terça-feira, 24 de setembro de 2013

Vozes longe

Faz anos que não escutamos nossas vozes, as vozes um do outro. Faz anos que não abrimos diálogo enquanto olhamos um para o outro, você olhando nos meus olhos preguiçosos. E enquanto o tempo vem e passa, que os anos poderiam vir enquanto nós ficávamos a ouvir nossas vozes. Eu esperando sua gargalhada que sei a hora que vai chegar.

Faz anos que não te escuto. Que seu tom grave não ressoa aqui nos corredores, na sala, no nosso sofá. E eu não consigo fazer o esforço e imaginar que te ouço. Tanto tempo que faz.

Liguei aquela playlist para ver se ela me traz as nossas vozes que conversavam enquanto ela, como o tempo, vinha e ia, se repetia. Enquanto ela, assim como o tempo, não nos cansava. Não estávamos cansados de o tempo passar por nós e continuarmos sendo os mesmos.

Faz anos que você não me faz rir vivamente. Que não sabemos mais como é.

Passei hoje em frente à garagem e a mesma caminhonete estava lá. O cachorro não latiu; guardando a voz dele consigo também. Dirigi em silêncio até em casa, até nossos corredores, nosso sofá e teto. Não ousei contar meus segredos a mim mesma, nem sem palavras. Você será o primeiro a sabê-los.

Quando chegar, vou estar pronta para gritar.

E que seja logo.

domingo, 22 de setembro de 2013

Na segunda vez, você desaprende

Na primeira vez, eu vinha no sábado a tarde, a cerca de 60km/h ou menos, visto que no dia que mais acelerei no perímetro urbano eu devo ter ido até 78km/h, e me assustei. Eu estava na faixa da esquerda, nas avenidas que circundam o campus universitário, mais um do meu lado, mais um no banco de trás. O carro veio pela pista oposta, a de cima, indo como quem dirige até a escola de música - e eu ia como quem tinha saído dela. A cada cinquenta ou cem metros, porque eu não faço a menor ideia de distância medida em metros ou quilômetros, só em tempo, então, a cada trinta segundos que se dirige, tem um retorno ali para quem queira passar para a pista de baixo. Ele pegou o retorno errado. Ele colocou seu carro no retorno que só pode fazer quem vem pela pista de baixo. Ele pegou o retorno proibido, desceu imediatamente, em alta velocidade, sem ver quem ou o quê ou se vinha algo na direção oposta (onde deveria com certeza vir, por isso os retornos servem para que você pare), e fez esse retorno proibido para pegar a faixa da direita, para fazer uma contramão, e entrar no bairro do Mirassol. Ele errou três vezes em uma única manobra, pela minha conta. Errou quatro (mil) vezes quando colidiu com meu carro, sem escapatória nenhuma para freio nem desvio de caminho. Ninguém se machucou sério. Quem tava no banco do passageiro sentiu dores no joelho e sente um pouco até hoje. Quem tava no banco de trás arreganhou vários ferimentos de outro acidente automobilístico de um outro dia, que já saravam. Quem era motorista ficou sem carro por trinta dias, enfrentou burocracia, perda de tempo, susto, e tamanha frustração. Pois foi a primeira certeza de que ser responsável no trânsito não é garantia de nada.

Na segunda vez, o carro da frente freou rápido. Eu freei logo. O carro de trás não freou logo e foi mais que certeiro no meu pára-choque. Também sem escapatória, freio ou desvio que ajudasse. Mas com a atenção e a calma que faltaram - antes e depois da batida. O culpado quem era estava claro. No carro do culpado, tinha criança de dois anos de idade, e nenhuma cadeirinha - eu não vi. Também não perguntei. O culpado não queria chamar a perícia, pois no meu carro não acontecera nada, "foi só uma manchinha". Chamei a perícia depois de ela ter chamado seu guincho. Ela disse que não esperaria perícia nenhuma; estava com uma criança de colo e uma senhora idosa dentro do carro (o que não garantiram a calma e a atenção no trânsito, nem a cadeirinha visível). Não poderia ficar lá duas horas até a perícia chegar. A perícia chegou em trinta minutos. Enquanto isso, fui constrangida por estar pela "segunda vez" envolvida em uma batida. A motorista, a passageira, e a corretora de seguros da motorista me constrangeram outras vezes mais. Esperei. O guincho dela demorou duas horas para chegar.

