quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Aluno professor professor aluno

1. Era uma turma de licenciatura e já havia seus alunos que já eram professores. Acho que eram uns três. Na aula desse dia, tinha uma deles, uma aluna que é professora no contra-turno. O professor (também aluno, em outras ocasiões) dava uma aula preparada com o triplo do cuidado. Ele estava sendo avaliado, parece. A aula tinha conceito, tinha texto, tinha exercício. O professor disposto; e cansado do dia inteiro. A aluna que é professora no contra-turno conversava sem parar. Eu não conseguia ouvir o que o professor dizia. Ela conversava e ria. O professor se desconcentrava e esquecia o que vinha dizendo. Pedia silêncio. A aluna que é professora não fazia silêncio.

2. Os calouros chegaram na faculdade e odiaram o professor novo. Professor esquisito. Não escrevia no quadro para ser copiado. Não usava slides. Não falava conceitos um por um nem fazia provas com questões que perguntavam os conceitos um por um. Não colocava textos de fácil digestão para os alunos xerocarem. E ele falava pelos cotovelos. Começava a dar aula e falava de todos os assuntos relacionados ao assunto da aula. Retomava e explicava tudo em conjunto. Fazia o mesmo no próximo tópico. E de novo no próximo. Ia da psicologia à filosofia e às ciências naturais. História, notícia de ontem. Dava os exemplos domésticos e contava histórias de Darwin. Os alunos desistiam da aula aos poucos. Reclamavam do professor que não dava aula, que nunca tinha aprendido a ensinar, como é que eles aprenderiam algo com esse professor, etcétera. O professor era uma das maiores referências bibliográficas do país. Era aplaudido e até esperado nos congressos a que ia. E o público ansioso por suas aulas - aplaudidas no final. O professor ficou carimbado pelos calouros como o mau professor. E ninguém o defendeu.

3. No ensino médio, meus horários alternavam-se entre professores show-biz e professores tradicionais. Os professores que davam show eram os que tinham aprendido métodos escandalosos de dar aula em cursinhos pré-vestibular. Os professores-show usavam seus cinquenta minutos de aula bem distribuídos em sequências de piadas e histórias. Eram bons professores, sabiam bem, sabiam muito, explicavam o difícil em palavras fáceis. Explicavam em pouco. Usavam muitos minutos para que os alunos rissem e vibrassem; eles aprenderam em algum lugar que aluno só aprende quando se diverte (muito). Não necessariamente. Meu professor de biologia era do tipo tradicional. Era chato. Ranzinza. Às vezes um pouco arrogante, e tinha uma intolerância às piadas, enquanto que seus concorrentes-show viviam às custas delas. Os alunos criavam asco fácil do professor tradicional. Eu que só entendia cinquenta por cento de sua aula, porque, afinal, era biologia, usava os minutos finais e os corredores para que ele explicasse melhor aquele desenho. Eu juro que via os olhos do meu professor tradicional brilharem um pouco quando isso acontecia. E isso acontecia pouco, considerando as centenas de alunos que ele tinha. Eu querendo entender a aula. Ele se aproximava de mim e do meu caderno como um pai. Explicava tudo de novo e melhor. E mais. Sabia muito, sabia mais. Diziam que ele não sabia dar aula. É um grande professor. E ninguém o defendeu.

Não precisa de mais escola nem de mais dinheiro nem de mais professor. Se a gente só olha para o professor desse jeito. Também não é solução para vir "de baixo para cima", mas preferencialmente o contrário. Se a professora, quando é aluna, desrespeita o lugar do professor igual como os alunos dela fazem com ela todos os dias, o dia inteiro, se o calouro não fica menos cego, e o aluno do ensino médio mais esperto com o valor daquilo que ele faz (estudar), não adianta de muito: mais escola, mais dinheiro, mais professor bem formado.

Tiraram as medalhas de mérito do peito dos professores. E não param de fazer isso. Todas as idades, todas as classes. Se é melhor fazer do que falar, é bom então começar por aí. É preciso pôr a honra de volta em cima desse trabalho. Todas as idades. Todas as classes. Não é imbróglio de educação básica; pode começar pela aula da faculdade hoje.

3 comentários:

Clarisse disse...

:)

Deyze disse...

Precisamos entender que cada um tem sua parcela de responsabilidade. Essa coisa de achar o "bode expiatório" não cola mais!

Deyze disse...

Precisamos entender que cada um tem sua parcela de responsabilidade. Essa coisa de achar o "bode expiatório" não cola mais!