segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Espécie de ressaca

De repente quando vimos, estávamos com quase trinta. Ela estava com quase trinta. Era a mais velha das duas, um dado que inevitavelmente te faz lembrar de quando você se conheceram, e como foi quando você conheceu essa que seria uma "amiga mais velha" que você teria em breve. E por muito tempo. E quem sabe sempre.

Quando adolescíamos daquele jeito tempestuoso, com cara de desastre. Quando eu não fazia nem ideia de quem eu era, muito menos de quem eu deveria ser. E fumava e bebia e ia para onde não deveria ir, com vontade de nunca voltar pra casa. Íamos juntas. Conforme devia de ser.

A imprevisibilidade e a intempestuosidade eram as ordens. A falta de planos para o sábado à noite, que inevitavelmente terminava no traço de grandiosos planos futuros, feitos na cama e na bicama, alta madrugada, quarto escuro e domingo meio sombrio pela frente. Eu era uma folha cheia de rabisco e rascunho. Ela tinha um texto bem escrito. Vivíamos de um jeito meio parecido meio próprio meio diferente. Éramos iguais em muito.

Ainda bem que as lembranças falam mais do que as fotos. Infelizmente, há amizades que guardam boas fotos e poucas lembranças únicas. As lembranças ficam com cara de nada, são meio opacas e mais do mesmo; as fotos são lindas, mas sobre dias que guardaram quase nada - e há os que fingem que guardaram.

Nosso caso: as fotos são poucas. Poucas e até belas. Ou poucas e normais. O forte é a lembrança. Nossos dias foram intensos de alguma forma, ou de todas as formas. Quando penso que tivemos uma vida normal e dentro do previsível, imagino que eles foram intensos só em um ou dois terços deles. Ou metade. Quando penso no que nos tornamos e no que poderíamos não ter sido nunca caso não tivéssemos nos conhecido, penso que eles foram vividos bem demais, em intensidade máxima.

Os anos passam. Os dez anos passam. Quinze, vinte. Eles atropelam. E é bom quando de vez em quando eles despertam e dizem: parece que tudo aquilo foi ontem, mas ainda bem que não foi.

Nenhum comentário: