sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Nego até sonhar

Sonhei que passava os dedos entre os cabelos, e ele caía em tufos. Me saíam tufos de cabelo seco e crespo nas mãos, e quanto mais mão eu punha no cabelo, mais cabelo me saía. Já estavam todos soltos, eu é que não tinha percebido.

O sonho acabou enquanto eu sentia o desespero de alguma dor, de uma interrogação com desenho de certeza, circunstância que invariavelmente termina numa grande negação. Terminou o sonho eu numa grande negação.

Eu havia pensado sobre perda de cabelos aqueles dias. Por acaso de propósito. A serotonina que baixava e que avisava, já; era em morte adormecida que eu passaria a pensar - sempre igual. E eu lembrando dos cabelos me saindo pelas mãos. Nenhum desespero é maior pensando do que sentindo-o. Claro. Mas sentindo-o a gente não entende como desespero. É qualquer outra coisa. Sem nome.

Há dias da vida em que dá pra ver muito nítido: parece que perdemos mais do que ganhamos ao longo dela. O que resta é o que merece estar, é o que vale à pena, é o lucro. Há mais cabelos que caem do que crescem. Mais pessoas de passagem rápida do que os de malas eternas. E mais denúncia de ódio consequente do que de amor. Que peso.

Saíam-me os cabelos pelas mãos. Muitos, tantos, secos e crespos, soltos, fracos. Eram cabelos mortos.

E tanta coisa morreu e tanta coisa perdi. É preciso que eu sonhe com cada uma delas para admitir que sim. Já foi. Não volta.

Antes disso vou negar. Terminando em grande negação.

Um comentário:

Maíra D disse...

a cada vez que negamos confirmamos... não é assim?
ave. :T