No dia seguinte, a perícia mostrou que por dentro do pára-choque com manchinha tinha grandes danos. A mala sequer fechou depois de aberta. E pelo menos uma semana de carro parado na oficina, na melhor das hipóteses. Salve a(s) perícia(s). Justas.

Depois da segunda vez, você desaprende. Depois da segunda vez, não existe mais sentido em dirigir. Porque, sim, alguém vai bater em mim a qualquer momento. Eu olho para trás e para frente e para os lados de um jeito que nunca achei que fosse capaz de fazer. Vejo o carro de trás batendo em mim, o carro da frente no retorno batendo em mim, o carro que cruzou pela direita colidindo com o carro à frente dele e ambos sobrando em cima da minha faixa dependendo da organização dos vetores e das velocidades dos carros. Claro. No sonho, o carro quebra no meio da rua. E se eu não tomar cuidado, vão bater logo atrás.

Depois da segunda vez, fica difícil dirigir. E mais difícil ouvir e aceitar que "você tem que enfrentar". Como se fosse uma guerra; que é. Porque não adiantou tanta atenção e tanto cuidado. Adianta só contar com a sorte.

E pedir e dizer. Menos imprudência. Mais atenção. O problema de tanta gente dirigindo mal é sempre achar que "vai dar". Tantas vezes não dá, e o que me diz isso é o tamanho da fila na concessionária, de tantos carros batidos, e por isso já prevejo que a "uma semana" se transforma em um mês bem rápido. Bem lento, é verdade. Mas quis dizer que facilmente.

Não dá pra achar que "vai dar", não dá para fazer o proibido, nem ser apressado, nem, muito menos, acidentar os outros com as palavras depois que o acidente tá feito. Você corre cinco minutos e de repente perde o dia inteiro. Economiza dois retornos e fica sem o fim de semana. Sem passarmos para o mérito de quando as perdas são irreversíveis. Se a gente pensar que os carros são pessoas, fica mais fácil o respeito.

Não sei se vou dirigir mais tanto. Não sei se vou conseguir que seja logo. Mas, sim, dá pra ter certeza que o Celta branco à dez quilômetros por hora pode ser eu; mesmo na faixa da esquerda, quando a direita estiver ocupada aos pedaços, ou quando eu for fazer o retorno lá na frente. Dez quilômetros por hora. E se tu jogar as luzes ou buzinar eu não vou sair; nem correr. Vou é ficar mais tranquila, que só assim vou ter certeza de que, nessas vezes, alguém tá me vendo pela frente.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

E tomara que não

E que algo me livre de eu ficar sem você. Já pensou?, eu pensei. Sem você não teria manhã de domingo preguiçosa. Nem domingo preguiçoso. Não teria filme ruim no primeiro encontro, no segundo, no terceiro, e ao longo dos anos. Escolhidos por você. Não teria filmes ruins sempre escolhidos por você. Nem teria os surpreendentemente bons escolhidos por mim e com você dando o braço a torcer ao final - às vezes.

Sem você não teria restaurante preferido no meio da semana. Nem esse café nem esse cheiro de café que só lembra nós dois. Se não houvesse você eu não leria livros em voz alta, nem trechos, nem frases. Porque não haveria ouvidos cúmplices de nós. Não haveria verão com sono e com pouco mar. Nem quem me fotografasse o tempo inteiro em trajes típicos de vida comum, de vida nossa, de ser mais de nós dois que de cada um.

Sem você não teria gargalhada sem precedentes, nem as cócegas, o aperto, o beijo nos pés. Não haveria olhos que escaneiam, ensaiam imagem, se compenetram. Sem você não teria tanta concentração em ser nós dois. E nem teria ternura nem abraço nem assim tanto amor. Muito menos tanto ímpeto de amar.

Ainda bem que há; tudo há. O haver no presente, especialmente, ele há.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Exclusão digital involuntária

As redes sociais me fazem sentir excluída por motivos de: alguns.

