sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Agora em excesso

Ele cutucava as roupas que ela usava, e os sapatos. Dizia pra trocar. Aquele tênis velho era coisa de gente suja, mandou ela voltar em casa e ir trocar. Ela disse que não ia mais sair com ele aquela noite se tivesse que subir em casa e trocar os sapatos. Ele deu a volta até a casa dela e ela subiu e ele foi embora e não voltou mais. Nem ela desceu. Outro dia achou o vestido tão grande tão largo e cheio de panos. Troca isso. Subiu e vestiu uma calça bem justa, uma blusa que dava pra ver um pouco a mais. Desceu nos desconfortos pra ver o sorriso dele. Sorriu. Se sentiu melhor, ela, por causa disso. Ele desaprovava os amigos preferidos dela. Acho que porque eles usavam tênis meio velhos e roupas meio largas. E porque eles a aprovavam. Bem pode ser; ele que não aprovava sua menina. Ela amou-o em excesso. E depois de tantos anos em excesso de roupas apertadas e sapatos novos e melhores amigos reprovados e sabotagens de tantas ordens, descobriu que não o amava mais. E passou a se amar em excesso.

É capaz que ele sobre

Vamos apressar um pouco mais. Sua noite, meu jantar, seu texto pronto pra ontem, e os remexidos no meio do café frio que você ainda bebe. Vamos apressar. Vamos logo desfazer esse imbróglio, falar de nós dois, por mais chato que pareça, por mais urgente que seja. É tão urgente e tão possível de postergar. Mas vamos apressar.

Vamos apressar essa noite e a próxima sexta. Poderia ser um feriado e enforcaríamos um dia inteiro e duas madrugadas, logo de uma vez. Seria providencial essa forca. Para que apressasse todo o resto, e a gente apressasse todo o resto.

Vamos apressar minha insônia. Que ela venha e passe logo, apesar de que o logo e a pressa não são a cara dela, não são a cara de insônia nenhuma. Se arrasta. E também você, e seu café, e seu texto pra anteontem.

Vamos apressar mais essas horas, enforcar esses dias. Só não vamos matar o tempo daqui até lá. Pra que, depois de tudo isso que a gente apressar, ele passe vagaroso por nós dois. É capaz que ele sobre. Se a gente apressar, é capaz que ele sobre (sim?).

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sonhos, pedidos e perguntas

Sonha comigo?
Sonho sim. A cada instante.
Sonha comigo? É um pedido.
Sonho. A cada instante.
E uma pergunta: sonha comigo?
Sonho, a cada instante.

E a ele eu fazia pedidos e perguntas, mais pedidos que perguntas por esses dias. E ele me dava tudo que podia e mais. Me deu os abraços em madrugadas inteiras, e os sorrisos nas que fossem insones. Me respondeu que o futuro seria bom, que, no final, e, principalmente, no meio e por quase todo o caminho, as coisas dariam certo. Quando foi minha vez de replicar e dizer que já estavam indo de um jeito certo, as coisas todas, as fáceis e as difíceis. Se difícil mesmo já é ser dois, sempre dois. E pedir para ser fácil nunca foi feitio da gente.

E me deu os olhos tranquilos nos dias de tanta tormenta. Tormenta boba e tormenta séria. Me deu a calma. E me respondeu sem que eu perguntasse que, sim, as tempestades viriam sempre, mas que, mais ainda, ele estaria de novo ali, ele não sairia de perto de mim. Nem agora nem nunca.

Não saiu. Perguntei se não cansava de mim, se não abusava das minhas fúrias inexplicáveis e do meu gênio solitário, e se não detestava alguns dias que eu fosse assim. Entre nãos e sins, me deu todas as respostas de que eu precisava. E ficou.

Sonho com ele tanto. Tanto.

Ainda bem que me lê

É preciso que você pare de repetir que ficou o vazio e o nada. Que você gastou o crédito dos amores num só, as dores dos amores numa só, e nos cigarros idos e nas cartas em gavetas. E que há alguma vergonha nisso tudo, e alguma vergonha em continuar doendo a história inteira, ainda. E que pare de repetir que melhor seria doer de novo por outra história, que assim não haveria vergonha. Como se houvesse vergonha em amar demais.

