quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Contra o verso

A. mora aqui no prédio lá pelos andares de cima. Todo dia, quando sai de casa, A. chama os dois elevadores do condomínio: social e de serviço. O que chegar primeiro ele(a) pega e desce pra ir embora; tem pressa, tem hora, tem um trabalho muito importante. Chama os dois elevadores do condomínio de 23 apartamentos, todos os dias, quando sai. E quando chega, faz o mesmo lá embaixo. Daí sobe, e, quando assiste ao jornal da noite, começa a xingar nossos políticos de oportunistas, diz que se aproveitam do poder que têm pra engordar os bolsos e as contas e os porta-jóias das mulheres. Oportunistas.

B. estuda Direito na universidade, sempre foi seu  sonho. Isso. É estagiário numa das principais instituições de justiça da cidade. Passou em um concurso daqueles, difíceis e tensos, e ganha um salário mínimo no fim do mês. Quando B. não quer ir trabalhar, ele diz, vai até a instituição, põe a digital para cadastrar seu acesso (o "ponto"), e vai embora. No final do expediente, ele volta e coloca a digital de novo. Tá cadastrado seu expediente diário. B. diz que faz Direito por acreditar que a justiça pode fazer uma sociedade melhor.

C. e D. fazem faculdade comigo. Eles(as), como eu, têm direito a 25% de falta em cada uma das disciplinas que cursam, ao longo do semestre inteiro. Quando C. não vai pra aula, D. assina a chamada por D. e por C.. Quando D. não vai a aula, C. assina a chamada por C. e por D. Encontrei com C. e com D. nas manifestações de junho, no meio da BR 101. Querem menos corrupção no Brasil, disseram nos cartazes.

E. foi minha vizinha em outro lugar que morei. Teve um dia que E. estava manobrando o carro em frente ao prédio e bateu em um carro estacionado. E. olhou em volta e viu a rua vazia; acelerou logo e foi embora deixar a filha no colégio, e trabalhar. Esses dias, enquanto lia o jornal no seu consultório, E. comemorava a prisão dos mensaleiros e pedia mais. "Eles têm que pagar", ela comentava com os pacientes aquele dia.

Um comentário:

Rafael disse...

Da próxima vez usa o alfabeto chinês. Tem mais de 4 mil letras, sei lá.
Ou usa só o aeiou. Tão diferente e tão iguais.