segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Até o dia em que

Não consigo conviver muito tempo com ninguém. E tinha isso em mente ao decidir que não teria telefone em casa. Se houvesse a possibilidade das pessoas me ligarem, eu sofreria demais nas noites em que ninguém ligasse. Quando ligassem, eu me irritaria por estarem me incomodando. Então apenas acendia um cigarro, ou abria uma garrafa de cerveja, sentava no sofá e me concentrava em nada, até que uma relativa sensação de paz de estabelecesse.
E em havendo tanta conexão e aparelho, tanta conexão sem intimidade, tanto personagem sem gente, eu desligo e esqueço. Eu sofro com a insistência possível, e mais até com a ausência, e com o desconforto da indiferença. A conexão absurda desvela mais a indiferença. Eu desligo e esqueço. E vazia, fico melhor.

Todos os sonhos dela estavam marcados pra dali a três, cinco, dez anos. Nenhum deles valia pra agora, pro dia em questão. Me dava agonia ver alguém se preparando constantemente pra começar a viver.
Todos os sonhos marcados pra daqui a três, cinco, dez anos. Todos os sonhos marcados. Todos os sonhos pra daqui a três ou cinco ou dez, bem desenhados, sem tanto cor-de-rosa, mas certeiros e absolutos. Todos os sonhos fazem parte de tudo o que não existe agora. E eu digo que são meus.

Dezessete andares me separando da civilização, apenas o murmúrio dos carros chegando aos meus ouvidos. Na água do Guaíba e no horizonte, eu enxergava uma tranquilidade ao meu alcance no presente, ali dentro do apartamento. Era só acender um cigarro e esvaziar a cabeça de qualquer expectativa e pronto, eu a sentia. Acabei me viciando nessa tranquilidade. São as expectativas que fodem tudo.
Perseguindo a nulidade de expectativa para daqui a três, cinco, dez anos. Em haver nulidade de expectativa depois dos sonhos alcançados, claro. É expectativa e sonho para daqui a três, cinco, dez anos: não esperar mais nada, ou não esperar mais tanto.

Não sei o que estava pensando quando achei que poderia me sustentar sozinho. Apenas segui o caminho natural das coisas, como me ensinaram que elas deviam acontecer. Onze anos de colégio, quatro de universidade. Fiz minha carteira de identidade, meu título de eleitor, meu CPF, abri minha própria conta no banco, fiz carteira de trabalho, registro no INSS. Aulas particulares de inglês, três anos praticando remo, carteira de motorista. Segui o roteiro à risca, desde que nasci. Com diploma de Letras na mão, viajei dois meses pela Europa, gastando economias que tinha desde a adolescência. Na volta, aluguei um apartamento e saí de casa. O nome disso é inércia. Qual o próximo passo? Vamos lá.
Eu comecei tudo de novo. 

Demora muitos anos pra gente descobrir o que é estar sozinho de verdade, ele me respondeu.
E desenhando sonhos para daqui a ene anos, a gente finge que nunca descobriu.

Era tão necessário pra mim que ela continuasse vindo quanto que desaparecesse sem muita demora.
Uma permanência muito longa e já finjo que me dói. E já agarro qualquer vazio que me faça mais eu do que uma plenitude absurda dessas, que nunca cessa, uma companhia o tempo inteiro presente. Meu sozinho de novo, e um retorno desse tipo só para daqui a ene anos, conforme o sonho que desenhei com força e detalhes.

No entanto, ela me encarava sorrindo, com os mesmos olhos que eu encontrava antes nas manhãs, um olhar que nos conectava e expressava que éramos parte um do outro. E isso basta.
É difícil imaginar sensação de maior conforto e serenidade do que esta, que surge da ilusão elaborada de que fazemos parte da vida de uma pessoa a ponto de estarmos verdadeiramente unidos, de tudo estar bem se o outro estiver por perto, e isso basta,
se apenas nos for dada a chance de saciar os desejos e interesses do outro, de tolerar um ao outro quando sacrifícios forem necessários e deixar que todo o resto se foda, se destrua e morra, porque não haverá problema. E isso basta.
Aquele olhar dela era uma manifestação perfeita dessa ilusão confortadora.
É o tudo que basta.


Parece que ele me conhece, que entrou dentro de mim pra desenhar isso.
Parece que ele me conhece, que entrou dentro de mim pra desenhar isso.
Parece que ele me conhece, que entrou dentro de mim pra desenhar isso.

~

Até o dia em que você pode estar no livro dos outros, o livro talvez seja mais seu. Até o dia em que apelei para pensamentos opostos para não perder mais do falso equilíbrio. E fingi que nada daquilo era comigo. Era só mais um sonho impossível de lembrar depois que se acorda. Até o dia em que folheei as páginas em busca dos trechos que recortei e colei aqui, e senti o corpo avisando que eu sentia as dores e as falhas e os espelhos todos novamente, umas partes de mim, ali, me convidando para recomeçar o livro, e nunca parar de voltar para o início desse labirinto, o livro, nós mesmos.

Até o dia em que o cão morreu. Livro de Daniel Galera.

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