quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O que temos para hoje

Vamos nos contentar um com o outro hoje. Vamos, se vamos. Nós dois vamos.
Vamos nos contentar um com o outro que esses dias correram tanto que eu perdi a ideia do presente que nunca pensei. Vamos nos contentar um com o outro.
Que o dinheiro tá curto, na verdade ele já foi curto, agora ele falta, e não tem muito mais do que uma geladeira sem graça para hoje à noite. E nós dois decidindo o que fazer com o que tem dentro dela.
Vamos nos contentar um com o outro hoje. Que o tempo desse dia aqui também corre, acelera, é morto pelo trânsito, é sufocado pelos relógios da casa (são muitos). E as horas que restarem é melhor que sejam preenchidas com nós dois. Ficando cheias.
Vamos nos contentar um com o outro hoje. Não tem programação à nossa altura na cidade. Nunca tem, hoje muito menos. É quarta-feira.
Vamos nos contentar um com o outro hoje.

É tudo. O que temos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Academia tem dessas coisas: do que tem na academia.

Academia tem dessas coisas né.

A moça da recepção me tentava cativar com seu sorriso herbalife falando de um possível programa verão. "E aí você já se prepara para o verão!". Quando a única forma de me preparar pro verão é comprando um ar-condicionado, é óbvio. Ou me preparando psicologicamente por não ter comprado um ar-condicionado para passar o verão.

Tá certo. Me vê uns quatro meses aí.

O sorriso herbalife insistindo pelo plano anual. Porque quando você faz a soma, divide por doze, subtrai e dá um desconto a si mesmo por ter escrito sete cheques à mão, em pleno 2013, você vai ver como vale à pena! E eu sabendo que quanto mais ela insistisse menos tempo eu ia querer ficar ali. Um ano, deus me livre. Tenho que me preparar psicologicamente pra isso também, se for o caso. Não foi.

No primeiro dia, a professora pergunta de supetão: qual seu objetivo? Assim? Calma, no meio da academia. Tá todo mundo vendo, professora. A música tá alta, mas sou dessas que quando conta um segredo o trio elétrico desliga e a boate faz voto de silêncio. Não vou te contar assim. Aliás, você não me disse nem seu nome; foi logo perguntando sobre meus objetivos.

Quando eu dei conta que não sabia nem o que estava fazendo ali.

Sei lá. Só manter mesmo. Só... Ela virou as costas e deve ter ido escrever qualquer coisa na ficha que eu talvez um dia entenda o que quis dizer ("saúde", "tonificação", "bem estar - zero projeto verão", etc.).

Aí perguntei se eu deveria estar ali, já que minha resposta não foi "hipertrofia dos inferiores"; "secar"; "detox"; "rasgar", ou qualquer outro termo desses que vocês usam o tempo todo e eu não sei o que querem dizer, quase todos.

E eu comprovo. Existe algo que quebre mais do que impressora HP e celular Sony Ericsson. Esteiras. E toda academia tem suas esteiras de estimação, aquelas que mais quebram, que quase sempre estão ali, encostadas, com a placa Manutenção em cima delas. Preguiçosas. Vagabundas. Mau exemplo fitness. Ou talvez tenham sucumbido ao peso dos músculos hipertrofiados ao longo dos anos. Coitadas. Aí descansam.

36,9% dos alunos do sexo feminino conseguem malhar de cabelo solto. Acho curioso, só.

71,5% dos alunos (ambos os gêneros - como vocês dizem?, alunxs) malham usando o celular. Conversando no whatsapp: 70,05% desses 71,5%. Acho difícil, só. Eu não consigo malhar e ouvir música ao mesmo tempo que me atrapalho, por exemplo.

Por algum motivo que não existe ou por alguma regra intra-academia jamais promulgada, os alunos com personal trainer tem status superior na academia, maior direito sobre o uso dos equipamentos, maior direito sobre o monopólio de dois ou três equipamentos, direito absoluto sobre o não revezamento de equipamentos. Ou pelo menos eles juram que têm.

E os personais? trainers? admitem que sim, é fato, verídico, verdade.

E os sem personal que, apesar de se matricularem numa academia que não é só deles, fingem em caras-de-paisagem ou de ninguém-nunca-me-comeu que aceitam quase sem contra-gosto que você também use o mesmo equipamento junto com eles. Até que você se sinta desconfortável o suficiente para desistir de pedir isso a todos eles, e peça perdão por ter se enganado sobre todos (inclusive você!) poderem usar os equipamentos, sem preferência.

Tem quem não faça a menor ideia do que faz lá, reclame de tudo, e ainda perca tempo escrevendo sobre isso. Tudo por um pouco de endorfina.

