domingo, 14 de dezembro de 2014

Um futuro de presente

É como se eu já soubesse como vão ser os caminhos e como vai ser quando chegarmos lá. Eu já sei que não vai ser nada fácil, mas que vai ser bom mesmo assim: o durante o depois. E o durante do depois - vai ser a melhor parte, talvez?

Como se eu já soubesse como serão os cômodos e as cores da casa. A luz entrando sem vacilar. Os móveis poucos e os livros muitos. Os barulhos que vamos ouvir durante o dia e o silêncio que pode estar durante as noites e durante os domingos. Os domingos iguais e desse jeito que queremos mesmo: um igual sossegado. Nossos dias de sossego.

Como se eu já soubesse as vozes que as crianças podem ter. As cores dos cabelos e as gargalhadas que serão regra. E os abraços e os sorrisos e as palavras. Teremos uma vida cheias de palavras. As minhas, as suas, as deles, as nossas todas. Porque vivemos de conversar, isso a gente sabe, e eu não paro com os livros e as estantes cheias. A coleção de cadernos. E tudo o que ouvimos e guardamos e repetimos e dizemos olhando uns nos olhos do outro. As coisas boas, principalmente.

Como se já soubesse que virão Natáis e Carnavais e festas nossas para fotografar não muito - porque estaremos ocupados demais em estarmos juntos. Em abraçar e em rir um pouco mais. A rotina repetindo e os anos passando, e o medo do fim dessa vida inteira, meio atrapalhada e simples. A nossa.

Parece que já sei como vai ser. E isso me traz calma. E uma felicidade.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Falta de respostas

Eu acho que o celular vibra o tempo todo, toca mesmo estando no silencioso, me chama lá de dentro ou esquecido dentro da bolsa. Olho. Tem mensagem. Olho, não tem. Olho, tem mais mensagem. Olho, nada. O e-mail não chega. O e-mail ninguém responde. O que mandei ninguém lê. O que li ninguém sabe sobre. 

Fiz tantas perguntas em uma só mensagem que só voltou uma resposta. Fiz duas perguntas em umas duas mensagens e não voltou resposta nenhuma. Cancelei a rede social. Desliguei o celular. Desativei a internet. Aguentei uns minutos. Dias.

Quis escrever e não consegui porque eu esperava respostas. E conversas. Também acho que fica difícil escrever quando se conversa menos. E agora eu fico em casa assistindo entrevistas. Pois é: esse é o tamanho da loucura. Como se os diálogos ao vivo me fizessem falta. Como se os diálogos virtuais suprissem isso, mas eles não existem mais. Existem muito pouco. Insisto e desisto depois de muito insistir. Desisto das pessoas todos dias, cinco vezes. Amanhã fico carente de novo, e o ciclo se repete. 

Quis parar de escrever muito porque não tinha resposta nenhuma para os envios que fiz. Ninguém pra me dizer que eu sou muito ruim ou médio ruim, menos ainda pra me dizer isso e me justificar em seguida. Então foi como se dissessem que eu sou um médio ruim que não vale a pena ler. Não fiquei triste. Só tive pena da energia que gastei com a expectativa. 

Fiquei em silêncio fingindo que não existia mais. Já que as pessoas não estavam tão por perto assim - isso é o mesmo que não existir, ou que existir muito pouco. Até li menos. Pensando, achando e sentindo que as palavras fazem menos sentido também. Que estão fracas - e que as minhas tinham morrido todas. 

Até que discordei e decidi que o silêncio dos outros me deixa pelo menos falar sozinha, sem interrupção; me deixa escrever em excesso, tudo muito ruim, sem as vaias no final. (Já que tudo é silêncio.) Deixei por isso mesmo. Monólogos em som alto e poesias escritas sem vergonha. O começo da solidão foi o começo da loucura. Aceitar a solidão é só o fim desse desespero longo. 

De novo

É porque eu só vinha fugindo, eu disse. Porque tudo que me poderia fazer lembrar eu afastei para não lembrar. Não queria lembrar nunca mais.
E não funcionou, ela disse.
Não. O filme se repete o dia inteiro, a semana inteira. Eu lembro de tudo, eu disse. Eu consigo lembrar de tudo, eu disse.
E se você parar de fugir, ela perguntou afirmando.
Eu vou lembrar ainda mais, eu disse.
Você vai começar a esquecer, ela disse. Se você parar de fugir e aceitar sofrer tudo isso, ela disse.
De novo?, eu perguntei, dizendo com raiva, você quer que eu sofra tudo de novo e lembre tudo de novo, eu disse, você é louca, eu disse, completamente louca, repeti.
Você não sofreu ainda, ela disse. Você fugiu, ela disse. Escondeu de todo mundo.
Escondi para que não me achassem louco, eu disse.
Louco você já está. De tanto fugir. Ela disse.
Não tem remédio, eu disse.
Não esconda mais, ela disse.
E vão pensar que eu sou louco, eu disse, querendo berrar. Só disse.
Só vão achar que você amou demais, ela disse.
Ainda amo demais. Eu disse. Ainda amo demais.
Ainda, ela disse.
Ainda, repeti.
E não existe loucura com mais razão do que essa, ela disse. Aceite. E vamos começar pelo começo, ela disse.
Tudo outra vez, eu disse. Comecei.

Ele de novo

O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós. O Camilo sorriu e disse: não compreendo nada, só queria dizer que gosto da Teresa e que os meus amigos de quinze anos, como eu, estão todos a arranjar namoradas, Gostava de arranjar uma namorada para frente.


E vêm mais quatro livros dele por aí,
de presentes.

O Valter Hugo Mãe.

Não são férias

Eu tinha parado de escrever pra ir trabalhar porque a sensação que tenho é de que passei o ano todo sem trabalhar e gastando tempo escrevendo.
Mas eu trabalhei muito. Só que menos do que devia e aí queria tirar o atraso de dois anos de um trabalho mal feito e sem futuro - a pós graduação.

Não aguentei cinco dias. (Escrevi escondida em todos eles.)

Acho melhor virar vagabunda.
Digo, voltar a escrever.
O que talvez dê no mesmo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A minha questão do feedback

Foi importante pra mim, no último ano, ler o texto do Terron sobre a questão do feedback: http://www.blogdacompanhia.com.br/2014/02/a-questao-do-feedback/

Mudou algumas coisas, é fato. Fiquei menos ansiosa. Fiquei menos preocupada. Fiquei mais relaxada com o fato de ter pouca gente me lendo e tudo bem com isso. Tudo bem mesmo. Sinto até certa liberdade de falar qualquer coisa aqui, porque sei que pouquíssima gente vai ler. E essa pouquíssima gente que lê, não me julga, ou me julga muito pouco. E nessa liberdade eu me viro e brinco que só.

O problema, para quem começa a escrever e começa a gostar de fazer isso para além das fronteiras do desabafo, é querer fazer disso algo mais sério e bem feito. É querer produzir com mais esmero. Aparar as arestas onde elas devem ser aparadas, e deixar umas sobras onde podem ficar algumas sobras. E aí, tudo que a gente mais quer e mais precisa: é ter algum feedback.

Eu fiz uma oficina de contos para descobrir que: tudo o que eu vinha escrevendo até aquele dia não eram contos nem nada perto disso. Meu aporte teórico para aquilo que eu fazia era zero. Mas também fiz essa oficina para terminar descobrindo que: ter quem ouça e quem fale sobre o que você escreve pode ser a parte mais valiosa do processo. Talvez seja a parte mais valiosa do processo.

Em tempos onde curtir e retuitar é o que move nossos dedos e nossos elogios, um comentário virou êxtase. Uma leitura minuciosa é um lucro de milhões. E é algo que você não pode desejar nem esperar - porque é difícil de vir.

