quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Lambendo o livro

Daí, já que não tem jeito e que tudo depende do referencial masculino, fui lá ver o que é "homem" e continuei em crise. "Qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que apresenta o maior grau de complexidade na escala evolutiva". Além da complexidade (que não sei exatamente o que é) e do posto mais alto na tal "escala evolutiva", descobri que isso se alcança sem grandes esforços. Está lá no dicionário que homem é o "adolescente que atingiu a virilidade". E se não atingir? Acho melhor mudar de verbete, não?
Mais adiante, obtenho maiores informações:"dotado das chamadas qualidades viris, como coragem, força, vigor sexual, etc." O que eu quero ser quando crescer? E se eu tiver, um dia, coragem para enfrentar bandido, parto normal, uma cesárea, separação, marido? Viro macho?


Quando eu era adolescente, achava o máximo alguém ser ambidestro. A pessoa que escrevia com as duas mãos, mesmo que fosse forçadíssimo, tinha um ar de inteligente. Espalhava-se por aí que esse tipo de gente usava os dois hemisférios do cérebro com mais facilidade que os pobres coitados destros. Mais ainda do que os reprimidos canhotos, engalfinhados com a sensibilidade apurada. E eu me apegava a esse tipo de mitologia. Até o dia que ouvi duas pessoas conversando (isso deve ter 5 uns anos). Um era adulto e o outro, adolescente. O primeiro perguntou: você é destro ou canhoto? O menino, espontâneo como um girassol, ficou perplexo com a pergunta. O adulto percebeu e traduziu: com que mão você escreve? O menino disse, com ar de obviedade: com as duas! E fez um gesto de quem teclava.


Não há tempo suficiente para amar as pessoas. Não há jeito satisfatório de fazê-las saber disso. Não há modos eficazes de fazer planejamentos. Quando alguém voa, para sempre, é melhor confiar que nada se adiantou ou atrasou, que nada deixou de ser ou foi demais. As simulações do "e se" só são boas nos computadores. Aos humanos, trazem sofrimentos e respostas impossíveis. As redes que a gente teceu são irreversíveis, mesmo quando um tecelão tira uma sonequinha mais profunda.


E ainda tem quem não entenda porque eu babo tanto a Ana Elisa Ribeiro. Fragmentos de Chicletes, Lambidinha & Outras Crônicas.

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