Academia tem dessas coisas.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Em dia

Acordei com pressa de novo depois de bater no despertador tantas três tantas quatro vezes, como sempre. Saí com pressa para fazer coisas desimportantes sem as quais eu não poderia pôr o dia para frente. Fiz. Perdi a manhã inteira em nada, em claro, fingindo que tomava conta de minha própria vida, porque é capaz de que um dia isso termine se tornando verdade.

Tentei colocar o trabalho em dia de novo, a tarefa de ontem pra hoje, o documento errado nos moldes que têm. Tudo em desencontros. Eu em desencontros.

Pensei sobre o sonho de ontem que não escrevi, que não te contei, e que não consigo esquecer - caminho contrário ao absurdo dos sonhos. Eu lembro. E achei que lembrar de alguém atirando e gritando contra tudo era uma fotografia de um grande nada. Um nada que sonho quase sempre, esqueço quase sempre, e dessa vez só me lembro.

E pus o nada pra frente de novo. O dia e a dor. Simbolicamente, a dor.

Dormi no começo da noite e acordei na hora em que todos dormem. Tomei café na hora em que todos dormem, acendi um cigarro pra me manter acordada com certa dose de sono. O trago.

Escrevi nosso romance.

Sonhei de novo o mesmo sonho.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Feliz dia nós

Com vontade de um café no meio da madrugada.
Você é um café no meio da madrugada. Um excesso, uma contradição, depende, um contra senso absurdo, enquanto que uma necessidade absoluta. Depende de quem peça. Eu peço.

Porque nosso amor tem jeito de madrugada agitada, cheia de vozes. Só nossas vozes. Só a agitação de nossos corpos e nossos nervos, nossas xícaras de café, nossas trapalhadas na língua, eu te dando a metade do copo cheio de cerveja quente. Porque logo cedo eu anunciei que iria encher a cara madrugada adentro. Madrugada agitada a nossa, o que somos. E eu embriagada de cerveja e de outros itens. Nós.

Esse plural para "nó". Nós. Que só podia dar isso, nós dois. Um nó grande de cada lado, dois gênios bem amarrados em nó cego, cada um, dois humores que de tão iguais são impossíveis de conversar, quase sempre. Dois humores feito dois nós. Um nós, no final.

E nessa madrugada agitada onde só existem nós dois, nesse café de contra senso à guisa de vontade, travestido de excesso, mas, em essência, uma bruta necessidade, essas doses excêntricas vão desatando nossos nós antigos cegos surdos mudos eternos. Afrouxando os tempos e os termos difíceis. E amarrando novos nós.

É o que há, é o que resta. Esse tudo no meio do meu nada. Nós.

Feliz dia do primeiro beijo. Feliz.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Rebote

Todos os dias ela anuncia que é sexta-feira. A professora lá na academia. Como que o efeito breve da mentira, antes de nos darmos conta de que é mentira, pudesse surtir algum efeito. E surte. A gente ri, mesmo previsivelmente, a gente ri.

E eu comecei a mentir em voz alta ao longo do dia hoje. Falei que as mensagens iam estar no celular depois que eu saísse do banho. E que por volta das nove você ia de novo me ligar. E sorri sabendo que a semana passaria se arrastando, ou rápida caso nos víssemos antes dela acabar. E eu te vi passando por mim, aqui na rua, e noutras. Umas três vezes hoje.

E eu menti que saberia dizer como você estava se sentindo hoje, mesmo sem ter te visto. Pois menti de termos nos visto ontem, antes de ontem. E eu saberia que pouco tinha mudado de lá pra cá. Os corações iam calmos - menti sobre isso também.

Eu menti em voz alta que ainda não tinha dado tempo de sentir saudades. Que meu peito não apertava antes de trocarmos os sons de nossas vozes noite adentro. Tão perto tão longe, poderíamos estar juntos em carne e osso agora. Mas manter-se distantes por dias inteiros é bom, é de fazer bem. E eu menti em voz alta que eu estava bem.

Menti logo que o tempo era o mesmo, era esse, só esse, o nosso.

Só não pude dividir a mentira com você dessa vez. Sem efeitos. E cem efeitos rebote.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Inexoráveis/mimimi

Que eu não queria abraçar o mundo com as pernas nem atirar para todos os lados. Nem nenhuma outra metáfora parecida que talvez convencesse. Eu tinha um objetivo e um foco certeiro. Então me disse que "você não vai longe".

Quer abraçar o mundo com as pernas e atira para todos os lados e faz mais metáforas e atropela tudo pelo caminho. Inclusive a si mesmo.

