domingo, 22 de dezembro de 2013

Ele nu, de botas

Eu pulava na frente dele com o livro aberto e dizia "vem cá, vem cá, você precisa ouvir isso, vou ler só um trecho". Depois "mais esse". "E esse aqui, olhe isso". "Tem mais. "Deixa eu ler a história do começo, espera". "Essa vou ler a crônica inteira, vê aqui".

O Antonio Prata você tem que compartilhar. Tem que ter plateia pra ouvir você lê-lo e para rir com você depois de você já ter rido alto e imaginado a cena em detalhes quando leu na primeira vez. Ele escreveu as imagens em detalhes e com seus respectivos movimentos. E vozes.

Eu ouvia as vozes das crianças e dos adultos, e, a principal, a voz do pensamento do Prata criança. Mas, gente. Ele escreve crônicas desde antes de aprender a escrever. Daí o desespero dele no último dia de aula do jardim dois, quando a professora anunciou com a devida solenidade [sic] que no próximo semestre as crianças aprenderiam a ler. Passou as férias ansioso. Também, a criança que dormia aos sons da máquina de escrever do pai, e cuja mãe trabalhava numa revista pra gente grande, ela "a moça que trabalha lá na editora". Pudera. Comeu o almoço com muita pressa e deu pressa a todo mundo; tinha medo de chegar na escola no primeiro dia de aula do pré e todo mundo já ter aprendido a ler a escrever, menos ele. Seria difícil superar o trauma.

Como deve ter sido superar alguns (ou todos) que estão no livro. Nu, de botas é um livro que você precisa ter e carregar por aí. Deixou meu dia (porque eu li em menos de vinte e quatro horas, não deu pra segurar) mais leve, mais cômico, mais lúdico, e Prata. Ele te faz rir tanto e de tanta coisa.

É o quarto livro dele que eu leio (na orelha de Nu, de botas diz que ele já escreveu dez!, o que me faz crer que editores e livreiros têm escondido Antonios Pratas só pra eles) e, assim como seus outros, mais um impossível de frear a leitura. E mais um que você lamenta (já) ter chegado ao final. Será que ele não tem umas milhares de crônicas prontas pra publicar agora mesmo e eu começar a lê-las... Pensa.

O mais bonito é que o livro é uma infância recontada e bem contada pelos olhos abertos, aguçados e surpresos de uma criança. A criança Antonio. E parece igual a muitas outras crianças e a muitos outros Antonios e a você próprio, e por isso você tem que ler as crônicas em voz alta pra mais gente igual a essas crianças e a esses Antonios e a esse você, para ficarem sorrindo junto, todos. É tão bom.

Me parece que seguem uma ordem cronológica, as histórias. Se sim, formam um romance. Se não, formam um romance. Umas crônicas incríveis de uma infância única e igual a muitas que formam um romance. Um romance. Um grande livro.

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