à risca, desde que nasci. Com diploma de Letras na mão, viajei dois meses pela Europa, gastando economias que tinha desde a adolescência. Na volta, aluguei um apartamento e saí de casa. O nome disso é inércia. Qual o próximo passo? Vamos lá.
Eu comecei tudo de novo. 

Demora muitos anos pra gente descobrir o que é estar sozinho de verdade, ele me respondeu.
E desenhando sonhos para daqui a ene anos, a gente finge que nunca descobriu.

Era tão necessário pra mim que ela continuasse vindo quanto que desaparecesse sem muita demora.
Uma permanência muito longa e já finjo que me dói. E já agarro qualquer vazio que me faça mais eu do que uma plenitude absurda dessas, que nunca cessa, uma companhia o tempo inteiro presente. Meu sozinho de novo, e um retorno desse tipo só para daqui a ene anos, conforme o sonho que desenhei com força e detalhes.

No entanto, ela me encarava sorrindo, com os mesmos olhos que eu encontrava antes nas manhãs, um olhar que nos conectava e expressava que éramos parte um do outro. E isso basta.
É difícil imaginar sensação de maior conforto e serenidade do que esta, que surge da ilusão elaborada de que fazemos parte da vida de uma pessoa a ponto de estarmos verdadeiramente unidos, de tudo estar bem se o outro estiver por perto, e isso basta,
se apenas nos for dada a chance de saciar os desejos e interesses do outro, de tolerar um ao outro quando sacrifícios forem necessários e deixar que todo o resto se foda, se destrua e morra, porque não haverá problema. E isso basta.
Aquele olhar dela era uma manifestação perfeita dessa ilusão confortadora.
É o tudo que basta.


Parece que ele me conhece, que entrou dentro de mim pra desenhar isso.
Parece que ele me conhece, que entrou dentro de mim pra desenhar isso.
Parece que ele me conhece, que entrou dentro de mim pra desenhar isso.

~

Até o dia em que você pode estar no livro dos outros, o livro talvez seja mais seu. Até o dia em que apelei para pensamentos opostos para não perder mais do falso equilíbrio. E fingi que nada daquilo era comigo. Era só mais um sonho impossível de lembrar depois que se acorda. Até o dia em que folheei as páginas em busca dos trechos que recortei e colei aqui, e senti o corpo avisando que eu sentia as dores e as falhas e os espelhos todos novamente, umas partes de mim, ali, me convidando para recomeçar o livro, e nunca parar de voltar para o início desse labirinto, o livro, nós mesmos.

Até o dia em que o cão morreu. Livro de Daniel Galera.

domingo, 18 de agosto de 2013

Eu não falo sobre o que eu escrevo.
Eu não releio.
E finalmente eu esqueço.
Eu gosto de olhar pra você.
Quero ouvir e ver você falar.
Gosto de ver você enquanto você fala. Gosto de olhar seus olhos que ficam longe enquanto você me diz, me explica, e não me olha. E, tímido, pisca os olhos bem logo quando os nossos se encontram. Seus olhos que não me aguentam.
Posso te olhar assim se falando todo, tanto, por horas e dias. Por semanas ou mês. Um tempo. Trouxe uma bagagem bem cheia de olhos para você.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Sim, claro

Independente de qualquer coisa, escreva. Independente de tudo e de um nada, de um vazio, escreva. Sem dom, com dom, é hábito, pura prática. Escreva. Independente da dor, escreva. E, ainda mais, dependente da dor, escreva mais ainda, escreva ainda mais.

Independente do trabalho, do tempo, do medo, do sono. Escreva. Independente dos outros, dos olhares, da malícia, da discórdia. Da balbúrdia. Aposte na balbúrdia; esqueça-a. Escreva, escreva-a. Independente do feio, da obra, do quase. Escreva mesmo que quase. Escreva o todo. Escreva tudo.

Sobre tudo sobre mundo sobre mentiras. Sobre os outros. Segredos. Independente dos segredos, escreva. Contando segredos, escreva. Mentindo sobre ter contado, escreva. Independente do não assunto.

Só depende de você. Se escreva.

sábado, 3 de agosto de 2013

Odeio-o

Dos por quês de eu odiar o aniversário.