Ninguém quer te ler se você não é um escritor famoso. Ninguém faz questão de detalhar sua escrita se não vai ganhar nada com isso. E, mesmo ganhando (não necessariamente dinheiros), pode ser que deixem isso para lá. E deixam mesmo.

A minha maior dificuldade em escrever melhor é não saber, exatamente, como o que eu escrevo consegue chegar nas pessoas. Se a história que eu faço é clichê ou não. Se os personagens falam muito palavrões ou se convencem muito pouco. Se eu sou artificial em excesso ou sou sincera na medida certa. Se eu me revelo demais ou de menos.

Às vezes me pego desejando alguém que fale bem mal de tudo que escrevo, e que odeie meus contos. Porque sei que isso é melhor do que o silêncio absoluto ou o botão do like ativado - já que esse último pode significar muita coisa, inclusive coisa nenhuma. Porque sei que esse é o começo da melhora, do processo mais elaborado, da escrita mais real. Eu não tenho vaidade em ser escritora. Eu só quero continuar escrevendo. Mas, do jeito mais real possível, da forma mais sincera que eu puder. O problema é ter de fazer isso sem feedback nenhum.

A solução é seguir escrevendo. E só.

sábado, 29 de novembro de 2014

Ei, coisinha, vá devagar

Eu fico assustada com tanta gente pedindo para que o ano acabe logo. Para que o mês acabe logo. Para que a sexta-feira chegue de uma vez e a segunda-feira não chegue nunca. A gente se encontra no bar e de repente a pessoa diz como estamos velhos, como está velha, como o tempo passa rápido, meu Deus, como era bom ser jovem e não ter já vinte e cinco anos (pois é).

E é bem assim mesmo.

A única vez em que pedi para o ano acabar logo foi em 2012. Porque 2012 levou cinco anos, na minha vida, para terminar. Porque eu fazia algo que não gostava e que me fazia sofrer muito. Porque eu vinha tentando me recuperar de males que nunca resolvi por inteiro. Porque eu nem sabia o que seria de 2013, mas queria que ele viesse mesmo assim, já que 2012 era o fim de um ciclo difícil demais de cumprir. Pedi mesmo.

No outro ano, quando comecei a fazer o que gostava: passei a pedir que o tempo passasse devagar. Em 2014, já estou fazendo praticamente tudo que gosto, mas ainda não gosto de tudo o que faço. Tem umas etapas por concluir: essas eu quero concluir duma vez, num logo. Mas não quero que o tempo passe rápido por causa delas, de jeito nenhum.

Os anos acabam e eu levo sustos. Meu aniversário chega e eu levo sustos de novo. As pessoas morrem e eu me desespero porque: a vida passa rápido demais. O tempo é ligeiro demais. E me irrita todos quererem que 2014 acabe, que 2015 chegue logo, para no ano que vem fazerem a mesma coisa - o ano inteiro.

Eu já acho que a gente vive muito pouco. Me pego pensando nos livros que quero ler durante a vida, e tenho certeza: não vai dar tempo. A gente deveria viver uns 200 anos, pelo menos. Me lembro da minha avó que partiu de repente, e também digo: mas ela merecia mais cem anos pela frente. Assim como me vejo fazendo tudo o que sempre quis (mas que só descobri que queria há alguns anos), e desejo em silêncio: a vida deveria durar muito mais, é claro, para eu poder ter mais tempo de literatura cotidiana. Era tudo que eu queria.

Quando eu comecei a fazer tudo que gostava e queria, tive a sensação real de que a vida tinha acabado de começar - foi ano passado. E ela segue muito bem, mesmo faltando bastante para completar os cem por cento. Eu não quero que ela acelere de jeito nenhum. Por mim, o tempo pode ir devagar. Mesmo que haja coisas que eu queira acelerar, eu prefiro que o tempo continue sem pressa. E as pessoas também.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Olhando pra dentro e pra fora

Parei no sinal vermelho e do outro lado começa a atravessar pela faixa de pedestres um velho barbudo, bem barbudo. Um papai noel atemporal. A barba branquíssima e comprida, os cabelos muito alvos escondidos num chapéu. A roupa toda azul. Um conjunto. A calça e a camisa faziam um conjunto. Infelizmente me lembrava roupa de hospital, depois me lembrava um pijama, depois me disse que isso não importa, o que importava era um senhor tão velho e tão disposto andando por aí com a roupa que quisesse e ostentando aquela barba. Aquela velhice viva. A bengala que ia junto. Os passos que eram ágeis, apesar de ele ser bem velho - mas pouco envelhecido. Uma imagem de gente que dá para se lembrar pra sempre, penso eu.

No canteiro esquerdo, um aleijado em cima de um skate balança os braços em desespero para pedir uma esmola. O carro alto, grande, imponente. O aleijado pobre e cansado, as pernas atrofiadas. Já diminuído na vida, por que não dizer, já não sendo enxergado pelo povo todo, pela sociedade inteira, que faz questão de esquecer que ainda há quem passe dificuldades do tipo impossíveis. Ele levantava os braços e acho até que queria gritar. Mas se gritasse não conseguiria esmola nenhuma. Continuava exasperado chamando a atenção do motorista: alto e distante dele. É só uma imagem condensada desse filme longo e antigo.

Ele disse que o livro era bobo. Silly. Não acrescenta. Ele repetiu depois que o livro era bobo, que tinha achado bobo, como se não entendesse a minha insistência em fazê-lo ler. Fiquei confusíssima. Aquele livro tinha mudado a minha vida. Talvez eu tenha lido na época certa e ele não. Eu li quando era adolescente. E tudo o que eu precisava na minha adolescência era um Holden Caulfield pensando os meus pensamentos, falando os meus pensamentos, colocando meus confusos pensamentos em palavras. E fazendo uma mágica com tudo isso. Não sei exatamente o que aconteceu, mas sei que eu era outra, completamente diferente, quando terminei a última página. O que lamento mais foi ter dado o livro de presente à ele e não à mim, para reler, porque a única vez que li o Apanhador, era um livro emprestado.

As pessoas são diferentes. As pessoas lêem de jeitos diferentes. Eu gosto do meu jeito.

Meu lugar preferido na cidade muda de cor e de jeito todo dia. Hoje havia muita gente em horário atípico. Dirigi devagar atrás de um carro que fazia o mesmo. Cheguei a usar só um dos braços, enquanto músicas que eu escolhia tocavam no som. Eu tinha verde à direita e azul à esquerda. Hoje o mar estava azul esverdeado. Há dias em que está bem verde. Há dias em que fica meio cinza. Depende da quantidade de nuvens no céu, depende da hora do dia, depende da estação do ano, depende do acaso, depende do meu humor. As cores mudam. A paisagem é uma a cada dia. Dirigi devagar olhando pra ela, como se estivesse olhando pra mim.

