terça-feira, 1 de outubro de 2013

Peça de pouco encaixe

Se sentia fora do círculo, sentia com os encaixes frouxos. Mais dia menos dia e continuava tudo igual. Tinha consigo mesma amizade do jardim de infância, que cada vez era menos da mesma, cada vez mais diferente, as duas sendo outras, ou somente um dos lados era outro, nunca deu pra saber. E a amizade perecia. Não devia ser amizade. Ou foi tudo culpa da paciência fraca e do comodismo fortíssimo. A vida.

Naturalmente colocada dentro de grupo, mantida e levada. Pulava o elástico e era do time titular no jogo do recreio. Dava pro gasto, especialmente numa época em que isso determina o início e manutenção de algumas amizades. Isso não é amizade. Perece, parece.

Tinha sal demais ou de menos na mistura, nunca foi possível de se saber. Os segredos escusos e os não segredos, os fatos esmiuçados da vida privada, ali trocados entre os outros. A peça frouxa, o laço frouxo, perecível. Mas foi mantida. Em espécie de satélite, curso à distância, virtualidade. E isso em dias quando os encontros carne e osso eram diários. Foi difícil.

Migrou um pouco. Migrou totalmente de grupo. Voltou pra antes e manteve alguns. Não é como mudar de partido; é natural manter e levar os outros consigo. Sempre. Os outros não levavam-na consigo. Nem esperavam para o caso dela vir. Afrouxa.

Viu a história se repetir. O ciclo, o vício, o cachorro tentanto morder o rabo e terminando exausto. A peça frouxa e fora do lugar, as suas peças escapulidas, perdidas, que ela foi deixando seus pedaços pelos caminhos e pelos braços dos outros. Acreditou que era assim que se fazia.

Terminou em poucos pedaços, tão feia, tão pouca. No final não conseguindo fazer nem parte de si mesma. Fechando o ciclo pela última vez.

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