terça-feira, 12 de novembro de 2013

A primeira aula a gente nunca esquece

Mas eu pretendo esquecer a minha.

Quando a gente, por motivos provavelmente irracionais, decide, imberbe na vida, ser professor, admirando dois ou três de vinte professores que tem, ou todos os vinte, e, por outro motivo irracional, acha que eles estão felizes na vida fazendo aquilo, a gente só não sabe do maior segredo que eles escondem (ou disfarçam): o tamanho dos monstros que vêem. 

Dei minha primeira aula na última sexta-feira e ela foi, como muitas primeiras vezes na vida, pior do que eu imaginava. 

Não basta a ansiedade eufórica de planejar a aula. Porque hoje o "professor tem que ser dinâmico", "a aula tem que ser dinâmica", "é preciso usar recursos multimídia", e etcétera! Que se danem os professores, foi assim que eu soube, que têm que dar a tal aula em movimento contínuo desuniforme pra que ninguém durma nem se canse. Os alunos não estão nem aí nem aqui nem em lugar nenhum que não seja o grupo do whatsapp, mas o professor que se vire e seja (seja!) dinâmico. A possibilidade de o aluno, e não o professor, ser dinâmico (equivalendo a simples movimentos a cada vinte minutos, sinalizando que está vivo) não foi aventada. 

Enquanto você dinamiza e diversifica e varre as bases de dados procurando algo que sirva (seja dinamicamente interessante), e as borboletas no estômago brincam. Tudo pronto para o grande dia. 

E nos primeiros cinco minutos: acho que matei os alunos de tédio. E o que restou ali foram cópias ou réplicas do que eles já foram. E possíveis zumbis esperando o toque de retirada para ir à caça. Se eu tivesse soltado a apresentação em slides e sentado junto com eles pra assistir, o desastre teria sido menor. Eu acho. 

O professor (ou projeto de) fica na frente deles os meninos morrem aos poucos. Eu não sei o que foi que eu fiz (pra merecer tudo isso etc). Eles enchem os olhos de tristeza, e escrevem nas testas deles uma vontade inexpugnável de estar em qualquer lugar que não ali. Respiram. Suspiram. Inspiram e param de fazer isso de vez. Morrem muito rápido e não voltam à superfície. (Se é que a sala de aula é a superfície ou o direto oposto.) 

Alguns resistem e até falam, perguntam. Ficam até o final. E juram que não foram pagos por ninguém pra fazer tudo isso - uma manobra inteligente que impede que o professor morra durante a aula, podendo falecer logo em seguida, sem problema nenhum, logo depois de ter postado os slides no Sigaa. 

O ensaio geral foi ruim; foi só a docência assistida, e o professor (o de verdade) estava na sala de aula lutando junto contra os zumbis. Foi só o ensaio, mas eu já estraguei o espetáculo. Imagine quando (se) a apresentação for pra valer. 

Dá medo. Os zumbis entediados. Dá medo. 


P.S.: Sim, tenho monitorado meu semblante nas aulas em que sou aluna, desde esse dia.

2 comentários:

-sOliNo- disse...

quando chegar a minha hora, eu vou estar cagando e andando para os alunos.

Otavio Chagas disse...

Qual era o tema? Qual era a disciplina? Como é a relação do professor efetivo com essa turma e com esses alunos? Tudo isso conta muito antes de você chegar com um tema dado para você se virar para ministrar uma aula. Você se preocupou mais no feedback que era dado em tempo real do que em dar a sua aula, pelo que li no texto. Siga o conselho de Solino e dê sua aula e você verá um feedback muito mais positivo para sua carreira e para sua vida.