De tanto desistir de abraçar o mundo, perdeu quase todas oportunidades. Ficou com a única que queria. Não conheceu nem soube de nenhuma outra.

Mudar de cidade muda a amizade.

Mudar de cidade te muda.

Pensar sobre verdades sujas imutáveis é esperar por um futuro extraordinário. Sem assumir que o faz.

Pendura

E a vida vai cheia de penduricalhos.
Por acaso esses dias lembrei de passados que descobri presentes. Fiquei cheia deles. Penduricalhos são saudades e dias, decisões mal feitas, e outras pessoas que fomos.

Eu me procurando.
Eu perguntei tantas vezes sobre os caminhos cruzados que, vez ou toda, fazemos questão de descruzar, e de estabelecer a ordem quando naqueles dias. Os caminhos assobiam depois, denunciando a bagunça que a gente fez. Com a gente mesmo.

Me enfureci de sentir tanta nostalgia assim. Saudade é de se levar, mas nostalgia é sinal ruim. Sinal de que o hoje tá cinza, e que o dia amanhece sem cores de novo amanhã, logo mais, e desde quanto tempo pode estar assim e ninguém viu - os olhos também embaçados de cinza.

As decisões mal pensadas e o que sobrou delas. A gente cheio de nós (!), com um asco do passado que é só fantasia pra mágoa. O passado cheio de pedaços nossos e umas cores vibrantes jogadas pela descarga.

E por isso os penduricalhos. E os pedaços. E os remendos. Tem dias que o que ficou pra trás parece que é tudo, e agora restou um pedaço escroto de nada, pendurado numa ânsia de viver que não existe mais.

E a gente finge.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A beleza extraordinária da tristeza extraordinária

Devo escrever sobre livro de novo. Mesmo que fale com semanas de atraso. Mas fale.

O título me causava estranheza demais. A imagem da capa me inquietava um pouco, e me indignava à medida que eu lia as resenhas e elas diziam que talvez eu não soubesse muito mais do que o que a capa dizia sobre o personagem principal. Ou. É controverso. De quem seja o personagem principal.

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves é um livro extraordinário. Com estranheza e inquietude, mantidas ao longo dele e ao final. Mas sem indignação. É surpreendente.

Enquanto as páginas corriam (e elas corriam, eu digo), eu me assustava com a veracidade de uma ficção tão absurda e real no que se dizia sobre ela. É um livro cheio de elementos sobre os quais você nunca pensou, com fatos incomuns e próprios em si mesmos, e personagens improváveis de estarem juntos em um mesmo lugar. Estão ali.

Parece história absurda e improvável. E parece absurda a fixação que você mantém em descobri-la, vê-la ser contada, indo pesquisar a veracidade do leopardo das neves e da sua solidão. A solidão. A capa. E todo o impossível do livro.

Joca Terron é um desses caras "inteligentes de dar medo". E ele escreveu essa história de cenas pouco críveis e de beleza única. A tristeza extraordinária reúne elementos distantes e peculiares que talvez você não leia em história alguma. E eles conversam de jeito simples, como se a história, de tão bem escrita, pudesse soar corriqueira. Por isso as páginas correm, a leitura flui, o suspense ajuda.

Uma criatura em um sobrado no bairro do Bom Retiro. Judeus, coreanos e bolivianos. O escrivão em expediente. Um velho demente cuja história pouco se sabe, nem ele mais sabe. Um zoológico e seu leopardo das neves - extraordinariamente triste.

Um livro inteligente de dar medo.


É típico dos imigrantes: sofrem ao partir de sua terra natal, depois passam misérias por não pertencerem ao lugar para o qual migraram e então, de hora para outra, esse lugar lhes pertence como se tivesse sido sempre seu, e daí passam a não admitir a entrada de mais ninguém. 

Para segui-la, o leopardo-das-neves enfrentou a matilha de cães que seguia a caravana. Como odiava aqueles escravos dos homens, aqueles sujeitos simplórios.

No comecinho da manhã, o Bom Retiro volta à vida e é tomado pelos comerciantes coreanos que batem papo nas portas de suas lojas, enquanto os velhos judeus que restaram vão à sinagoga rezar para que em breve possam aumentar o preço do aluguel pago pelos coreanos, e as ruas então são ocupadas pelos bolivianos, por toda a população de Santa Cruz de la Sierra e La Paz juntas, que rezam para Ekeko lhes arranjar dinheiro fácil para retornarem ao seu país, mas na verdade só conseguem ser explorados pelos coreanos, que devem seus aluguéis aos judeus. 

E,

Sou filho único. Ao menos era o que pensava ser. Difícil explicar qual é a sensação de ser sozinho e mesmo assim nunca ter recebido atenção. É como ser um animal extinto ou um comanche apartado de seus bisontes. 