Acho que é isso que ando fazendo pela vida.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Obsessão

Fiquei ouvindo poesia na hora do trabalho.
Comecei a ler um dos meus autores preferidos enquanto fingia que estava estudando.
Escrevi poemas bem ruins, fingindo esmero naquilo.
Me esforcei para escrever poemas bem bons que ficaram sem graça.
Escrevi textos sem graça.
Contei histórias desgraçadas.
Escrevi muito quando estive desgraçada.
Devaneei sobre o que poderia nos fazer rir. E ri.
Chorei enquanto lia o Galera.
Reli alguns do Galera. Outros não encostei nunca mais por ter medo de repetir: a loucura de tudo aquilo que senti.
Porque há livros que falam pelos cotovelos não deles, mas da gente. Por isso deixo eles calados na estante e meio escondidos.
Ninguém pega. Nem eu.
Fiquei ouvindo poemas e recitando poemas.
Fiquei lendo Rosa em voz alta, que foi uma das coisas mais bonitas que já consegui fazer.
Não porque era eu. Porque era ele.
É uma das coisas mais bonitas que alguém pode fazer em vida: ler Guimarães Rosa em voz alta.
Quero ter dois cachorros quando for morar numa casa: Guimarães e Rosa. Quero ter um vira-lata Riobaldo. Mas não quero dizer isso a ninguém para que não me imitem e para que quando eu for ter os meus não pensem que eu estou imitando os outros. Foi ideia minha.
Escrevi umas ideias minhas.
Escrevi umas ideias dos outros.
Parafraseei um monte de gente e nem disse.
Consegui ser falsa escrevendo.
Mas terminei sendo sincera em excesso. Aí fiz inimigos.
A principal inimiga que fiz fui eu mesma: porque fiquei espalhando história minha por aí.
Fofoqueira.
Queria ter outras criatividades. Queria ter mais criatividade.
Queria pensar mais e imaginar mais.
Às vezes eu deixo, mas paro. Porque penso no que não devo. Penso em quem não quero.
Aí começo a mentir: a melhor parte de escrever.
Minto felicidades - a melhor parte sobre a melhor parte de escrever, que é mentir.
Fico imaginando alegrias que nunca senti.
Escrevo tudo o que quero viver um dia.
A felicidade.

Eu vivo disso agora.
Larguei tudo. Só finjo que cuido das outras coisas. (Mas cuido.)

Quando agora

Eu tenho muita coisa importante pra fazer. Mas só tenho vontade de fazer coisas desimportantes agora. Como se eu tivesse esse direito mesmo sem ter o tempo de ter esse direito.

O tempo passando rápido. E eu como que não me importando.

Eu não me importo tanto mais. Eu aprendi a não me importar tanto depois que percebi: a gente inventa o que fazer e inventa que é importante. Existe um tanto a mais por aí. Que a gente esquece. Nem vê. O tempo corre mesmo assim, e a gente sem vontade de fazer coisas desimportantes.

Demorei mais penteando os cabelos e olhando pra mim e querendo saber o que eu pensava de hoje, queria pra hoje, faria ainda hoje. Nada. Deixei o vazio flanar por aqui, e ficamos juntos.

Eu só tenho vontade de fazer coisas desimportantes agora.

O importante tem pouco espaço. O tempo ocupa o espaço todo: porque corre. E eu já perdi tempo demais me importando em excesso com o que não me fazia tão bem.

O menos importante me faz melhor agora.

sábado, 22 de novembro de 2014

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Ouvia que era muito egoísta, já que não aceitava fazer o que não quisesse, e ouvia que tinha de fazer o que não gostasse, sim, quando fosse para ajudar os outros. Passou a ajudar os outros e a fazer o que não gostava. As pessoas passaram a exigir que fizesse o que lhe desgostasse só para receberem ajuda. Ninguém ajudava de volta. Vivia de ser sozinha.
Passou a achar que quanto melhor que fosse, mais as pessoas pisariam sobre seus pés. Passou a achar que as pessoas não faziam muito sentido.
Não sabia até onde conseguiria ir. Já se sentia meio morta.
Sentia de novo que pisavam sobre seus pés. E que não se incomodavam se ela caísse por conta disso.
Via que as pessoas humilhavam umas às outras e não entendia por que tinham necessidade de fazer isso.
Sentia que o amor podia salvar, e o amor a abandonara.
Foi viver de ser sozinha.
Se sentia meio morta o tempo inteiro. Achava que ajudar os outros poderia ser caminho para boa sorte. E quanto melhor era para alguém, pior eram para ela mesma. Ficou sem entender esse reciprocidade ao avesso.
Ficou sozinha e cheia de silêncios, sem acreditar mais no que as pessoas lhe diziam.
Me engaram, pensava. Me engaram quando me acusavam de egoísta, me mandando ajudar os outros. Só queriam que eu me doasse.
De tanto se doar, ficou com a solidão e os silêncios. E amor nenhum. Porque não havia mais gente por perto.

domingo, 16 de novembro de 2014

Preconceito cego e surdo - que segue

1. Nos últimos anos, a rua em que moro se transformou em um estacionamento público-privado ligeiramente institucionalizado: há um flanelinha para cada dez carros, e eles começam a trabalhar, rigorosamente, às sete horas da manhã todos os dias da semana. Param quase às seis da noite. Eles já devem ter decorado os rostos e os carros dos moradores do meu prédio, inclusive o meu, e um deles sempre está próximo da garagem; quando eu saio de casa, meu olhar quase sempre cruzava com o dele - afinal eu tenho de prestar atenção aos pedestres para não atropela-los.

No primeiro dia que ele me viu sair a pé pelo portão, disparou um "bom dia" meloso, com a entonação da voz bem trabalhada, naquele intuito de parecer uma cantada explícita. Na segunda vez que saí a pé, ele fez o mesmo. Para cada "bom dia" ou "olá" que ele disparava em voz cantada, uma olhada nada discreta para toda e qualquer parte do meu corpo. Se quando eu estava no carro ele me olhava nos olhos, quando ele me via na rua ele olhava para tudo que estivesse abaixo do pescoço. No dia em que saí pelo portão de mãos dadas com meu namorado, e passei quase ao lado dele, ele fez silêncio pesado e fingiu não ter passado ninguém ali. E nos outros dias em que estive acompanhada, e em que olhei-o nos olhos, mesmo com ele virando o rosto logo em seguida, ele repetiu o silêncio fingindo normalidade.

2. Quando paro no sinal, peço ao cara que não limpe meu pára-brisa. Ele limpa. Quando paro no sinal e não vejo um cara querendo limpar meu para-brisa, ele mete o rodo no vidro traseiro. Quando paro no sinal, e meu namorado tá no banco do passageiro, e peço ao cara que não limpe o para-brisa, e Otávio repete o meu ato, o cara não limpa e sai de perto. Quando paro no sinal, e estamos eu e minha mãe no carro: pedimos que ele não passe o rodo no pára-brisa, e então ele faz questão de jogar água e sabão e deixar tudo bem sujo, e sair gritando algum palavrão - sem limpar o vidro.

3. A moça tinha batido no meu carro e ela e sua mãe começaram e me constranger no meio da rua. Ela bateu atrás, ela passou no sinal amarelo, ela dirigia em alta velocidade mesmo estando com a mãe idosa e o filho criança dentro do carro. Eu estava sozinha e elas me humilharam por eu exigir a perícia. E me insinuaram que eu "já estava acostumada a me envolver em acidentes" - eu havia comentado que era a segunda vez em seis meses que batiam no meu carro. Que - batiam - no - meu - carro. E depois que meu namorado chegou no lugar do acidente, para que eu não ficasse muito tempo sozinha resolvendo tudo: elas não insinuaram nem me humilharam mais; elas passaram e me tratar com mais respeito e consideração.

A corretora de seguros da culpada pela batida falou comigo no telefone. Também me humilhou, e desligou o telefone na minha cara. No dia seguinte, na perícia da seguradora, ela fingiu que eu não estava ali. E hoje me pergunto se ela teria feito o mesmo se eu não fosse eu: se eu fosse um homem, pois sim.


O feminismo tem sido encarado como uma rebeldia sem controle e sem propósito. Como uma histeria. Como se eu não tivesse o direito de me indignar quando vejo que as pessoas me tratam de uma forma quando estou sozinha, e de uma forma diametralmente oposta quando estou acompanhada. Nem todo mundo concorda com o argumento do último evento, quando a mulher se questiona de "será que teria ocorrido assim se eu fosse um homem?". Mas seria, no mínimo, hipócrita, não considerar a diferença que existe entre as situações de quando estou sozinha (ou com outra mulher) e as situações de quando estou com um homem. Como se eu precisasse de um homem para me proteger do machismo. E pensar isso só torna tudo ainda mais absurdo.

