terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cachorros e humanos

Algumas vezes já me peguei pensando na nossa relação com os cachorros. Tenho um (uma) há onze anos, o que a configuraria mais ou menos como minha irmã mais nova, onze anos, sim, é uma vida bem longa, mais ainda pra um cachorro, e que me fez pensar porque fazemos tanta questão de manter essas vidas bem perto de nós.

Infelizmente eu nunca chegava a boas respostas. E a que eu mais achava acertar, era uma bem ruim - pra nós. Nosso cachorro faz festa quando a gente chega. Muita festa. Fica triste quando a gente sai, quando a gente viaja, e por isso eufórico quando voltamos com uma mala pesada depois de semanas fora. Parece ser alucinado pela nossa presença. Ele não desgruda, ele parece que sorri pra gente. E ama incondicionalmente. E taí o calcanhar de Aquiles do bicho.

Algumas vezes a gente briga feio com nosso cachorro - a expectativa de que ele só faça o que a gente acha legal é que acaba com tudo. A gente grita e até bate nele (numa imensa covardia; se ele não te mordeu, você não pode revidar, bater é proibido). Vinte minutos depois, se saímos pra comprar pão e voltamos, o cachorro tá alegre como se não nos visse há anos. E te faz companhia até a hora do sono (e durante). Parece que nos faz bem ter algo que nos ame incondicionalmente, mesmo depois de feri-lo. É claro que nem todo mundo faz isso com o cachorro, mas, sim, acontece, acontece sempre. Parece que ele é incapaz de se magoar com a gente, o que me faz apostar que é por isso que fazemos tanta questão de tê-los por perto. Como se quiséssemos ser amados com certa facilidade.

Penso muito nisso quando vejo que Hanna não se cansa de balançar o rabo e de latir e chorar e fazer barulhos diversos de felicidade toda vez que chego em casa. Ela que fica tanto só, que não enxerga, e que há muitos anos só reconhece seus donos pelo cheiro e pelas vozes. E pelo tilintar repentino do sino na porta de entrada. Vez por outra ela entra no meu quarto enquanto estudo (ou finjo que) e fica sobre as duas patas traseiras, põe as dianteiras na minha coxa, ou na minha mesa logo, como que em pé, avisando que ela está aqui, mesmo que não esteja prostrada do meu lado. Eu devo tê-la acostumado a não ficar sempre no meu quarto. E quando eu não estou em casa, diz minha mãe que ela entra no meu quarto e dá uma conferida no lugar (cheira tudo e faz um círculo no espaço). O cachorro tomando conta da gente.

Ainda me assusto com pessoas que não gostam de cachorros. E na verdade lamento um pouco por elas. Ter um cachorro simplesmente não vai te fazer alguém melhor - não necessariamente. Mas criar um cachorro e tentar retribuir à ele tudo que você significa para ele, aí sim, por mais bobo que isso pareça, isso parece que te faz uma pessoa melhor. É no que eu aposto agora.

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