quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Levemente pessoal

Eu li crônicas muito bonitas nos últimos dias. Em verdade, eu li crônicas tão diferentes entre elas e tão diferentes de tantas outras que já li, que acho difícil falar delas, assim. Pode ser que eu não consiga colocar as palavras do outro em palavras, numa citação indireta mal explicada.

Veja lá. Autores que te conquistam no primeiro romance (livro), você leva-os pra casa sempre que encontra com eles na livraria (metáfora). E imediatamente. Encontrei A Última Madrugada do Cuenca e levei comigo pro hotel. (Eu não estava em Natal, o que significou imersão em livrarias, com destaque para a próxima fatura do cartão de crédito.) Não abri nem folheei, não vi orelha (eu nunca vejo orelhas, no sentido literário e literal da expressão, nunca vejo), no máximo uma olhada na foto do autor para ver se era ele mesmo. O mesmo. E só no dia seguinte descobri que leria suas crônicas, e não mais um romance.

E foi uma surpresa que acompanhou o livro inteiro. Cuenca escreveu crônicas que terminam e/ou que são permeadas com muita sutileza. Não há leveza, necessariamente, mas beleza. Em verdade, ele alterna o sutil com o profundo, algumas vezes; coloca em superfície as imagens nítidas, mas subscreve com intensidade. As crônicas têm seu quê de conto, mas não sei se ele iria gostar dessa comparação.

Porque nem vale. A Última Madrugada é uma coletânea de crônicas muito próprias em si mesmas. Parece que muito pessoais. O cotidiano delas não é assim tão passageiro, mas algo que fica. E, por isso mesmo, são crônicas cheias de imagens (sentido figurado, só), com cenas, com memórias, com traços de lugares e episódios que são possíveis pra fotografar com rapidez.

As fotografias são de países, do mundo, de arte, de música, do Rio, e de memórias de nossas vidas. O arsenal de temas impressiona, e algumas vezes afasta um pouco o leitor daquilo ali; há muitos países e gentes, nomes curiosos, fatos também assim, há muito de desconhecido por ali, e a distância é inevitável. O que faz com que se aprecie, mais do que se critique. E aí eu fico aqui tentando apreciar com minhas palavras. Não sei se faço jus.

Os pontos finais dos textos surpreendem. Porque o término quase sempre é de um jeito sutil, pontual, espontâneo. Os olhos arregalam e sorriem, de vez em quando, surpresos com aquela frase com cara mesmo de ponto final. Ou de laço.

Trechos que ficam:
Como "eu te amo" é daquelas frases que só têm sentido quando ditas pela primeira vez.

Escrever uma crônica dedicada aos pierrôs que descobriram seus amores nas mãos do alheio, a boca aberta em outra, fazendo gargarejo com suas lágrimas.

Porque a verdade é que ainda acredito na metafísica e, pior, em Paris como metáfora de existência - cada vez que venho aqui, conheço menos a cidade, ela é como uma mulher ou a própria vida.

Simulamos que nos importamos muito uns com os outros, o que é doce e necessária mentira.

À espera que os minutos se transformem em frases, e as horas em parágrafos - para que não precise mais escrevê-los.

(...) enquanto procuro por um rastro dos seus olhos nos olhos da gente que passa pela rua.


E os (meus) destaques: Ore por mim; Os objetos da mulher; As últimas vezes; O homem polvo; Dinâmica de grupo sob luz estroboscópica; O homem de trinta anos; O último brasileiro; O casal que se beija; A última madrugada.


~ A Última Madrugada, de João Paulo Cuenca. Editora Leya, 2012.

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