Quando absurdo é ter de ser feminista em pleno século vinte e um. Claro que é. Não deveria mais haver necessidade de ser feminista. Não deveria mais ser aceitável lidar com desconhecidos olhando para o meu corpo como objeto de desejo (reparem na palavra 'objeto' - obrigada). Como também não deveria mais ser aceitável que um homem só aceitasse o meu não quando eu estivesse com um homem do meu lado concordando comigo: dizendo não para o outro homem. E menos aceitável ainda deveria ser mulheres me tratando de forma diferenciada: como se eu ao lado de um homem merecesse mais respeito. E a gente ser obrigada a seguir assim sem gritar. O feminismo não é uma histeria, mas já deveria ser.

Na última semana fui obrigada (pela minha consciência) a ler e ouvir comentários preconceituosos e alienados sobre o mesmo tema. Quase todos julgando uma mulher sob uma ótica despropositadamente machista. De  novo. Sendo bem sincera, não sei se fariam os mesmos comentários se fosse um homem no lugar dela; não sei se a intenção dela era só chocar e chamar a atenção, ou se ela tinha uma mensagem (acredito mais nessa última); não sei se aquilo é arte ou não (eu sou um pouco ignorante para arte, infelizmente). Mas nada disso importa.

A manifestação serviu muito mais para reforçar o tamanho da ignorância e do machismo de uma sociedade que se diz não ser assim: a sociedade universitária. Se a intenção dela era nos fazer refletir sobre seus atos, fez pouco isso. O que aconteceu muito mais foi o reforço do preconceito - e era sobre isso que os falantes deveriam ter pensado antes de falar ou enquanto falavam.

Essa consequência é o que agora mais importa; foi produzida não intencionalmente pelo público, e por isso deixa de importar a forma da arte, as intenções do artista, os tabus envolvidos e a hora do dia. O que deveria produzir reflexão são os comentários ignorantes de supostos não ignorantes. O problema é que justo esses sujeitos não viram isso, não olharam para o resultado que eles próprios produziram. Mas os preconceituosos não ouvem o que dizem, são só falantes surdos.

E enquanto isso o machismo segue como essa forma velada de ser covarde - e plenamente aceita por quase todo mundo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Vozes

Você devia namorar com ele. Você não deveria ligar tanto pra ele assim. Você devia saber com quem ele namorava antes. Eu prefiro nunca saber. Não saiba. Não pergunte. Não faça muitas perguntas. Pergunte mais, procure saber! Não deixe que te façam de otária.

E a faculdade, como vai? Eu disse que você não fizesse esse curso, não tem nada a ver com você. Você deveria ter feito outra coisa. Você deveria trancar. Você tem que ir até o fim, começou, termine. Você não sabe o que quer? É normal não saber o que quer. Não é possível que você não saiba o que você quer. Você pode fazer outra coisa depois. Se você fizer outro curso depois, vai faltar tempo no final da sua vida. Tempo passa rápido. A vida também. A gente não pode perder tempo porque não sabe o que quer.

Você deveria fazer um concurso público. Saiu o edital, você já olhou? Você deveria fazer esse concurso para psicólogo. Não quer ser psicólogo? Mas isso não é questão de escolha, veja o salário. Você deveria fazer esse concurso. Você não deveria fazer o que as pessoas te mandam. Você não precisa fazer concurso só porque todo mundo faz. Você deveria ser feliz. A gente nasceu para ser feliz.

Você tinha que pensar mais no futuro. Você deveria pensar mais no seu presente, você vive pensando lá na frente. Assim você não aproveita nada! E o namoro, como vai? Eu sabia. Eu disse que ele não tinha muito a ver com você. Vocês não vão ser felizes. Vocês vão ser felizes. Vai dar tudo certo. No final, dá tudo certo.

Mas você deveria se cuidar um pouco mais, olha pra você, toda cansada e feia. Você tá ficando feia. Você devia fazer menos exercício. Isso é vaidade. Você é muito vaidosa. Isso faz mal. Cuide mais da sua cabeça e menos do seu corpo. Cuide mais do seu corpo. Você vive lendo. Onde você acha que vai parar com isso?

Já estudou hoje. Você estuda demais, né? Você não está aproveitando a vida. É, porque você só pensa nesse futuro. Você acha que vai casar? Você deveria casar, já está na hora. Esse tempo todo e nem estão noivos. Eu hein. Você quer ter filhos? Ah, sim, todo mundo tem que ter filhos, principalmente quem consegue se casar. Mas você vai ter filhos mesmo que não case? Sei não, hein. Não deveria. Você não deveria se casar.

Você podia viajar sozinha, seria bom pra você. Você precisa esquecer essas coisas e viver outra vida. Viver uma vida melhor. Sua vida não tá boa. Olha só sua cara de cansada e de quem passa o tempo todo trancada dentro de um quarto. Você devia ir pro mundo. Não, viajar sozinha não, isso é muito perigoso.

Você é machista. Você é feminista. Você tem frescura demais.

Você ronca. Você é linda quando acorda. Você ainda tá namorando? Mas você nunca fica solteira. Você sofre demais. Você sofre pouco quando precisa sofrer muito. Você tinha que sofrer um pouco mais, às vezes, e sofrer menos para outras coisas. Você não sabe nem sofrer direito.

Já comeu alguma coisa? Senta aí. Ajeita o cabelo, me dá um sorriso. Você é muito chata. Você tinha que sorrir mais. Olha, que cara de cansaço. Pára de escrever tanto. Você tá falando demais.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Outras mulheres

Conheci pessoas de outras partes do mundo enquanto estive em Dublin. Na minha sala de aula, nas primeiras semanas, estive com uma menina e um rapaz da Arábia Saudita, uma brasileira de Natal (sim), venezuelana, coreana, húngara. Professores irlandeses.

Lembro de sempre olhar para a menina árabe com uma expressão de discreta interrogação no meu rosto. Eu até tenho uma amiga com essa ascendência; mas ela é ocidental pura e simplesmente. Pelo menos eu acho que seja, eu a vejo dessa forma.

Mas a interrogação no meu rosto era apenas porque eu não via seus cabelos. Nunca vi. E por não ver os cabelos, parecia que eu mal conseguia vê-la, como se eu não visse seu rosto por completo. Ela também não mostrava braços e pernas. Apenas mãos, pés e rosto ficavam à mostra. Ela tinha traços finos no rosto, traços de menina. Era baixa e magra, um pouco mais baixa e um pouco mais magra do que eu. Mas eu me sentia incapaz de vê-la e lembrar sua imagem, porque o véu parecia encobrir o todo. Minha Gestalt (!) não trabalhava.

Não achei que o cabelo, em si, fosse fazer tanta diferença quando eu conhecesse uma muçulmana. E eu me sentia ridícula em olhar para ela todos os dias e em me esforçar para decorar seu rosto. Se eu a visse pela rua, não a cumprimentaria: eu me sentia incapaz de reconhecê-la.

Uma colega da turma, Natália (brasileira, natalense) um dia comentou em sala já ter ido a um jantar na casa da nossa colega árabe, Alanu – era o nome dela, ou como se pronunciava o nome dela. Alanu, anfitriã, e muitas de suas amigas estavam lá, sem véus, em calças jeans e camisetas (Natália jurou), comendo qualquer coisa de muito gostosa.

A professora logo perguntou sobre como era o cabelo da nossa colega de classe. A descrição de Natália não convinha com o que eu imaginava. E isso dificultou ainda mais que eu memorizasse os traços daquela mulher que tinha a minha idade e uma vida tão diferente da minha, que estava morando na mesma cidade que eu, criando um filho e cultivando um casamento, enquanto eu só tinha saudade de Natal e pensava que o melhor de Dublin era tomar cerveja. E era só. Passei a me sentir meio vazia quando olhava para ela e para tudo o que ela significava, desse jeito que, pra mim, era tão enigmático.