Não há vazio nenhum. Mesmo que haja a falta e os pesos, as sensações de que as peças não se encaixam mais, que o molde se desfez. Formar vazios é impossível.

No presente, eles vão cheios. Está tudo no lugar, eu juro, e completo também. No presente, os espaços já se arrumaram de novo. E é pra lá que você tem que ir. Logo.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Vai tudo igual

Uns meses iguais de dias iguais, e anos assim.

Saí de casa e quis olhar mais pro lado de fora das janelas. E todos os prédios da cidade têm agora os vidros verdes, bem verdes, de uma cor que só existe neles. E todos altos e estreitos, imensos e magros, esses modelos de passarela. Verdes. E as famílias se apertando dentro deles. E os escritórios espremidos pelos andares de baixo, espremidos nos milhões e bilhões mal gastos.

Eu indo espremida por baixo, no meio de carros imensos e iguais. Pretos e pratas e brancos. Com tons de brilho, tons de novos. Achei que todos os carros da rua eram novos, hoje. Haviam saído da fábrica nas últimas horas.

E de novo os cinco, os seis, os sete carros esperavam em fila única pra fazer o dito retorno. De novo um sujeito julgou ser certo furar a fila e enfiar-se na avenida usando a mão da nossa esquerda. Ficamos todos esperando, no mesmo lugar. Perdemos a vez para um. E depois para outro.

E almocei no meio dos barulhos que as notícias ruins fazem, e os não-sustos reclamando, já que ninguém se surpreende mais com nada disso. Almocei em meio aos tantos mortos do fim de semana, atropelados e bêbados dito assassinos. E as notícias de caos.

A natureza continua a se vingar em uns lugares.

E os celulares substituem os rostos deles, os olhares e os sorrisos que a gente recebia. E eu continuei a conversa quando ele virou os olhos para as telas e me fugiu. Não me ouviu nunca mais. Perdi todo o tino.

E as moças com os batons de mesmíssimo tom.

E o dia se apressou no fim da tarde, que quando vi já era noite. E de novo eu dirigia pela mesma avenida beira-mar, e, sim, devia de ser os mesmos de novo, aqueles dois amigos na moto com o da garupa levando duas pranchas. Um perigo, um perigo eles aproveitando a vida na segunda-feira, se arriscando a vivê-la de um jeito livre.

E os casais aproveitando a pressa do fim do dia e o demorado do início da noite, do início da janta, do fim do fim do expediente. Quatro ou cinco, acho que os mesmos de sempre, sim, nos bancos das outras vezes, perto das luzes - ou um pouco longe delas. Aqueles dois rapazes da outra vez. A menina em seu debate acalorado e ele com os olhos dele nela.

Repetições rasas que não dizem nada de nós.
Rotinas rasas tão intensas.
E os incômodos e os confortos em estar tudo igual.

domingo, 24 de novembro de 2013

Alfabeto que segue

Amizade e amigos foram coisas que sempre me preocuparam durante minha vida. Que parece que já vai longa, quando penso que tenho preocupações tão antigas.

Pois é. Eu tenho a ilusão de que pra todos, e não pra muitos, mas, pra todos, amigos e amizade são na verdade o ópio da existência, não o problema. A panaceia, remédio para todos os males. Solução. E pra mim foi sempre metade um problema, metade um conflito interno, uma preocupação que atravessou as décadas (duas) e os cenários em que estive. Penso o tempo inteiro nesse ópio controverso.

Me preocupava os grupos de amigos em que alguns amigos eram mais amigos entre si do que dos outros. Minha ficção me fazia crer em grupos cujos laços afetivos fossem homogeneamente distribuídos. Uma massa bem feita pra um bolo ficar bom é assim, e era assim que eu imaginava que era. Mas daí as histórias dos livros (bobos) não se repetiam, e eu perdia uns cabelos com isso (ainda bem que sempre tive muitos).

