terça-feira, 12 de novembro de 2013

Que Festival Literário?

Eu comecei a frequentar festivais literários porque meu pai, com alguma frequência, estava presente neles. Em cima dos palcos ou dos bancos da plateia.

Eu continuei a frequentar festivais literários porque desde essas primeiras vezes, eu percebi que, sim, literatura e festival, literatura e bienal, além de formarem essa rima, são interessantes e passam longe do academicismo. E de diálogos incompreensíveis. Ou, pior, de monólogos incompreensíveis. Na verdade, os protagonistas do palco estão loucos por se fazer entendidos, sempre, e melhor do que se fizeram (ou não) dentro dos seus livros. E isso garante o papo bom. O evento animado.

E continuei a frequentar com mais vontade os festivais depois que aprendi a gostar de ler. Quando vi que o conselho do intelectual não era mentiroso. Os intelectuais têm razão às vezes, é sério: ler é bom, ler é massa, ler pode fazer toda a diferença na sua vida. E faz.

Foi mais ou menos nesse tempo daí que para além dos papos, dos livros, das histórias que se contavam, das experiências segredadas à plateia animada e atônita (normalmente é assim que ela é, mesmo que seja pouca - o que, infelizmente, ocorre tanto), eu descobri o que julgo mais legal nesse tipo de evento. É ouvir a voz de quem você lê.

No sentido literal e metafórico, claro. (Sou apaixonada pelas letras mas não tanto assim pelas figuras; meu hipsterismo-intelectual não vai muito além, eu juro.)

Eu tenho uma relação muito peculiar com meus livros, vulgo cheia de frescura. Eu sublinho, risco e escrevo, transcrevo, marco orelhas por cima ou por baixo, dependendo do código, organizo-os por categoria na estante, não empresto (não), e, sim, olho sempre pra eles com muito carinho. Exatamente. Desse jeito ridículo que você pode ter imaginado.

Acredito que os livros guardam grandes pedaços meus. As experiências de empatia que tive com muitos deles, os avisos e puxões de orelha que alguns deram em mim (acontece; pegue um livro de crônicas e veja o que se dá), e, em muitos, apertos no peito e nas feridas eternas que a gente tem.

E aí, uma ou duas vezes em um ano, na melhor das hipóteses alguma outra vez também, eu consigo ouvir a voz de um livro que fez algo de tudo isso comigo. Ou que provocou tudo isso de uma só vez. Não é bem a própria voz do livro. Mas a voz de quem deu voz ao livro*, de quem tornou-o vivo, e, obviamente, de quem é diretamente responsável pelas experiências que tive lendo.

Talvez eu esteja pondo pedestais debaixo dos escritores, e exagerando no poder dessas vozes que deram vozes. Talvez eu esteja sendo justa. Mas eu queria ver o prazer da leitura sendo mais compartilhado. O prazer de ouvir as vozes, de valoriza-las. E de prestigia-las. Para que, passados quatro dias de um bom festival, eu não tenha de ouvir "que festival literário?!" outra vez.


*Nesse momento, o pensamento e o argumento ficam esquizóides, mas eu passo bem.

Um comentário:

Ridan disse...

Quase nem ouso dizer palavra após a leitura desse texto. Você é ainda mais bonita do que se deixa (entre)ver. Que força e que profundidade há em você, na sua escrita! Diz lindamente e de forma singular o que é, o que sente, o que percebe, o que "transvê".
Parabéns, menina! Ganhamos todos com a sua palavra.