Sinto que faço dessa digressão um discurso bobo que só. De gente que se assusta com gente diferente. Eu me assusto demais com o diferente, todos os dias, e estar em Dublin rodeada de gente de várias partes do mundo significava estar rodeada de vários mundos. Mais que isso: a insegurança de lidar com culturas como a árabe, a japonesa, a russa, me deixavam assustada todo dia. No sentido positivo. Em todos os sentidos positivos.


Semanas depois, eu estava em Umea, no apartamento da Fernanda, dentro da cidade universitária. Eu segurava Benjamin no colo de frente da janela. Ele em pé no peitoril, olhando as árvores e o céu bem azul, sentindo um mínimo de vento que se podia passar por ali. Fazia muito calor. Benjamin pedia frio. Brasileiro nascido no inverno sueco.

A cidade universitária é repleta de prédios baixos, de dois e três andares. Cada um dos andares é um longo corredor feito varanda, na parte da frente. E na parte de trás são só um monte de janelas. Eu segurava Benjamin na janela defronte para a varanda. Olhava para o prédio da frente e para o restante da cidade universitária. Era verão. Férias na Suécia. Faz sol o tempo inteiro nesse lugar gelado de gente gelada: então não havia ninguém nos arredores da universidade.

No prédio exatamente em frente de onde eu estava, apareceu uma mulher por trás da janela: os vidros fechados e cortinas abertas (não sei como isso era possível, naquele calor), e pelo vidro ela olhava para as ruas vazias da cidade universitária. E por esse mesmo vidro eu podia vê-la com clareza. Os cabelos soltos e bem escuros, recém penteados, sendo arrumados e envoltos em um... lenço.

Era uma mulher muçulmana e no exato segundo em que ela terminou de pôr o lenço cobrindo seus cabelos, eu tive a sensação de ter visto algo que não deveria. De a ter visto pelada ou algo do tipo. De ter ouvido um forte segredo seu. Não acho que seja exagero. No mesmo instante, ela arregalou os olhos e afastou-se da janela. Não a vi mais nos meus últimos dias em Umea. E se a tivesse visto, não conseguiria reconhece-la novamente.

Também me afastei da janela e voltei logo para a sala com Benjamin nos braços.

Sou só sins

Me pediu que eu esperasse, e eu disse sim.
E que eu esperasse muito, e eu que tudo bem, não tinha problema.
Mas tinha. Esperei.
Me pediu que não demorasse, e eu corri. Não deveria, mas corri.
Me pediu que fizesse tudo com calma, e eu fiz, e me apressou mais, e eu apressei também. Eu não queria calma nem pressa; queria meu tempo. Não tive.
E me pediu tempo e eu dei.
Me pediu companhia e eu fiquei mais.
Mas quando estive sozinha, foi embora cedo.
Me deixou sozinha por tempo demais.
Me abraçava quando ficava feliz, só, e eu deixava. Eu precisava de abraços e ficava calada se achasse que não deveria pedir por eles.
Chorei em silêncio absoluto. Ninguém nunca soube. Ninguém nunca me viu chorar.
Disse que eu era chata demais e me mandou sorrir. Gargalhei com as feridas sangrando.
Me pediu mais trabalho, e fiz. Me deu trabalho, e eu não podia, mas aceitei e fiz também.
Fiz mais, fiz tudo.
Faltou comigo.
Não faltei com ninguém.
Atrasou meu dia. Não atraso o dia de ninguém.
Falou que o prazo era ontem, eu voltei no tempo e fui.
Falei que o prazo era amanhã. Nunca mais me respondeu.

Morri engasgada com todos os "nãos" que não disse.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A partir de amanhã tem festival literário - mas parece que é segredo

Na aula de literatura, o professor comentava do que vinha lendo. Isso porque a gente fica interrompendo ele pra falar dos livros que a gente lê, muita literatura contemporânea a gente fala, eu falo, e ele diz que não conhece o livro mas ouve mesmo assim e discute bem com a gente. E diz que não tem lido literatura contemporânea. Já passou daquele limite difícil que a menor parte dos humanos enfrenta na vida, que é: assumir com convicção que não vai conseguir ler tudo o que quer. E aí escolhe. Ele tá lendo coisas das antigas. Faz bem. Eu tenho lido coisas de hoje, muita gente de hoje. É o que gosto.

E por sinal ele comenta que a literatura contemporânea deve andar bem das pernas, mas a gente não vê muito crítico literário falando dela. E aí a gente ficaria meio perdido. Os críticos e avaliadores não falam muita coisa; a gente só tem muita crítica e avaliação da literatura do passado. Eu o interrompi imediatamente pra gritar que Mas Isso É Ótimo! E a gente discutiu um pouco essa liberdade de viver sem crítico literário dando bola pro que a gente lê.

Eu tenho lido coisas incríveis na literatura contemporânea. E acho que isso começou de um jeito não muito convencional, mas num caminho que eu insisto ser um dos melhores para se mergulhar em literatura: quando eu passei a frequentar festivais literários.

Comecei a fazer isso na pré-adolescência, porque os meus pais frequentavam. Eu não entendia muita coisa do que os intelectuais falavam, mas eu ia e gostava, e do que eu entendia eu gostava mais ainda. Quando eu descobri que eles não eram bem intelectuais no sentido inalcançável da palavra, e quando eu passei a alcançar as palavras deles, quase todas, eu era adolescente e vibrava ainda mais com os eventos. E passei a ler os autores.

Muita gente só vai a evento ver o escritor que já conhece. Querendo ver de perto o cara que o leitor já conhece dos livros. Mas: o caminho contrário é tão bom quanto, ou mais. Fez muita diferença na minha leitura ouvir João Ubaldo antes de ler João Ubaldo. Conhecer Zuenir Ventura antes de vê-lo debruçado na comunidade de Vigário Geral, em Cidade Partida. Ouvir Daniel Galera contando o Intimidade, em voz alta, em voz livre, sem texto. E depois ler Barba Ensopada de Sangue. Assim como ver Joca Terron de perto, sentir um certo medo diante do cara, e descobrir como ele pode ser (incrivelmente) sensível falando de mendigos, travestis, dos caras cortando árvores na rua dele. E mais.

Fiz o caminho oposto outras vezes, é claro. Só vi Cuenca pessoalmente depois de devorar quase todos os livros dele. Esse dia foi legal: eu tinha muitos livros para serem autografados, e ele arregalou um pouco os olhos quando viu. Mais tarde ele me agradeceu "por eu ter comprado todos aqueles livros". Eu já podia agradecer por ele "ter escrito todos eles", porque eu já tinha vivido todos eles. Também li Ana Elisa Ribeiro antes de conhecê-la de perto e ver que ela é aquilo tudo ali, e mais um pouco. E até hoje nos falamos e nos vemos quando estamos na mesma cidade.

Tenho medo do que poderia ter acontecido se eu tivesse visto Saramago ou García Márquez algum dia na minha frente. E também não me responsabilizo sobre o que pode acontecer no dia que eu cruzar na rua com o Valter Hugo Mãe. Pessoas ficarão constrangidas com minha euforia. Eu sei que sim.

Ainda espero por mais escritores que já li e que quero vê-los e ouvi-los. Assim como não perco nenhuma chance de ver e de ouvir escritores que nunca li. Isso me fará lê-los, mais à frente. (Eu ainda acredito que vou conseguir ler tudo o que tenho vontade.)