E me perguntava o que eu tinha de fazer para que o amigo X gostasse tanto de mim quanto gostava do amigo Y, já que eu gostava tanto de ambos, e ambos eram meus amigos, mas só quem me convidava para os aniversários era o Y, e outras vezes o Z, com quem meu gênio nunca bateu. Pois é. Z talvez perguntasse coisas parecidas em relação a mim. Ou não. Na verdade, não. Na verdade, eu não achava que ninguém ao meu redor se perguntava muito sobre isso (muito menos sofresse uns pedaços).

E por essas e outras letras do alfabeto, eu passei uma infância e uma adolescência me perguntando se havia algo de errado comigo, e o que era. A massa do bolo estava esquisita. Consertei um bocado de coisas, me parece. Outras, não, evidentemente (a gente tem defeitos de fábrica e de história de vida que não se consertam). E nesse meio tempo talvez eu tenha conseguido agregar para junto de mim outros ípsilons, que também eram amigos de outros xis, e, também, deixou de me incomodar a amizade inesperada com zês. Mas outras letras incompatíveis nunca deixaram de acontecer, nem de incomodar.

Há amigos por perto que eu tenho dúvidas se devo chamar assim. Pelo menos chamar assim todas as vezes. (Mas se as vezes são um critério, a resposta já estaria aí.) Daí, que depois dessas duas primeiras décadas de vida, me lembro de uma frase que li numa das crônicas da revista Capricho, exatamente nos tempos em que resolver esses conflitos era mais determinante para que a vida fizesse sentido. Acho que foi a Liliane Prata, mas é um acho bem grande e bem velho, com dez anos. Quando ela dizia que além do clichê de que amores vêm e vão, amigos também vêm e vão. E ela dissertava, mas não necessariamente explicava o por quê (e o meu problema foi sempre procurar por esse).

Suas leitoras deviam estar lidando com os namorados que vinham, ficavam, e que elas achavam que iriam durar pra sempre. E que, ocasionalmente, iam embora. Depois de um tempo, iríamos embora deles também. E viria(m) novo(s) amor(es). E ela sugeriu que acreditássemos: amizades também vêm e vão, algumas ficam por muito tempo, outras ficam até para sempre (há amores que ficam para sempre), e muitas vão embora. Os amigos também podem ser passageiros na vida da gente, sem que haja nada muito errado quanto a isso.

O que na época me pareceu um conforto breve para alguém que sofria um pouco com tudo isso, agora é mais um fato pronto sobre o qual a gente nunca pensa. Ou, pior, o qual a gente esconde de nós mesmos, como se também não tivéssemos sido amigo passageiro de ninguém. (A culpa é sempre do outro, eu sei, eu sei.)

Às vezes, grandes amigos fingem um interesse que não existe mais. Às vezes, fingem uma disponibilidade que eles não querem dar, de jeito nenhum, e que empurram pra frente fingindo a vontade. Eles esquecem. Tampam a história antiga com uns problemas cotidianos, com um plano que deu errado. E novos ípsilons e xis podem ser os protagonistas de agora. A rede começa a se rearranjar, parece. E a gente sofre. E passa.

E amigos de outros tempos surgem iguais a nós. Uns que estiveram por perto vão se fazendo partes da gente de um jeito que a gente não espera. E uns de outros cenários vivem histórias opostas, e vêm e somam, e brotam junto com os novos velhos amigos, e com os velhos novos amigos. Os de sempre.

O ciclo se repete, e acontece todo ao mesmo tempo. Os começos e os fins e os meios se dão o tempo todo.

Mas, é provável, há os que ficam para sempre. Há os que sempre estiveram lá. E os que inevitavelmente abandonam sem a despedida. O remédio é não tentar descobrir o resultado pra cada um. O futuro que cada um pode levar, e por quê, e quem, e você. Um alfabeto que quando desisti de montar, deu certo. Ou parece estar dando.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sabe de mim

Que eu ando sem paciência para nada, e, principalmente, pra tudo. Ainda bem que ele sabe.