Um deles é eu nunca ter assistido ao seriado Breaking Bad (ao que meus quatro leitores ficam surpresos nesse momento, mas como?, afe, etc). Na timeline da vida, aliás, na timeline da minha vida, todos assistem a esse seriado que eu já sei do que trata e que só pode ser muito, muito incrível. Amigas fofas gostam. Meninos grosseiros gostam. Uma pessoa que eu conheço que nunca gosta de nada e que sempre fala mal de tudo, vulgo meu namorado, também aprova. Quase a Capitu para Ana Elisa Ribeiro: "uma sumidade". Aposto que é. Mas já encomendei o download!, porque, também isso, nunca aprendi a fazer sem que fosse carregando trouxas de vírus, outro item e exclusão sócio-digital que pratico involuntariamente. Em breve me sentirei mais alguém na humanidade online.

Outro: são as feministas se esgoelando todos os dias por um mesmo motivo: as cantadas que levam na rua. Elas estão apavoradas com os "nóssinhora" que recebem e seus derivados. Eu não lembro nem quando foi a última vez que eu ouvi um "psiu" enquanto andava na rua. E, sim, eu ando na rua; não é questão de estar mais ou menos dentro de um carro. Eu me questiono se isso é preocupante, visto que anônimos não me cantam, mas se eu disser isso as feministas irão gritar é comigo porque na verdade eu deveria é comemorar que ninguém me joga uma cantada gratuitamente quando eu saio na rua, mesmo que esteja no good-hair-day, isso é sinal de progresso e respeito à minha condição de mulher, etcétera. E tal. Mas eu nem posso enfileirar para o coro, concordar como me senti exposta hoje quando o cara reparou na minha bunda (que não é nada que realmente se ponha reparo). O que me deixa muda, algumas vezes, na timeline da vida - essa timeline da vida tem seus dias temáticos, e os dias feministas dão uns dois ou três ao longo da semana, dependem dos incidentes e da quantidade de cantadas malcriadas que as mulheres (todas menos eu) levam nas ruas.

Mais: meu 3G não funcionar e eu me sentir menos mal em estar vida. É quase isso. Porque eu prefiro, realmente, um teor menos infinito e insistente de comunicação. Um celular que apita vinte e quatro horas ao dia não é de Deus, gente, quem foi que disse que é. Mas de vez em quando me puxavam os cabelos e me botavam de castigo por eu não ter um whatsapp ou por eu ter desativado o facebook. Claro que você não foi pro aniversário, você não tem facebook!!! Porque aniversariantes só usam esse meio de comunicação agora. Nem soube que eu estava grávida de gêmeos e que me casei na semana passada, afinal, você não tem whatsapp!!! Cedi. Mas a tecnologia já me boicotou, vocês estão vendo. (E o fato de eu não fazer nada para resolver não entra na discussão agora.)

Às vezes eu lembro de quando minha única rede social era esse blogue. 2003 e lá vai. Era só ler e escrever, ler e escrever; circulo pequeno, notícias poucas, e a vida das pessoas não era tão movimentada como hoje. Hoje vocês têm dias com mais de cinquenta horas, é demais pra mim. E ainda tão arrumando tempo de levar cantada. "Nóssinhora, hein!".

Vou pôr a série em dia. E pedir umas cantadas ao responsável pelo download. Aí quem sabe eu possa manter um feed de notícias em um hangout qualquer na timeline dessa vida. Antes disso, tá difícil. Peço tempo.

domingo, 15 de setembro de 2013

Palco vazio

Estamos em palco vazio. Somos só nós, nós dois, fingindo que temos um pano de fundo que nos justifica e que se justifica de estar ali. Mas somos só nós, e não vemos.

Não existe plateia, nem coadjuvantes. Mas a plateia imaginamos que existe, e deve estar mesmo dentro de nós; e os coadjuvantes que já foram embora faz tempo. Não deixaram nem os textos velhos, levaram foi tudo. E a gente esperando e os ouvindo sem que eles estejam aqui, com medo deles; vendo fantasmas.

