domingo, 22 de setembro de 2013

Na segunda vez, você desaprende

Na primeira vez, eu vinha no sábado a tarde, a cerca de 60km/h ou menos, visto que no dia que mais acelerei no perímetro urbano eu devo ter ido até 78km/h, e me assustei. Eu estava na faixa da esquerda, nas avenidas que circundam o campus universitário, mais um do meu lado, mais um no banco de trás. O carro veio pela pista oposta, a de cima, indo como quem dirige até a escola de música - e eu ia como quem tinha saído dela. A cada cinquenta ou cem metros, porque eu não faço a menor ideia de distância medida em metros ou quilômetros, só em tempo, então, a cada trinta segundos que se dirige, tem um retorno ali para quem queira passar para a pista de baixo. Ele pegou o retorno errado. Ele colocou seu carro no retorno que só pode fazer quem vem pela pista de baixo. Ele pegou o retorno proibido, desceu imediatamente, em alta velocidade, sem ver quem ou o quê ou se vinha algo na direção oposta (onde deveria com certeza vir, por isso os retornos servem para que você pare), e fez esse retorno proibido para pegar a faixa da direita, para fazer uma contramão, e entrar no bairro do Mirassol. Ele errou três vezes em uma única manobra, pela minha conta. Errou quatro (mil) vezes quando colidiu com meu carro, sem escapatória nenhuma para freio nem desvio de caminho. Ninguém se machucou sério. Quem tava no banco do passageiro sentiu dores no joelho e sente um pouco até hoje. Quem tava no banco de trás arreganhou vários ferimentos de outro acidente automobilístico de um outro dia, que já saravam. Quem era motorista ficou sem carro por trinta dias, enfrentou burocracia, perda de tempo, susto, e tamanha frustração. Pois foi a primeira certeza de que ser responsável no trânsito não é garantia de nada.

Na segunda vez, o carro da frente freou rápido. Eu freei logo. O carro de trás não freou logo e foi mais que certeiro no meu pára-choque. Também sem escapatória, freio ou desvio que ajudasse. Mas com a atenção e a calma que faltaram - antes e depois da batida. O culpado quem era estava claro. No carro do culpado, tinha criança de dois anos de idade, e nenhuma cadeirinha - eu não vi. Também não perguntei. O culpado não queria chamar a perícia, pois no meu carro não acontecera nada, "foi só uma manchinha". Chamei a perícia depois de ela ter chamado seu guincho. Ela disse que não esperaria perícia nenhuma; estava com uma criança de colo e uma senhora idosa dentro do carro (o que não garantiram a calma e a atenção no trânsito, nem a cadeirinha visível). Não poderia ficar lá duas horas até a perícia chegar. A perícia chegou em trinta minutos. Enquanto isso, fui constrangida por estar pela "segunda vez" envolvida em uma batida. A motorista, a passageira, e a corretora de seguros da motorista me constrangeram outras vezes mais. Esperei. O guincho dela demorou duas horas para chegar.

No dia seguinte, a perícia mostrou que por dentro do pára-choque com manchinha tinha grandes danos. A mala sequer fechou depois de aberta. E pelo menos uma semana de carro parado na oficina, na melhor das hipóteses. Salve a(s) perícia(s). Justas.

Depois da segunda vez, você desaprende. Depois da segunda vez, não existe mais sentido em dirigir. Porque, sim, alguém vai bater em mim a qualquer momento. Eu olho para trás e para frente e para os lados de um jeito que nunca achei que fosse capaz de fazer. Vejo o carro de trás batendo em mim, o carro da frente no retorno batendo em mim, o carro que cruzou pela direita colidindo com o carro à frente dele e ambos sobrando em cima da minha faixa dependendo da organização dos vetores e das velocidades dos carros. Claro. No sonho, o carro quebra no meio da rua. E se eu não tomar cuidado, vão bater logo atrás.

Depois da segunda vez, fica difícil dirigir. E mais difícil ouvir e aceitar que "você tem que enfrentar". Como se fosse uma guerra; que é. Porque não adiantou tanta atenção e tanto cuidado. Adianta só contar com a sorte.

E pedir e dizer. Menos imprudência. Mais atenção. O problema de tanta gente dirigindo mal é sempre achar que "vai dar". Tantas vezes não dá, e o que me diz isso é o tamanho da fila na concessionária, de tantos carros batidos, e por isso já prevejo que a "uma semana" se transforma em um mês bem rápido. Bem lento, é verdade. Mas quis dizer que facilmente.

Não dá pra achar que "vai dar", não dá para fazer o proibido, nem ser apressado, nem, muito menos, acidentar os outros com as palavras depois que o acidente tá feito. Você corre cinco minutos e de repente perde o dia inteiro. Economiza dois retornos e fica sem o fim de semana. Sem passarmos para o mérito de quando as perdas são irreversíveis. Se a gente pensar que os carros são pessoas, fica mais fácil o respeito.

Não sei se vou dirigir mais tanto. Não sei se vou conseguir que seja logo. Mas, sim, dá pra ter certeza que o Celta branco à dez quilômetros por hora pode ser eu; mesmo na faixa da esquerda, quando a direita estiver ocupada aos pedaços, ou quando eu for fazer o retorno lá na frente. Dez quilômetros por hora. E se tu jogar as luzes ou buzinar eu não vou sair; nem correr. Vou é ficar mais tranquila, que só assim vou ter certeza de que, nessas vezes, alguém tá me vendo pela frente.

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