sábado, 9 de novembro de 2013

É sábado à tarde

Sufoquei uma manhã inteira em sono depois de uma semana que teve mais que cinco dias, de uma sexta-feira com quatorze horas de trabalho ou coisa parecida, de dois pesadelos com gatos e batidas de carro. Quando agora virou rotina aviões passarem baixo, fazendo barulho alto, bem nas nossas janelas e telhados, acordo com eles de novo. Xingo eles de novo. Pergunto o que é que tá acontecendo e que treinamento é esse de que tanto se fala. Imagino os combustíveis gastos nos aviões que encostaram nos prédios da cidade essas últimas semanas. E no que de mais urgente poderia ter sido feito com o dinheiro gasto neles. Ou o tempo.

Tomei café da manhã sem café como quem sabe que vai dormir por mais horas, e pede que a cafeína não interfira em nada. Eu não sabia, mas meu corpo já adivinhara, e dormi até completar o sono que os aviões e os pesadelos interromperam.

Compartilhei a preguiça que vem depois de muitas horas de sono, aquela que avisa que não ter dormido tanto te deixaria mais disposta, isso sim. E você pensa em aproveitar o dia de alguma forma. Desiste. Comi a janta na hora do almoço, dirigi por ruas surpreendentemente cheias de carros, é sábado, é tarde, achei que todos estariam descontando o sono interrompido de mais cedo, mas não, todos iam fazendo algo de útil com seus sábados. Li o livro novo enquanto escrevia textos inteiros dentro da minha cabeça. Perdi todos.

No salão, a dona do estabelecimento assistia ao programa do Raul Gil, com crianças (ou adultos com vozes de crianças) cantando para impressionar jurados. Eu não olhava para a tv, que fica de frente para outro ambiente do lugar. A plateia vaiava os jurados. A plateia vaiava ainda mais os jurados. A cliente contou do velório aonde tinha ido, e aproveitou o ensejo e a certeza própria de que todas as pessoas vivas gostam de saber histórias de pessoas recém mortas, e tragédias que terminam com pessoas mortas, e dispôs-se a falar da vida da defunta. O pressuposto me exclui da sua plateia ideal, que não te dava atenção e lamentava além da morte da moça, a ideia de que, sim, foi tudo uma tragédia e é uma pena ter acontecido, mas as notícias ruins não me alimentam - sou exceção. As manicures suspendiam os alicates e olhavam para a cliente, enternecidas e curiosas, mais curiosas que enternecidas, queriam saber detalhes da vida de pouco antes da morte. A morfina e a vida particular da mulher que se foi. Todos tão curiosos pelas dores dos outros, pelo simples sabor que a curiosidade (e não a empatia ou a preocupação genuína) lhes dá. E pela mera saciedade que aquilo que é fúnebre proporciona a elas. Das coisas que me assustam, ainda.

O programa atravessava a tarde a plateia vaiava os jurados. Minha rua ficou mais vazia e sozinha. A cidade se prepara para a noite que, inusitadamente, hoje ferve. Há muito o que fazer e pessoas para serem vistas e loucas para ver pessoas que só querem sair para serem vistas. Eu vou ao supermercado. Volto para casa, para o abraço, e namoro. Vamos jantar logo mais, é sábado. Anoitece. É dia de ficarmos a dois, a sós. É o nosso sábado que chegou.

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