Eu vejo fantasmas tanto e tempo inteiro. Em cima e longe desse palco. Perto e fora de você. A gente separado eu vejo mais. E sonho, agarro e sorrio. Tem fantasma que vem com nostalgia, mesmo que a gente não peça.

Por isso tenho acendido as luzes desse palco para eu ver melhor quem realmente está aqui; para afugentar fantasmas. E só restam nós dois. Só estamos nós dois. E não haverá mais. A possível mudança, única, é que reste apenas um. Mas esse não foi o texto que escrevi.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Estranhamente confortável

E tomava a cerveja em goles fartos, olhando com certa altivez e falando comigo sem me olhar tanto nos olhos. Tantos olhavam para ela. Falava com tantas pessoas diferentes nesse dia, e estava com meninas e menino que eu nunca tinha visto ali. Mas todos confortáveis em estar naquele lugar, em estarem uns com os outros. Ela estranhamente confortável.

Emanava sorriso triste e liberdade. Parecia ter os braços abertos para algo enquanto parecia não se importar com nada. Estranhamente confortável.

Havia trocado os sapatos de salto médio e bico fino por um tênis esporte, uma camiseta, um cabelo bem solto e mais claro. Mas tinha os olhos apertados como eu nunca tinha visto antes, não nela, e pensei sobre choro.

Eu ouvia sua voz mais alta, e ela mal ouvia sua própria voz. Os sorrisos tristes e os goles fartos na cerveja, o garçom aparecendo à cada sorriso como aquele. Parecia combinado.

Mas gargalhava e recebia olhares nos olhos, peitos e coxas. Mal se via tanto disso. Mas chamava a atenção, sendo ela, meio que outra, uma espécie de novidade para o salão.

Sem a aliança na mão direita. Menos serenidade na sua gargalhada, hoje eufórica e rouca. Salão de olhos nela.

Bebeu mais goles cheios e copos inteiros, não voltou cedo para casa. Recebeu mais olhos de outros e teve mais gargalhadas roucas, mostrando-se num conforto estranho em estar viva.

Em insônia, horas depois, descansou o sorriso triste em mais lágrima. Pedindo que a felicidade fingida fosse toda verdade.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sem escapatória

O problema e a solução é que a gente pensa, que a gente pensa demais.

A gente pensa demais e desiste do amor breve. A gente pensa de menos e aposta os dinheiros do bolso no amor errado, que dura. E dura mais quanto menos a gente pensa. E se ama mais quanto mais a gente pensa. Desafiando nossa racionalidade. O desatino posterior é pensar ainda mais no que pensou antes. Poderíamos ter arriscado, vivido, e morrido em dores. Era para tu ter pensado de menos lá. Pensando muito hoje, eu sofro.

É medindo os atos e as palavras que a gente esquece. Passou o momento e não houve a fotografia da palavra bem dita. Pensei tanto no que dizer que passaram os minutos e a hora inteira. Nunca mais a verei, nem a terei comigo, acho, aceito, é o que penso por hora.

E de pensar demais a gente sente a dor da escolha que é vazio. E se pensar muito, toda escolha é vazio.

Escolhemos a separação. Escolho pensar, hoje, que foi o pior que fizemos por nós, que foi o melhor que veio para os outros. Os outros, que vieram. Que foi o melhor para nós, se então.

O pensamento estanca a gente. E põe pra frente. Põe pingos nos is e pratos sobre a mesa e retira as máscaras e mais, etcétera. Enquanto encobre tudo isso.

Fatal porque presente. Porque somos nós, pensando o tempo inteiro no que somos nós.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Nego até sonhar

Sonhei que passava os dedos entre os cabelos, e ele caía em tufos. Me saíam tufos de cabelo seco e crespo nas mãos, e quanto mais mão eu punha no cabelo, mais cabelo me saía. Já estavam todos soltos, eu é que não tinha percebido.

O sonho acabou enquanto eu sentia o desespero de alguma dor, de uma interrogação com desenho de certeza, circunstância que invariavelmente termina numa grande negação. Terminou o sonho eu numa grande negação.