Eu até estava disposto a ouvir o que ele tinha a dizer,  e para isso tinha enfiado num saco bem fundo não sei quantos ressentimentos filiais que vinha colecionando desde a infância, creio que desde a primeira ocasião em que meu pai mudou de calçada ao me ver me aproximar.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Fuga(z).

Escapo. Aperto o passo. Escapo. Eu ia correndo e fugindo tão forte, tão longe, tão distante. Não sentia eu mesma, não sentia nada em mim. Havia um catalisador de tempos e sensações. Eu corria forte e escapava, escapava tanto. Não sobrava nada de mim.

Abusava dos cabelos soltos e por acaso claros, secos, embaraçados, e eles iam perdendo os nós à medida em que eu corria. Apertava ao passo. Passa, corre, escapa. Os nós se desembaraçando sozinhos, o estômago testemunhando solavancos, os pulmões sem reclamar de nada. Eu aguentava.

Eu corria e sentia cansaço forte nas pernas, fadiga e dor, os músculos gritando e me espiando lá de baixo, sendo testemunhas com raiva da minha insistência. Eu em fuga absoluta, louca para chegar lá, em lugar nenhum.

Escapo. Aperto o passo. Escapo. Eu ia correndo e fugindo tão forte, tão longe, tão distante. Não sentia eu mesma, não sentia nada em mim. Havia um catalisador de tempos e sensações. Eu corria forte e escapava, escapava tanto. Não sobrava nada de mim. Me acabei.

Meu sonho.

Ser(mos) feliz(es)

Se for para ser feliz, venha
E se for para ser feliz, que fique
Se for para ser feliz, chegue
Se for para ser feliz de novo, esqueço

Abro a porta
Abra a porta
Vamos entrar

Em nós dois.

Inexoráveis

O cara que regula o ar-condicionado aprendeu a regra não dita de que o ar é para refrigerar, congelar, produzir desconforto. Não para climatizar.

O cara do ar-condicionado aprendeu que climatizar é sinônimo de refrigerar, congelar, produzir desconforto, e sumir com o controle.

Os sinais de trânsito só entram em sincronia no dia em que você não está atrasado.

E o ônibus chegou no horário porque naquele dia não tinha aula na universidade e você só chegou até lá para ter a viagem como perdida.

O príncipe não vem quando você quer.

Basta aceitar desejar e começar a aproveitar a condição de solteira de um jeito inédito e não querer príncipes ou sapos. Ele chega. E se deixá-lo ir... vide regra anterior.

Te convidar para o emprego significa que ele não será seu. É só passatempo do destino pra te deixar com expectativas. Quando for para efetivar... não vai ser.

Saber o que vem depois garante que você nunca lembre o que vem depois.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Peça de pouco encaixe

Se sentia fora do círculo, sentia com os encaixes frouxos. Mais dia menos dia e continuava tudo igual. Tinha consigo mesma amizade do jardim de infância, que cada vez era menos da mesma, cada vez mais diferente, as duas sendo outras, ou somente um dos lados era outro, nunca deu pra saber. E a amizade perecia. Não devia ser amizade. Ou foi tudo culpa da paciência fraca e do comodismo fortíssimo. A vida.

Naturalmente colocada dentro de grupo, mantida e levada. Pulava o elástico e era do time titular no jogo do recreio. Dava pro gasto, especialmente numa época em que isso determina o início e manutenção de algumas amizades. Isso não é amizade. Perece, parece.

Tinha sal demais ou de menos na mistura, nunca foi possível de se saber. Os segredos escusos e os não segredos, os fatos esmiuçados da vida privada, ali trocados entre os outros. A peça frouxa, o laço frouxo, perecível. Mas foi mantida. Em espécie de satélite, curso à distância, virtualidade. E isso em dias quando os encontros carne e osso eram diários. Foi difícil.

Migrou um pouco. Migrou totalmente de grupo. Voltou pra antes e manteve alguns. Não é como mudar de partido; é natural manter e levar os outros consigo. Sempre. Os outros não levavam-na consigo. Nem esperavam para o caso dela vir. Afrouxa.

Viu a história se repetir. O ciclo, o vício, o cachorro tentanto morder o rabo e terminando exausto. A peça frouxa e fora do lugar, as suas peças escapulidas, perdidas, que ela foi deixando seus pedaços pelos caminhos e pelos braços dos outros. Acreditou que era assim que se fazia.

Terminou em poucos pedaços, tão feia, tão pouca. No final não conseguindo fazer nem parte de si mesma. Fechando o ciclo pela última vez.