E para a minha sorte, não tem faltado evento literário, nem festival literário dos grandes. Por aqui tem. Vai continuar tendo. O problema é que tem faltado gente, eu acho. Vejo pouca. Tem faltado divulgação. Tem faltado um pouco mais de carinho com a literatura, por parte do poder público. As festas e os shows de daqui a um mês são melhor divulgados (já há semanas) do que o festival literário que começa amanhã. Algumas pessoas não vão porque não sabem que vai ter festival literário. Algumas pessoas não vão porque ainda não descobriram como um festival literário pode ser bom.

Eu vou por lá amanhã. Porque eu já descobri esses dois segredos: o de que vai ter; e o de que é bom, de que vale à pena.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Sobre publicar um livro assim

Aqui dá pra ser sincera. Só tenho três pessoas que lêem meu blog - essa história já é velha. Pouca gente vem aqui ver se tem algo que preste na tela. Aqui tudo bem.

Eu vinha vendo muita gente escrevendo coisa sem graça e ganhando aplauso. Fiquei com despeito e com inveja e com raiva e com vontade de fazer o meu. O meu talvez fosse tão ruim quanto, talvez fosse um pouquinho melhor. Não custava nada tentar. As redes sociais fizeram todo mundo perder a vergonha na cara, e em outras partes do corpo também, e deixaram todo mundo fazer o que quisesse com suas palavras e seus talentos. Ou com a falta de palavras e a falta de talentos. Enfim. Tinha coisa ruim por aí. Tinha coisa muito boa. O que importa era que tinha gente demais publicando os escritos e isso estava ok.

Lembrei que só tenho três pessoas me lendo (uma delas sou eu). Pensei por que não, não existe não, só existe sim, vai que pode ser. Sentei a bunda na cadeira e li num rompante dezenas de publicações. Fui selecionando algumas, cortando outras, selecionando mais, e mais, e isso durou uma noite rápida. Poucas horas e o livro já tava pronto.

Quando me dei conta, o livro se dividia, sozinho, em duas partes bem distintas. Eu vinha despedaçada em uma - lembro da época. Eu estava inteira na outra - sei dessa época. Então ele vai ficar assim, dividido. E o título também vai. Tá pronto.

Fiz uma coisa horrível artisticamente, achando que as palavras bastavam. Que basta escrever, basta ler o que tá escrito, e isso é a obra. Mandei um pdf lacrado para uns dez amigos. Todos ficaram felizes. Eu fiquei surpresa com tanta felicidade simples assim.

E a coisa andou a andar. Um amigo de longa data (um dos três que lê o blog) fez a capa. Claro, tava um negócio horrível, preto no branco, só as palavras sozinhas. E um amigo visionário me fez acreditar que era preciso lançar de verdade o e-book.

Lançamos. Deu certo. Não sei se deu tão certo assim. Talvez tenha saído um pouco dos planos.

A verdade é que a preparação chamou mais atenção do que o livro em si. A entrevista teve mais curtida do que o livro teve de downloads. E me pergunto se é tão fantástico assim ver alguém falando sobre o livro, quando na verdade o livro é que deveria ter algo de melhor do que isso. E eu nem sei falar direito. Aliás, já me convenci e estou convencendo todos ao meu redor de que fui obrigada a me expôr daquele jeito.

Penso agora no que o Gregório falava sábado: basta uma crônica pro leitor saber exatamente quem você é; o ator é um tímido, ele se esconde em personagens, apesar de todos acharem o ator um exibicionista; o autor, não, esse se mostra, esse é ele mesmo enquanto escreve, quando publica.

Lá tô eu, no livro, e por isso com vergonha de me mostrar demais à gente demais. Não tenho a menor coragem de fazer propaganda. Porque eu não faço propaganda de mim mesma. Nunca fiz. Nada contra - tenho até amigos que são assim, etc - mas eu vou no sentido contrário. Adoro estar despercebida. Talvez também goste de ter um blog lido por pouca gente. Posso me mostrar sem estar me exibindo. E isso às vezes frustra mas às vezes te dá uma liberdade saudável - mais saudável do que aquela de quem se esconde nas gavetas.

A sensação de dar um pouco errado e de fracassar um pouco era iminente. Agora é real. Ou um pouco real. É assustador descobrir que você anda se exibindo por aí - e aí você pára de se exibir e sente vergonha de divulgar o livro mas ao mesmo tempo se sente triste por o livro não alcançar tanta gente quanto você gostaria.

Apesar da dúvida inteira, a única coisa que me sobra desse processo confuso é vontade de escrever. Acho que dá pra fazer melhor. Olhando daqui pra frente, daqui pra frente.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Para pular o almoço

Depois que vovó morreu, o almoço perdeu o gosto, e almoçar não tem mais sentido nenhum. A comida não serve de nada, só preenche um buraco, e um buraco que pode ser grande como for, precisa de bem pouco pra se sentir cheio. "Tá bom, pode parar" o estômago fica dizendo depois de três ou quatro garfadas.

A comida é ruim, sendo boa como for. Me chega ruim na boca, na língua, passando pela garganta e chegando no estômago. É só um ritual que eu cumpro por motivos de saúde e de impaciência para a encheção de saco ('mas você precisa se alimentar', etc). Se eu pudesse, pularia. Mas eu passo mal depois, e por isso cumpro o ritual. O hábito. O almoço agora é só um hábito. Indispensável, chato, e que eu aperto em poucos minutos, pra não me demorar nesse negócio que ficou com jeito de ausência.

Almoçar agora é ausência. E sentir falta. E pedir que chegue logo o lanche e a janta e qualquer outra coisa, mas que o almoço passe rápido, porque se não posso almoçar com minha avó na casa dela, melhor que nem almoce, melhor que não exista mais almoço. Poderíamos suspender o almoço dos dias. E essa refeição não existir mais.

A ausência ia ficar. Mas eu ia senti-la bem menos. E o dia não teria essa pausa dramática e solitária que agora tem.

Sonhei com a morte

Eu estava na porta da casa onde eu estava morando. Casa estreita, fachada branca, portão de grades, portão também estreito - não havia garagem - e defronte uma rua larga de paralelepípedos. Igual a uma rua em que passo todos os dias. Igual a uma casa em que já passei na frente várias vezes.

Eu no batente da entrada e o pessoal ia entrando pra me visitar. Gente da minha família. Eu que nunca recebo visita de família nem de quase ninguém. Visita é um negócio difícil de lidar, eu acho. Só recebo amigo na minha casa, e só quando eles deixam de ser visita - são os grandes amigos. O pessoal ia entrando e falava que eu vinha com uma cara péssima. Eu dizia que não estava conseguindo comer nem dormir quase nada. Eu estava perturbada. Aquela casa me perturbava, eu senti, eu lembro de ter sentido no sonho, de ter sonhado que sentia, mas não disse nada no sonho. Nem quando acordei. O lugar me perturbando o juízo e os sentimentos todos.

Entramos no quarto e éramos uns cinco. Falei de não me sentir tão bem ali, de uma forma que fosse sutil e que não preocupasse ninguém. Eu estava preocupada comigo mas ligeiramente acomodada a isso. Eu, na vida real, vivo preocupada comigo mas ligeiramente acomodada com isso. Ou completamente acomodada com isso. A gente sonha com o que a gente é.

E lá no primeiro quarto do corredor, cenário igualzinho à da casa da minha avó. No sonho lembro de também sentir saudades da minha avó. A minha avó já tinha se ido, no meu sonho. A minha avó que partiu faz pouco tempo.

Duas camas dentro do quarto, uma em cada parede, uma delas dando exatamente de frente para a porta. Duas pessoas na cama de lá, três na cama de cá, eu estou na ponta, perto da porta. A gente falava da casa, de eu me sentir esquisita e de a casa não fazer bem de alguma maneira. Meu primo começa a contar da história que sabe: da moça que morrera ali dentro, que havia sido enterrada no quintal. Mas que história clichê. Não gosto. Eu acredito em tudo. No sonho, eu também começo a acreditar na história. Nos meus sonhos eu acredito em tudo também. A moça passou oito anos adoecendo; adoeceu fortemente três vezes. E no fim de oito anos, morreu ali.