Ainda bem que ele sabe que eu sofro, e os por quês. Ainda bem que ele sabe das minhas tampas em cima dos passados, em cima dos meus defeitos, e sabe mais ainda que os defeitos escapam e estão gritando por aí, enchendo os ouvidos dele. De mim. Ainda bem que ele vai se enchendo de mim, no sentido bom que isso possa ter.

Ainda bem que ele sabe que eu mordo, que meus calos são grandes, qualquer sapato aperta com facilidade. E eu saio dando mordidas ou me fingindo de morta. Ainda bem que ele sabe que me finjo de morta e que me encho de ódio às vezes, mesmo achando isso feio. Acho feia muita coisa. Faço muita coisa feia. Ele sabe.

Ainda bem que ele sabe dos meus pecados. E sabe que eu sinto inveja, eu digo a ele que sinto, nas vezes que sinto, às vezes eu sinto. Inveja. Ainda bem que ele sabe que eu sinto preguiça, e sabe mais que quando eu não a sinto, é difícil de me acompanhar. Ele espera. Espera que eu volte. Ainda bem que ele sabe que eu volto todas as vezes.

Eu sei. Que não quero que ele vá. Ele que sabe de mim.

Há graça em mais palavras

Engraçado como a gente estraga tudo tão rápido. Engraçado como a gente briga por nada, se destrata por nada, e guarda mágoa como se mágoa fosse um tudo que nos sustentasse. Engraçado como a gente abraça mais o indevido. Como a gente olha menos nos olhos pra dizer o que devemos. Engraçado conseguir estragar noites ou dias ou semanas inteiras, meses, por... por nada. Engraçado o tamanho das tragédias cujo motivo a gente esquece. O motivo às vezes a gente esquece. Engraçado como na gente dói, e a gente disfarça e cobre com raiva. Podendo encobrir com duas partes de sinceridade absoluta e mais honra. Não fazemos. Engraçado como muito disso é uma questão de honra e a gente finge ser bobagem. E as pessoas terminam sendo uma grande bobagem.

Engraçado percebemos o quadro pintado quando terminamos sozinhos.

Seria trágico. Se não fosse tão cômico.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Sob cílios

Ele veio e sentou bem aqui, quase do meu lado, na beirada da cama, de modo que pudesse me ver, e... cantou. Tocou e cantou a música antiga, que não é nossa, que não é linda, mas que fala de beleza e de como ele me vê. Da beleza de como ele me vê. E cantou me vendo dormir e acordar e senti-lo tão sublime nesse dia.

E guardou o violão e veio ter comigo, veio abraçar e deitar enquanto me abraçava, e me olhar dormir completamente abraçada por ele. Os dois ouvindo, em alguma dimensão, a música não nossa que ele tinha cantado.

Ele me vê dormir e pensa em me acordar e me convidar pra vida. E chama. Desiste, e me deixa e me deita a dormir. E me vê. Eu não respondo e ele sabe que mais do que acordar e sair à vida, eu preferiria de novo o seu abraço.

E tenho.

E ele me olha com olhos que me agarram, tiram fotografias e filmam. Fazem filmes completos de eu só, de toda a complicação que já sou eu sozinha, sem coadjuvantes. Grava esses filmes dentro dos próprios olhos, usando os cílios como cadeados e  os seus pensamentos em trilha sonora absoluta. Não faço ideia de qual seja a trilha sonora pros filmes que os olhos dele fazem.

E me torna triste quando é assim que ele vem. E quando eu choro, beija todas as minhas lágrimas.

Acho que foram os olhos, os cílios fechando as imagens que os olhos viam, a melodia do violão e toda a voz. Acho que foram as lágrimas bebidas. Os dias inteiros que já passaram. Acho que foram, que estão sendo, e deverão ser tudo isso o nosso tudo.

Meus cílios fecham pra guardar as imagens.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Que Festival Literário?

Eu comecei a frequentar festivais literários porque meu pai, com alguma frequência, estava presente neles. Em cima dos palcos ou dos bancos da plateia.