Eu havia pensado sobre perda de cabelos aqueles dias. Por acaso de propósito. A serotonina que baixava e que avisava, já; era em morte adormecida que eu passaria a pensar - sempre igual. E eu lembrando dos cabelos me saindo pelas mãos. Nenhum desespero é maior pensando do que sentindo-o. Claro. Mas sentindo-o a gente não entende como desespero. É qualquer outra coisa. Sem nome.

Há dias da vida em que dá pra ver muito nítido: parece que perdemos mais do que ganhamos ao longo dela. O que resta é o que merece estar, é o que vale à pena, é o lucro. Há mais cabelos que caem do que crescem. Mais pessoas de passagem rápida do que os de malas eternas. E mais denúncia de ódio consequente do que de amor. Que peso.

Saíam-me os cabelos pelas mãos. Muitos, tantos, secos e crespos, soltos, fracos. Eram cabelos mortos.

E tanta coisa morreu e tanta coisa perdi. É preciso que eu sonhe com cada uma delas para admitir que sim. Já foi. Não volta.

Antes disso vou negar. Terminando em grande negação.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Aluno professor professor aluno

1. Era uma turma de licenciatura e já havia seus alunos que já eram professores. Acho que eram uns três. Na aula desse dia, tinha uma deles, uma aluna que é professora no contra-turno. O professor (também aluno, em outras ocasiões) dava uma aula preparada com o triplo do cuidado. Ele estava sendo avaliado, parece. A aula tinha conceito, tinha texto, tinha exercício. O professor disposto; e cansado do dia inteiro. A aluna que é professora no contra-turno conversava sem parar. Eu não conseguia ouvir o que o professor dizia. Ela conversava e ria. O professor se desconcentrava e esquecia o que vinha dizendo. Pedia silêncio. A aluna que é professora não fazia silêncio.

2. Os calouros chegaram na faculdade e odiaram o professor novo. Professor esquisito. Não escrevia no quadro para ser copiado. Não usava slides. Não falava conceitos um por um nem fazia provas com questões que perguntavam os conceitos um por um. Não colocava textos de fácil digestão para os alunos xerocarem. E ele falava pelos cotovelos. Começava a dar aula e falava de todos os assuntos relacionados ao assunto da aula. Retomava e explicava tudo em conjunto. Fazia o mesmo no próximo tópico. E de novo no próximo. Ia da psicologia à filosofia e às ciências naturais. História, notícia de ontem. Dava os exemplos domésticos e contava histórias de Darwin. Os alunos desistiam da aula aos poucos. Reclamavam do professor que não dava aula, que nunca tinha aprendido a ensinar, como é que eles aprenderiam algo com esse professor, etcétera. O professor era uma das maiores referências bibliográficas do país. Era aplaudido e até esperado nos congressos a que ia. E o público ansioso por suas aulas - aplaudidas no final. O professor ficou carimbado pelos calouros como o mau professor. E ninguém o defendeu.

3. No ensino médio, meus horários alternavam-se entre professores show-biz e professores tradicionais. Os professores que davam show eram os que tinham aprendido métodos escandalosos de dar aula em cursinhos pré-vestibular. Os professores-show usavam seus cinquenta minutos de aula bem distribuídos em sequências de piadas e histórias. Eram bons professores, sabiam bem, sabiam muito, explicavam o difícil em palavras fáceis. Explicavam em pouco. Usavam muitos minutos para que os alunos rissem e vibrassem; eles aprenderam em algum lugar que aluno só aprende quando se diverte (muito). Não necessariamente. Meu professor de biologia era do tipo tradicional. Era chato. Ranzinza. Às vezes um pouco arrogante, e tinha uma intolerância às piadas, enquanto que seus concorrentes-show viviam às custas delas. Os alunos criavam asco fácil do professor tradicional. Eu que só entendia cinquenta por cento de sua aula, porque, afinal, era biologia, usava os minutos finais e os corredores para que ele explicasse melhor aquele desenho. Eu juro que via os olhos do meu professor tradicional brilharem um pouco quando isso acontecia. E isso acontecia pouco, considerando as centenas de alunos que ele tinha. Eu querendo entender a aula. Ele se aproximava de mim e do meu caderno como um pai. Explicava tudo de novo e melhor. E mais. Sabia muito, sabia mais. Diziam que ele não sabia dar aula. É um grande professor. E ninguém o defendeu.