Mas sim, ele começa a contar a história e todos prestam um pouco de atenção, mas o clima não é pesado pra eles. É só pra mim, que não estou bem. Estou bem ao lado da minha tia, perto da porta do quarto, perto do corredor. Escuto um barulho lá de dentro, lá da parte de trás da casa. Sou medrosa, acredito em tudo: mudo de posição. Não vou ficar perto da porta, eu não. O barulho é nítido. E se repete. Parece alguém que vem vindo. No último barulho, todos têm certeza: alguém - que não estava em casa - vinha vindo da parte de trás da casa. Todos olham para a corredor para ver o que é o barulho, descrentes de que verão algo: e então sou eu que passo em frente à eles, andando pelo corredor, em direção à sala. Ajeito o cabelo com a mão direita, olho para todos no quarto, e também estou vestindo a mesma roupa (vestido azul) que naquela hora. Eu olho assustada. Todos olham assustados. Eu entendo rápido. Eles entendem logo.

Me ponho a gritar em desespero sem que nenhum som saia da minha boca, como sempre acontece nos sonhos, quando a gente quer pedir socorro ou ter a liberdade de se desesperar. Passo a abocanhar as palavras e esbravejar as lágrimas que também não saem; ando e corro pelo quarto, olho nos olhos de todos eles, faço eles me verem e digo que vi, que estou vendo, que era eu, e eles sabem. Bato no peito gritando 'eu vi, eu vi', os sons não saem, não existe barulho, só pavor. E o que passa a doer mais não foi o que acabei de ver há poucos segundos, mas a impossibilidade de ficar desesperada como eu quero, como eu preciso ficar naquela hora.

Insisto em ferir minha garganta gritando silêncios, chacoalho os braços para que eles vejam o meu desespero sem som. Todos entendem. Todos sabem exatamente o que vai acontecer.

Oito anos. Eu já estava dentro deles. Já tinha começado a morrer.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sem parar

Não vai caber tudo dentro de vinte e quatro horas e já estou cansada antes de acordar, dormindo, ainda cansada, que não deu pra descansar tudo, a sequência do dia vai ser muita.
Não deu tempo de comprar nada pra comer no café da manhã hoje. Até porque supermercado toma muito tempo.
Pelo menos ainda tem café.
Já trabalho.
Já tenho raiva.
Olha que não dá pra fazer muita coisa ao mesmo tempo quando a maior parte das suas atividades depende de outras pessoas. Os chefes. Os chefes dão mais trabalho do que as pessoas que trabalham pros chefes. É sempre assim.
É sempre assim?
É gente demais pra me cobrar e pouca gente pra eu cobrar de volta. Essa balança tá mais injusta que minha equação entre atividades e tempo livre.
Não sei o que é tempo livre.
Cheguei atrasada de novo.
Fiz o texto antes de todo mundo, porque fiz sozinha.
É o que sempre digo. fazer tudo sozinho deixa o dia mais rápido, cabe mais coisa.
Mas eu não posso fazer tudo sozinha porque sempre tem alguém pra trabalhar junto comigo, só que atrapalhando. Aí acaba o dia e não faço nada. Aí acaba comigo também.
Aqueles trabalhos que não se movem. Trabalhos em grupo, claro.
Pelo menos isso aqui dá pra fazer sozinha.
Editorial.
Veja só, se dá pra escrever editorial à quatro mãos. Se dá pra escrever alguma coisa a quatro mãos. É impossível escrever em dupla. Escrever é atividade de gente só, é coisa pra se fazer sozinho.
Por isso que o artigo não sai. São seis mãos. Três cabeças. Três cabeças não pensam em nada, só em fazer todas as outras coisas que der pra fazer quando a cabeça estiver sozinha.
Corre o dia.
O café do corredor é tão ruim que se eu trouxer meu café pra vender aqui capaz de ficar rica.
E me estressar menos do que tendo de escrever trabalhos a quatro ou a seis mãos.
Minha dissertação é escrita a duas mãos, mas isso é mentira, porque são duas mãos e três cabeças.
Esses excessos não fazem bem.
Tudo que eu queria era ser indormível.
Mas o que eu queria mais ainda era dormir hoje.
Acordar e escrever sobre coisa nenhuma.
Comer devagar, porque almocei tão rápido que já esqueci o que tinha no meu prato.
Estava no caminho da escola e não era a escola, era outra. No caminho da outra, e tive que voltar pra casa. Não estava lá quem deveria estar.
Eu calculo por quantos minutos eu poderia ter dormido.
Eu imagino que no meu pescoço anda um crachá pendurado dizendo Adoro Trabalhar Me Chame Agora, e na minha testa uma tatuagem que só eu não vejo que diz Não Sei Dizer Não.
Aí eu vou fazendo tudo de muito, pouco de mim.
Resta quase nada meu no fim do dia.
Eu penso que gente otária vive mais cansada.
Eu vivo cansada demais.
O dia vai na metade. A sensação é de que ele é interminável.

E vai.
Ainda falta muito pra hoje. Hoje que vai até amanhã e depois. Sem parar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

V. H. Mãe

Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas. 
Quando empedernir, esquecido de toda a humanidade da vida, ficará entre as loiças, como inútil souvenir ou peça de mesa para uma festa que nunca acontecerá. 
Terei sempre pena dele. Estará como um animal antigo que perdeu a qualidade dos novos dias. Sem visitas. Será apenas a humilhação entristecedora de todos os afetos. 
Poderei, nas arrumações, preparando alguma partida, aligeirando os fardos, deixá-lo no lixo para que a natureza o recicle com as suas ganas aturadas de começar tudo. Até lá, a minha coragem assume apenas a evidência de que somos matéria morrendo. Começarei morrendo pelo coração. 
Gostarei sempre dele, como se gosta do que está extinto, sejam os dragões, os anjos ou as distâncias. Histórias de coisas que não voltam. 
O meu coração sem visitas perderá a memória, e, quando nos separarmos de vez, certamente será mais feliz. 
Se me perguntarem, direi que nasci sem ele. Jurarei e mentirei sempre. 
Talvez, depois de esquecido, sirva de ocarina e possa com ele tocar canções. Um coração por ocarina faria todo o sentido do mundo. 
Pudesse esse ser o destino de cada um, amadurecer assim o coração. De percussão a instrumento de sopro. Ensaiar uma melodia até o fim. Ter uma melodia por identidade e deixá-la a alguém que a aprendesse. Quando não existíssemos, estaríamos suficientemente no som. Bastaria o som para impedir que a morte fosse tão exagerada. Talvez quem aprendesse a canção pudesse também guardar-nos as paixões. Pousá-las ao pé de si. Dizer: esta ocarina é bonita. A morte seria só bonita. Uma coisa de ouvir contra o silêncio insuportável.

Antes de dormir

Mordia os pulsos durante a noite, antes de dormir, se mordia inteira. Mordia pulso e o braço, e toda a parte de dentro do antebraço, a parte mais clara, mais branca, sem pêlos, não queria morder os próprios pêlos. Fazia força segura e sustentava a mordida em intervalos cada vez maiores. Não olhava o tamanho dos sulcos que ficavam na hora: toda manhã era uma decepção - sobravam muito poucos. Então pensava nisso e mordia mais forte, e mordia por mais tempo.

Já tinha deixado de chorar havia meses. E à essa altura já se sentia tão sozinha que a solidão não incomodava mais. Sentia todas as dores, ainda, todas todas, via os arranhões externos e vermelhos que não sabia onde os tinha conseguido. E sentia as dores no peito e na garganta, dores de quem morre devagar, dores invisíveis aos olhos e ao espelho.