Eu continuei a frequentar festivais literários porque desde essas primeiras vezes, eu percebi que, sim, literatura e festival, literatura e bienal, além de formarem essa rima, são interessantes e passam longe do academicismo. E de diálogos incompreensíveis. Ou, pior, de monólogos incompreensíveis. Na verdade, os protagonistas do palco estão loucos por se fazer entendidos, sempre, e melhor do que se fizeram (ou não) dentro dos seus livros. E isso garante o papo bom. O evento animado.

E continuei a frequentar com mais vontade os festivais depois que aprendi a gostar de ler. Quando vi que o conselho do intelectual não era mentiroso. Os intelectuais têm razão às vezes, é sério: ler é bom, ler é massa, ler pode fazer toda a diferença na sua vida. E faz.

Foi mais ou menos nesse tempo daí que para além dos papos, dos livros, das histórias que se contavam, das experiências segredadas à plateia animada e atônita (normalmente é assim que ela é, mesmo que seja pouca - o que, infelizmente, ocorre tanto), eu descobri o que julgo mais legal nesse tipo de evento. É ouvir a voz de quem você lê.

No sentido literal e metafórico, claro. (Sou apaixonada pelas letras mas não tanto assim pelas figuras; meu hipsterismo-intelectual não vai muito além, eu juro.)

Eu tenho uma relação muito peculiar com meus livros, vulgo cheia de frescura. Eu sublinho, risco e escrevo, transcrevo, marco orelhas por cima ou por baixo, dependendo do código, organizo-os por categoria na estante, não empresto (não), e, sim, olho sempre pra eles com muito carinho. Exatamente. Desse jeito ridículo que você pode ter imaginado.

Acredito que os livros guardam grandes pedaços meus. As experiências de empatia que tive com muitos deles, os avisos e puxões de orelha que alguns deram em mim (acontece; pegue um livro de crônicas e veja o que se dá), e, em muitos, apertos no peito e nas feridas eternas que a gente tem.

E aí, uma ou duas vezes em um ano, na melhor das hipóteses alguma outra vez também, eu consigo ouvir a voz de um livro que fez algo de tudo isso comigo. Ou que provocou tudo isso de uma só vez. Não é bem a própria voz do livro. Mas a voz de quem deu voz ao livro*, de quem tornou-o vivo, e, obviamente, de quem é diretamente responsável pelas experiências que tive lendo.

Talvez eu esteja pondo pedestais debaixo dos escritores, e exagerando no poder dessas vozes que deram vozes. Talvez eu esteja sendo justa. Mas eu queria ver o prazer da leitura sendo mais compartilhado. O prazer de ouvir as vozes, de valoriza-las. E de prestigia-las. Para que, passados quatro dias de um bom festival, eu não tenha de ouvir "que festival literário?!" outra vez.


*Nesse momento, o pensamento e o argumento ficam esquizóides, mas eu passo bem.

A primeira aula a gente nunca esquece

Mas eu pretendo esquecer a minha.

Quando a gente, por motivos provavelmente irracionais, decide, imberbe na vida, ser professor, admirando dois ou três de vinte professores que tem, ou todos os vinte, e, por outro motivo irracional, acha que eles estão felizes na vida fazendo aquilo, a gente só não sabe do maior segredo que eles escondem (ou disfarçam): o tamanho dos monstros que vêem. 

Dei minha primeira aula na última sexta-feira e ela foi, como muitas primeiras vezes na vida, pior do que eu imaginava. 

Não basta a ansiedade eufórica de planejar a aula. Porque hoje o "professor tem que ser dinâmico", "a aula tem que ser dinâmica", "é preciso usar recursos multimídia", e etcétera! Que se danem os professores, foi assim que eu soube, que têm que dar a tal aula em movimento contínuo desuniforme pra que ninguém durma nem se canse. Os alunos não estão nem aí nem aqui nem em lugar nenhum que não seja o grupo do whatsapp, mas o professor que se vire e seja (seja!) dinâmico. A possibilidade de o aluno, e não o professor, ser dinâmico (equivalendo a simples movimentos a cada vinte minutos, sinalizando que está vivo) não foi aventada. 

