quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A beleza extraordinária da tristeza extraordinária

Devo escrever sobre livro de novo. Mesmo que fale com semanas de atraso. Mas fale.

O título me causava estranheza demais. A imagem da capa me inquietava um pouco, e me indignava à medida que eu lia as resenhas e elas diziam que talvez eu não soubesse muito mais do que o que a capa dizia sobre o personagem principal. Ou. É controverso. De quem seja o personagem principal.

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves é um livro extraordinário. Com estranheza e inquietude, mantidas ao longo dele e ao final. Mas sem indignação. É surpreendente.

Enquanto as páginas corriam (e elas corriam, eu digo), eu me assustava com a veracidade de uma ficção tão absurda e real no que se dizia sobre ela. É um livro cheio de elementos sobre os quais você nunca pensou, com fatos incomuns e próprios em si mesmos, e personagens improváveis de estarem juntos em um mesmo lugar. Estão ali.

Parece história absurda e improvável. E parece absurda a fixação que você mantém em descobri-la, vê-la ser contada, indo pesquisar a veracidade do leopardo das neves e da sua solidão. A solidão. A capa. E todo o impossível do livro.

Joca Terron é um desses caras "inteligentes de dar medo". E ele escreveu essa história de cenas pouco críveis e de beleza única. A tristeza extraordinária reúne elementos distantes e peculiares que talvez você não leia em história alguma. E eles conversam de jeito simples, como se a história, de tão bem escrita, pudesse soar corriqueira. Por isso as páginas correm, a leitura flui, o suspense ajuda.

Uma criatura em um sobrado no bairro do Bom Retiro. Judeus, coreanos e bolivianos. O escrivão em expediente. Um velho demente cuja história pouco se sabe, nem ele mais sabe. Um zoológico e seu leopardo das neves - extraordinariamente triste.

Um livro inteligente de dar medo.


É típico dos imigrantes: sofrem ao partir de sua terra natal, depois passam misérias por não pertencerem ao lugar para o qual migraram e então, de hora para outra, esse lugar lhes pertence como se tivesse sido sempre seu, e daí passam a não admitir a entrada de mais ninguém. 

Para segui-la, o leopardo-das-neves enfrentou a matilha de cães que seguia a caravana. Como odiava aqueles escravos dos homens, aqueles sujeitos simplórios.

No comecinho da manhã, o Bom Retiro volta à vida e é tomado pelos comerciantes coreanos que batem papo nas portas de suas lojas, enquanto os velhos judeus que restaram vão à sinagoga rezar para que em breve possam aumentar o preço do aluguel pago pelos coreanos, e as ruas então são ocupadas pelos bolivianos, por toda a população de Santa Cruz de la Sierra e La Paz juntas, que rezam para Ekeko lhes arranjar dinheiro fácil para retornarem ao seu país, mas na verdade só conseguem ser explorados pelos coreanos, que devem seus aluguéis aos judeus. 

E,

Sou filho único. Ao menos era o que pensava ser. Difícil explicar qual é a sensação de ser sozinho e mesmo assim nunca ter recebido atenção. É como ser um animal extinto ou um comanche apartado de seus bisontes. 

Eu até estava disposto a ouvir o que ele tinha a dizer,  e para isso tinha enfiado num saco bem fundo não sei quantos ressentimentos filiais que vinha colecionando desde a infância, creio que desde a primeira ocasião em que meu pai mudou de calçada ao me ver me aproximar.

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