Não tem nada de crise com velhice. Aquela de quando a gente entra nos vinte, abandona o dezenove, as idades eufóricas da maioridade, e as melhores idades que tem-se para trás, diz-se, lá vem o outro falar que a melhor idade é a que temos hoje, adormeci, calma, volta. A idade só fica ruim de vez em quando. No final das contas ela nunca faz diferença nenhuma.

Eu nunca soube dizer exato por quê, mas ano passado e esse pensei mais. Continuo sem saber, óbvio, mas até que arrisco.

Quando eu era mais jovem, menos velha, criança, enfim, não lembro das odiosas homenagens à agosto. Sério. Na minha ingenuidade (sou jovem - ainda), o mês oito do desgosto é produto do twitter. E das noivas que já erraram na escolha do noivo e procuram desculpa pra adiar o casamento pra setembro. Se der errado casar em agosto não foi culpa delas, foi do mês da festa. (Da festa.)

É chegar dia 31 de julho e a galera começa o alvoroço. Se perder a hora na manhã do dia primeiro já sabe porque foi, né. Agosto, desgosto, dá tudo errado nesse mês, ave maria, chegue logo setembro. Você ter dormido às duas da madrugada ontem não quer dizer nada.

São 31 dias porque, sim, não basta ser ruim, dar desgosto, azar, larva migrans e má índole, ele ainda dura 31 dias, mesmo acontecendo logo depois de um mês que também dura 31 dias - mas isso se dá por causa dos ossinhos da mão, gente, julho e agosto precisam ter 31 manhãs pra fazer jus à anatomia que os justifica. E eu com meu aniversário para o fim do mês. Não basta ser agosto, não basta agosto ter 31 dias, eu ainda tenho de esperar o mês quase inteiro por um dia que eu não quero que chegue. Ouvindo todas as pessoas reclamarem dos maus agouros do "meu" mês.

Aí fiquei imaginando o que minha mãe pensou quando eu nasci, né. Encontrei todas as justificativas psicanalíticas para odiar meu aniversário (que significam você fazer qualquer tipo de associação pulsional, e, veja, parto, mãe, vagina, o falo de nove meses atrás, meu irmão mais velho vivendo o Complexo de Édipo à mesma época, foi tudo muito fácil de se associar).

Mas não. Ainda tô na dúvida.

Eu acho que comecei a odiar o aniversário quando comecei a perceber como as pessoas se comportam diferentes com você no "seu" dia. Como se você fosse a melhor coisa que já tivesse existido para elas. Sim, claro, para seu pai, sua mãe, que mesmo tendo parido-o em agosto, isso pode ser uma verdade absoluta. Mas no certo eu não suportava tanta gente me abraçando e dizendo que queria minha felicidade. Oche, e por que furasse meu olho na 5ª série, sebosa?, eu me perguntava.

Eu nunca fiz muita festa pelo aniversário de ninguém. E, hoje em dia, não é para todo mundo que eu telefono e felicito como se não houvesse amanhã. Há amanhã. E, mais ainda, houve muitos ontens. E às pessoas que eu acho, de verdade, que foram das melhores coisas que me aconteceram, eu peço o abraço delas sempre. E desejo "tudo de bom" de formas mais genuínas e sinceras: penso nelas em dias importantes e desimportantes, me importo com elas ainda mais em dias anônimos, e sou feliz quando elas também são.

Não tem falo nem Freud nessa conversa. O mês não importa. Poderia ser qualquer outro dos onze, e eu sentiria essas mesmas agonias, essas que vocês sentem de agosto. Um mês que tem o verbo "gostar" embutido, e vocês procurando "desgosto" no lugar. O problema está é em vocês, eu acho. Não no mês.

Que seja. Que o dia que eu não gosto desse agosto fique com mais gosto. Por mais abraços verdadeiros. E por um aniversário realmente "tudo de bom". À todos os nascidos no mês oito, claro.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ser nós

Se for pra ser feliz, que fique.
Se for pra ser feliz de novo, que volte.
Se for pra ser verdade, se mostre, aberto, se mostre.
Se for pra ser nosso que torça, revele, me conte.
Não esconda.
Que venha.
Ser nós.