Enquanto você dinamiza e diversifica e varre as bases de dados procurando algo que sirva (seja dinamicamente interessante), e as borboletas no estômago brincam. Tudo pronto para o grande dia. 

E nos primeiros cinco minutos: acho que matei os alunos de tédio. E o que restou ali foram cópias ou réplicas do que eles já foram. E possíveis zumbis esperando o toque de retirada para ir à caça. Se eu tivesse soltado a apresentação em slides e sentado junto com eles pra assistir, o desastre teria sido menor. Eu acho. 

O professor (ou projeto de) fica na frente deles os meninos morrem aos poucos. Eu não sei o que foi que eu fiz (pra merecer tudo isso etc). Eles enchem os olhos de tristeza, e escrevem nas testas deles uma vontade inexpugnável de estar em qualquer lugar que não ali. Respiram. Suspiram. Inspiram e param de fazer isso de vez. Morrem muito rápido e não voltam à superfície. (Se é que a sala de aula é a superfície ou o direto oposto.) 

Alguns resistem e até falam, perguntam. Ficam até o final. E juram que não foram pagos por ninguém pra fazer tudo isso - uma manobra inteligente que impede que o professor morra durante a aula, podendo falecer logo em seguida, sem problema nenhum, logo depois de ter postado os slides no Sigaa. 

O ensaio geral foi ruim; foi só a docência assistida, e o professor (o de verdade) estava na sala de aula lutando junto contra os zumbis. Foi só o ensaio, mas eu já estraguei o espetáculo. Imagine quando (se) a apresentação for pra valer. 

Dá medo. Os zumbis entediados. Dá medo. 


P.S.: Sim, tenho monitorado meu semblante nas aulas em que sou aluna, desde esse dia.

sábado, 9 de novembro de 2013

É sábado à tarde

Sufoquei uma manhã inteira em sono depois de uma semana que teve mais que cinco dias, de uma sexta-feira com quatorze horas de trabalho ou coisa parecida, de dois pesadelos com gatos e batidas de carro. Quando agora virou rotina aviões passarem baixo, fazendo barulho alto, bem nas nossas janelas e telhados, acordo com eles de novo. Xingo eles de novo. Pergunto o que é que tá acontecendo e que treinamento é esse de que tanto se fala. Imagino os combustíveis gastos nos aviões que encostaram nos prédios da cidade essas últimas semanas. E no que de mais urgente poderia ter sido feito com o dinheiro gasto neles. Ou o tempo.

Tomei café da manhã sem café como quem sabe que vai dormir por mais horas, e pede que a cafeína não interfira em nada. Eu não sabia, mas meu corpo já adivinhara, e dormi até completar o sono que os aviões e os pesadelos interromperam.

Compartilhei a preguiça que vem depois de muitas horas de sono, aquela que avisa que não ter dormido tanto te deixaria mais disposta, isso sim. E você pensa em aproveitar o dia de alguma forma. Desiste. Comi a janta na hora do almoço, dirigi por ruas surpreendentemente cheias de carros, é sábado, é tarde, achei que todos estariam descontando o sono interrompido de mais cedo, mas não, todos iam fazendo algo de útil com seus sábados. Li o livro novo enquanto escrevia textos inteiros dentro da minha cabeça. Perdi todos.

No salão, a dona do estabelecimento assistia ao programa do Raul Gil, com crianças (ou adultos com vozes de crianças) cantando para impressionar jurados. Eu não olhava para a tv, que fica de frente para outro ambiente do lugar. A plateia vaiava os jurados. A plateia vaiava ainda mais os jurados. A cliente contou do velório aonde tinha ido, e aproveitou o ensejo e a certeza própria de que todas as pessoas vivas gostam de saber histórias de pessoas recém mortas, e tragédias que terminam com pessoas mortas, e dispôs-se a falar da vida da defunta. O pressuposto me exclui da sua plateia ideal, que não te dava atenção e lamentava além da morte da moça, a ideia de que, sim, foi tudo uma tragédia e é uma pena ter acontecido, mas as notícias ruins não me alimentam - sou exceção. As manicures suspendiam os alicates e olhavam para a cliente, enternecidas e curiosas, mais curiosas que enternecidas, queriam saber detalhes da vida de pouco antes da morte. A morfina e a vida particular da mulher que se foi. Todos tão curiosos pelas dores dos outros, pelo simples sabor que a curiosidade (e não a empatia ou a preocupação genuína) lhes dá. E pela mera saciedade que aquilo que é fúnebre proporciona a elas. Das coisas que me assustam, ainda.

