domingo, 24 de novembro de 2013

Alfabeto que segue

Amizade e amigos foram coisas que sempre me preocuparam durante minha vida. Que parece que já vai longa, quando penso que tenho preocupações tão antigas.

Pois é. Eu tenho a ilusão de que pra todos, e não pra muitos, mas, pra todos, amigos e amizade são na verdade o ópio da existência, não o problema. A panaceia, remédio para todos os males. Solução. E pra mim foi sempre metade um problema, metade um conflito interno, uma preocupação que atravessou as décadas (duas) e os cenários em que estive. Penso o tempo inteiro nesse ópio controverso.

Me preocupava os grupos de amigos em que alguns amigos eram mais amigos entre si do que dos outros. Minha ficção me fazia crer em grupos cujos laços afetivos fossem homogeneamente distribuídos. Uma massa bem feita pra um bolo ficar bom é assim, e era assim que eu imaginava que era. Mas daí as histórias dos livros (bobos) não se repetiam, e eu perdia uns cabelos com isso (ainda bem que sempre tive muitos).

E me perguntava o que eu tinha de fazer para que o amigo X gostasse tanto de mim quanto gostava do amigo Y, já que eu gostava tanto de ambos, e ambos eram meus amigos, mas só quem me convidava para os aniversários era o Y, e outras vezes o Z, com quem meu gênio nunca bateu. Pois é. Z talvez perguntasse coisas parecidas em relação a mim. Ou não. Na verdade, não. Na verdade, eu não achava que ninguém ao meu redor se perguntava muito sobre isso (muito menos sofresse uns pedaços).

E por essas e outras letras do alfabeto, eu passei uma infância e uma adolescência me perguntando se havia algo de errado comigo, e o que era. A massa do bolo estava esquisita. Consertei um bocado de coisas, me parece. Outras, não, evidentemente (a gente tem defeitos de fábrica e de história de vida que não se consertam). E nesse meio tempo talvez eu tenha conseguido agregar para junto de mim outros ípsilons, que também eram amigos de outros xis, e, também, deixou de me incomodar a amizade inesperada com zês. Mas outras letras incompatíveis nunca deixaram de acontecer, nem de incomodar.

Há amigos por perto que eu tenho dúvidas se devo chamar assim. Pelo menos chamar assim todas as vezes. (Mas se as vezes são um critério, a resposta já estaria aí.) Daí, que depois dessas duas primeiras décadas de vida, me lembro de uma frase que li numa das crônicas da revista Capricho, exatamente nos tempos em que resolver esses conflitos era mais determinante para que a vida fizesse sentido. Acho que foi a Liliane Prata, mas é um acho bem grande e bem velho, com dez anos. Quando ela dizia que além do clichê de que amores vêm e vão, amigos também vêm e vão. E ela dissertava, mas não necessariamente explicava o por quê (e o meu problema foi sempre procurar por esse).

Suas leitoras deviam estar lidando com os namorados que vinham, ficavam, e que elas achavam que iriam durar pra sempre. E que, ocasionalmente, iam embora. Depois de um tempo, iríamos embora deles também. E viria(m) novo(s) amor(es). E ela sugeriu que acreditássemos: amizades também vêm e vão, algumas ficam por muito tempo, outras ficam até para sempre (há amores que ficam para sempre), e muitas vão embora. Os amigos também podem ser passageiros na vida da gente, sem que haja nada muito errado quanto a isso.

O que na época me pareceu um conforto breve para alguém que sofria um pouco com tudo isso, agora é mais um fato pronto sobre o qual a gente nunca pensa. Ou, pior, o qual a gente esconde de nós mesmos, como se também não tivéssemos sido amigo passageiro de ninguém. (A culpa é sempre do outro, eu sei, eu sei.)

Às vezes, grandes amigos fingem um interesse que não existe mais. Às vezes, fingem uma disponibilidade que eles não querem dar, de jeito nenhum, e que empurram pra frente fingindo a vontade. Eles esquecem. Tampam a história antiga com uns problemas cotidianos, com um plano que deu errado. E novos ípsilons e xis podem ser os protagonistas de agora. A rede começa a se rearranjar, parece. E a gente sofre. E passa.

E amigos de outros tempos surgem iguais a nós. Uns que estiveram por perto vão se fazendo partes da gente de um jeito que a gente não espera. E uns de outros cenários vivem histórias opostas, e vêm e somam, e brotam junto com os novos velhos amigos, e com os velhos novos amigos. Os de sempre.

O ciclo se repete, e acontece todo ao mesmo tempo. Os começos e os fins e os meios se dão o tempo todo.

Mas, é provável, há os que ficam para sempre. Há os que sempre estiveram lá. E os que inevitavelmente abandonam sem a despedida. O remédio é não tentar descobrir o resultado pra cada um. O futuro que cada um pode levar, e por quê, e quem, e você. Um alfabeto que quando desisti de montar, deu certo. Ou parece estar dando.

Um comentário:

-sOliNo- disse...

amigos de internet que são vistos 1 ou 2 vezes por ano entram nesse alfabeto? ou estamos na parte numérica da coisa?