Não precisa de mais escola nem de mais dinheiro nem de mais professor. Se a gente só olha para o professor desse jeito. Também não é solução para vir "de baixo para cima", mas preferencialmente o contrário. Se a professora, quando é aluna, desrespeita o lugar do professor igual como os alunos dela fazem com ela todos os dias, o dia inteiro, se o calouro não fica menos cego, e o aluno do ensino médio mais esperto com o valor daquilo que ele faz (estudar), não adianta de muito: mais escola, mais dinheiro, mais professor bem formado.

Tiraram as medalhas de mérito do peito dos professores. E não param de fazer isso. Todas as idades, todas as classes. Se é melhor fazer do que falar, é bom então começar por aí. É preciso pôr a honra de volta em cima desse trabalho. Todas as idades. Todas as classes. Não é imbróglio de educação básica; pode começar pela aula da faculdade hoje.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Futuro que não foi

Umas coisas e nada demais.
Uns dias e nada mais.
Porque sim.
Porque nós.

Os rostos fixos.
Olhos fundos.
Dez anos que esqueceram de nós,
que esquecemos de nós.

Tudo sempre igual

Perdi os sonhos assim que acordei. Perdi a hora pela manhã. E esqueci as meias confortáveis por dentro dos sapatos. Calcei as novas, sem querer. Comprei o jornal fingindo hábito, notei de ver que não tinha mais do meu cigarro, e senti calor de dia sem nuvens, sem muito. Dirigi com pressa de mentira e vi seu carro três, quatro, umas oito vezes. Entrevi a placa alta e já estava lá, seu apartamento, e você perdendo a hora, passando o café com real atraso, sem dor nenhuma para hoje. Vi você pelos muros do edifício. Peguei a fila, o café, matei o trabalho inteiro. Fiquei de frente à ele vendo-o prostar na minha frente, que não importava. Ouvi as mentiras e criei mais delas pra mim, só pra mim, eu que às vezes pareço ser várias, aos pedaços. Escrevi em obsessão na tarde, e não disse coisa alguma em tudo que escrevi. Meus segredos. Com vidros abertos, com noite com frio, senti os cheiros da rua, pensei nos sonhos e na hora perdidos no começo do dia, nos minutos perdidos pelo dia inteiro, e no todo que perdi.

Encontrei você em todas as brechas.

Não ser sempre assim

Me deu susto olhar para a gente assim. Me deu dó e dor, ainda mais que avisaram. O que havia antes era a situação de mais conforto, e por isso mais valor daí pra cá. E fui avisada; há quem aja assim, no duplo, na espreita, e em haver menos vantagem, não existe mais máscara.

Entrei na sala e vi você antiga, à moda antiga, eu quero dizer. Como antes, como nos velhos tempos, como nós. Quando foi dali para fora era outra, era nova, ou na verdade era tu bem velha, bem tu, e eu me assustando com o zíper do rosto assim escancarado. Que não pudesse ser, era só impressão.

E fiquei me perguntando pelas amizades que duram realmente para sempre. Ficam poucas.

Chegada

E diz que só quer me ver assim mesmo, de cara lavada. E nas roupas poucas e o dia vazio, em fartura de silêncio. Pede que eu vá sem batom, sem cores, sem muito. Que leve-me comigo mesma, pra encontrar nós dois.

E me escaneia com os olhos. Enche os olhos e de repente eu fico cheia de cores. Nos ombros, no colo, nos olhos. Os cheiros ficam em cores; e vibram. O ar ficou mais quente quando eu encontrei com nós dois. Somos nós agora.

Me pede pela falta de adornos e brilhos. Assim, assim. Passa o café. Me chama para ouvirmos o silêncio de novo, e inflar esse balão com nosso respirar, com o peito que arfa. A gente volta pro quarto antes sem nós, que fica repleto. E ficamos repletos, completos.

Não me pede que volte. Porque não quer nunca que eu vá.