O programa atravessava a tarde a plateia vaiava os jurados. Minha rua ficou mais vazia e sozinha. A cidade se prepara para a noite que, inusitadamente, hoje ferve. Há muito o que fazer e pessoas para serem vistas e loucas para ver pessoas que só querem sair para serem vistas. Eu vou ao supermercado. Volto para casa, para o abraço, e namoro. Vamos jantar logo mais, é sábado. Anoitece. É dia de ficarmos a dois, a sós. É o nosso sábado que chegou.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Pesadelo recorrente

No meu pesadelo, eu chegava na festa e estavam todos tristes, e estavam todos cansados e sem graça de estarem ali e de não terem ficado em casa no lugar. Pareciam querer estar em casa, ou em qualquer outro lugar que não fosse ali, pareciam querer ser outra pessoa que não eles próprios, ter outra vida que não a deles mesmos. Estava tudo errado com eles e dentro deles. E por ali.

E há dois, três anos atrás, enquanto sorríamos mais e estávamos menos mórbidos e era preferível estar junto do que só, parece tudo imagem de uma vida inteira antes de uma grande tragédia. Que não houve. No meu pesadelo, pareciam todos meio descontentes e frustrados. Numa espécie de frustração posterior, mais funda, pesada, difícil de ser revertida, exceto em caso de extrema coragem em mudar a vida de ponta cabeça.

Os olhos vazios demais. Pareciam esperar que algo de extraordinário acontecesse, que alguém suficientemente engraçado divertisse-os naquela noite. Eles eram incapazes disso (hoje; eram capazes disso há dois, três anos atrás, eu me lembro!). Senti tanta saudade.

No dia seguinte, na semana inteira, e mais pra frente, eu vi as fotos, as mensagens, os vídeos curtos, os comentários sortidos. Vi mais fotos, vi imensos sorrisos. Me senti dentro de outro mundo. Na internet, estavam todos felizes. Estavam incríveis. Parecia a vida real de dois ou três anos atrás.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Espécie de ressaca

De repente quando vimos, estávamos com quase trinta. Ela estava com quase trinta. Era a mais velha das duas, um dado que inevitavelmente te faz lembrar de quando você se conheceram, e como foi quando você conheceu essa que seria uma "amiga mais velha" que você teria em breve. E por muito tempo. E quem sabe sempre.

Quando adolescíamos daquele jeito tempestuoso, com cara de desastre. Quando eu não fazia nem ideia de quem eu era, muito menos de quem eu deveria ser. E fumava e bebia e ia para onde não deveria ir, com vontade de nunca voltar pra casa. Íamos juntas. Conforme devia de ser.

A imprevisibilidade e a intempestuosidade eram as ordens. A falta de planos para o sábado à noite, que inevitavelmente terminava no traço de grandiosos planos futuros, feitos na cama e na bicama, alta madrugada, quarto escuro e domingo meio sombrio pela frente. Eu era uma folha cheia de rabisco e rascunho. Ela tinha um texto bem escrito. Vivíamos de um jeito meio parecido meio próprio meio diferente. Éramos iguais em muito.

Ainda bem que as lembranças falam mais do que as fotos. Infelizmente, há amizades que guardam boas fotos e poucas lembranças únicas. As lembranças ficam com cara de nada, são meio opacas e mais do mesmo; as fotos são lindas, mas sobre dias que guardaram quase nada - e há os que fingem que guardaram.

Nosso caso: as fotos são poucas. Poucas e até belas. Ou poucas e normais. O forte é a lembrança. Nossos dias foram intensos de alguma forma, ou de todas as formas. Quando penso que tivemos uma vida normal e dentro do previsível, imagino que eles foram intensos só em um ou dois terços deles. Ou metade. Quando penso no que nos tornamos e no que poderíamos não ter sido nunca caso não tivéssemos nos conhecido, penso que eles foram vividos bem demais, em intensidade máxima.

Os anos passam. Os dez anos passam. Quinze, vinte. Eles atropelam. E é bom quando de vez em quando eles despertam e dizem: parece que tudo aquilo foi ontem, mas ainda bem que não foi.

domingo, 3 de novembro de 2013

O resto inteiro

O que eu mais gosto e o que mais me preocupa é que a gente vive sem pressa.

O que eu mais gosto é que temos domingos assim, em cores claras. E que o dia segue desse jeito, no ritmo próprio, no nosso ritmo meio lento, com os relógios circadianos mais atrasados do que o normal. E a semana começa sem desespero.

O que mais me preocupa é que os dias correm assim, em cores claras. E as semanas começam assim, sem desespero.

O que eu mais gosto é que os planos vêm com calma. E que os próximos meses e as festas de fim de ano podem ser e serão bem como a gente quer, uns momentos de nós dois, uns dias sem solavancos, e os risos com café e o macarrão improvisado darão boa conta.

O que mais me preocupa é que os planos vêm com calma. E sem medo. E os dias serão assim, assim como nós, assim como os planos.

O que eu mais gosto é que você se acomodou de eu ler os textos em voz alta para que você os ouça. Você se acomodou à minha mania de gostar das palavras, de falá-las em voz alta pra me deliciar, e para conquistar uns outros mais, querendo que você ache isso delicioso assim como eu acho.

E gosto mais foi que me acomodei às suas interrupções de rompantes. Ao seu contrato consigo mesmo de nunca interromper seu próprio raciocínio feito em voz alta enquanto eu conto. Aceito tudo.

E o que não me preocupa é que a gente se acomodou do jeito certo. Um ao outro. E não ao que o mundo espera da gente, ao que a gente espera da gente, às circunstâncias inventadas. Nos acomodamos às nossas verdades, o que eu mais gosto, o que não me preocupa, o que me diz que não devo de me preocupar com o resto inteiro.

Passa

Saudade passa.
Saudade vem antes da hora, vem antes da despedida, obedece a sucessão de abraços contínuos antes do abraço apertado que for o último. Último até a próxima vez.

Saudade machuca antes de doer de verdade. E depois dói. Não se distrai, não se esquece, não se guarda pra depois do almoço nem pro final de semana. Fica avisando que é preciso matá-la se não quer que o mate antes. E vem cedo pra ir embora por último, sugando os últimos segundos da espera, e alimentando o fluxo das expectativas. Elas vivem andando juntas por aí. Difícil ver uma longe da outra.

As duas doem.

Mas passa. Saudade vem, sufoca e passa. E se despede de jeitos diferentes.

A minha morreu lento, sem abraço de volta, sem olhar perto do outro. Sem plano de presente e futuro e o que vamos fazer a partir de agora. A minha morreu lento. Não morreu de volta, de recomeço, nem de tempo. Não morreu porque morreu a memória.

Morreu de ausência, morreu de tédio, morreu de marasmo absoluto de espera. Morreu porque dessa vez ficou de repente desacompanhada da expectativa. Se desculpou por ter vindo com aviso prévio, e antes da hora, e mais forte que o anúncio predizia. E foi.

Saudade passa até virar nada.

Tentando

A folha em branco, o texto pronto, a ideia fixa. A história feita, contada, recontada, incompleta, como deve ser. Minha história incompleta que já terminou. O texto pronto há dias, há meses, ou quase um ano inteiro, o texto pronto dentro da gente. A página em branco, e as palavras engolidas, sufocadas, remexidas, atropeladas no caminho entre a cabeça e os dedos, o coração e os dedos.

Escrever dói quando você tem muito a dizer. A você.