Mordia. As mordidas ardiam e o melhor momento era quando a dor era tanta que anestesiava. Como quando você se sente tão sozinha que não sente mais a solidão pesada, presente, real. Como quando você sente uma tristeza tão profunda que passa a se sentir tranquila carregando-a por dentro do corpo.

Mordia para sentir uma dor ainda mais forte, uma dor mais pesada e crua. E pensando em dores cruas pensava na sua própria carne sendo dilacerada, assim, noite a noite, mordida após mordida, com tristeza plácida e solidão que acompanhava. Era toda ela.

Mordia mais demorado. Dores maiores apagam qualquer infortúnio menor. Mordia mais firme. Pois se ferir é mais confortável do que ser ferido por outrem: dá pra saber quando vai vir, quando começa, por quanto tempo vai durar; você tem total controle de tudo. E ainda distrai, ela pensou. E ainda distrai de outras dores.

Mordia. Até adormecer, até faltaram-lhe os espaços limpos e brancos, até as veias parecerem reclamar e ficarem mais verdes e mais saltadas, até a dor ferir de um jeito que chamasse o próprio desespero. Nesse ápice, a dor fica branda, a dor cansa um pouco, e ela adormece.

Quando amanhecer, vai conferir quantos sulcos sobraram pela pele.

Estranhices

O cara pedalava a bicicleta e seguia rápido no trânsito pela direita. Ele só tinha uma perna, e no braço esquerdo ainda conseguia segurar sua muleta - dessas grandes, quase do tamanho de uma pessoa. Ele ia rápido, era hora de trânsito pesado, era avenida Prudente de Morais.

Eu até hoje não aprendi a andar de bicicleta.

A aluna na sala de aula leva a filha para assistir aula com ela, a filha criança. A aluna passa a aula todinha no celular, também chega atrasada, também demora a voltar do intervalo. A filha criança volta do intervalo antes que a mãe. A filha criança não paga a disciplina.

O livro maravilhoso terminou de um jeito terrível. Valter Hugo Mãe assassinou meu coração e eu segurei o choro.

Tenho vontade de chorar o tempo todo. E choro quase todas as vezes em que tenho vontade.

Tenho vontade de fumar a maior parte do tempo. Não fumo.

A moça entrou no restaurante onde não tinha quase ninguém. Sentou em cinco mesas diferentes, de cada uma das mesas fazia uma pergunta à garçonete. Não fazia o pedido. Mudava de mesa. Tinha os cabelos embaraçados, louros, opacos, soltos como se estivessem revoltados. Ela claramente não se importava com os cabelos revoltados nem com muita coisa ao seu redor. Mudava de lugar novamente. Fazia outra pergunta. Parecia normal, à primeira vista. Me deixou inquieta e fez a garçonete se perguntar por quanto tempo ela continuaria fazendo aquilo.

Tenho um medo e um desejo absurdos de estar sozinha.

Meus pesadelos envolvem a sucessão presidencial, e não sei se me sinto finalmente adulta quando lembro disso.

Se começar a chover agora, eu vou me sentir melhor. Não sei dizer por quê.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Acostuma-se

Como se eu tivesse acordado com uma tristeza simplória. Simplória e infinita. Leve e minha, toda minha, como se aquele peso todo já fosse eu. Já devo ser mesmo. Mas pesando menos, ou mais acostumada ao peso grande.

A gente se acostuma a tudo. A tudo mesmo. Foi como se eu tivesse me acostumado ao tamanho da dor e a tudo que ela representa. A todos os caminhos da cidade que me fazem assim e a todas as lembranças que estão aí mais presentes do que meu presente inteiro. A gente se acostuma a tudo. Até a nossa tristeza, até a tristeza grande demais, firme demais.

E leveza que passou a existir, mesmo bem triste, parece a garantia de ter aceitado. O que aconteceu e o que continua a acontecer - momentos que incluem estar assim, sôfrega. Como se sofrer não incomodasse tanto mais, como se a dor contínua no peito desse lugar a uma melancolia serena, bem minha e bem própria. Como se eu já estivesse sendo tudo isso.

Já estou sendo tudo isso, e faz tempo. Agora aceitei mais. Agora as coisas assentaram-se, os vazios continuam vazios, mas ocupando seus respectivos lugares como espaços de direito. Porque vazios estarão eles por ainda mais tempo, talvez para sempre.

Talvez eu fique assim para sempre. Talvez. Mas a gente se acostuma a tudo, até a ser triste, até a ter vazios, a ter pedaços faltando. Os pedaços que faltam me desesperam menos.

Como se houvesse um modo de ser feliz e triste ao mesmo tempo, triste e feliz ao mesmo tempo. Existe.

E a gente se acostuma a ser assim também.

sábado, 11 de outubro de 2014

São loucos

Ela dizia repetidamente que não, que surtar não era loucura nenhuma, que gritar os gritos e os demônios do corpo não era ruim nem era loucura feita nem era enlouquecer, que ficar louco era totalmente diferente disso, era muito longe disso também, ela disse que loucura era ser normal demais, o que a gente chama de normal demais, ela disse, o que vocês acham que é normal demais, que é sempre normal, na verdade é ser louco, isso de fazer tudo igual todos os dias do ano por muitos anos, muitos anos!, sempre de oito às doze e de duas às seis e depois chegar em casa e fazer tudo igual novamente, e no outro dia, de novo, de novo, de novo, uma vida inteira assim, repetindo, fingindo que vive quando na verdade nada faz, nada faz!, nem existe, nem sequer existe, isso que é loucura, isso que é estar louco, e sabe o que mais, sabe o que confirma que isso é loucura, é que quem faz isso acha que isso é normal e bom, que é pra ser assim, porque só um louco pensa no que faz como sendo algo normal, que é esse caso, quando a pessoa nem pensa mais no que faz de tão normal que já acha que é, tá vendo, isso é loucura, e ficaram com medo de mim porque comecei a gritar muito alto e a correr abrindo a boca pra tomar a chuva, só porque eu queria sentir o gosto da água suja que a chuva pode ter, é o que a chuva pode ser, e porque comecei a correr em círculos e a gritar pro chão, porque pra cima vinha a chuva descendo e eu não queria interromper a chuva, então comecei a gritar para o chão mais alto e mais alto e todos começaram a dizer que eu estava louca. 

Quando terminei, eu estava feliz.
E depois que terminei, eles voltaram a fazer tudo igual ao que estavam fazendo antes, tudo igual ao que vão fazer para o resto da vida. Loucuras. Foram fazer loucuras. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sou

Sou bicho podre e sozinho. Bicho podre de carne crua carne exposta.
Sou bicho mudo e triste, que grita por dentro do estômago e se sufoca.
Bicho vazio e doente.
Que fala sozinho e fala baixo, e murmura o tempo inteiro.
Sou o resto de facadas mal dadas no pescoço, facadas dadas para soltar choro preso.
A garganta ferida.
Sou bicho dos olhos aguados.
Sou bicho de morte. Bicho que morre todo dia, sem fome, sem cor de nenhuma coisa.
Na agonia da morte lenta.
Sou bicho que se mata aos poucos. E vai.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A gente só

Eu não. Eu tenho medo de gente sozinha. Eu olho pra ele, chegando na sala de aula, com cara de quem fala pouco o dia inteiro porque não tem com quem conversar. Eu tenho medo de gente que não tem muito com quem conversar. Não sei se essas pessoas se tornam pessoas desesperadas por falar demais e por serem sempre ouvidas. Ou se deixam de se importar com isso e com tudo o que isso implica - contato.

Tenho medo de quem não tem contato com os outros. De quem chega em casa e tem silêncio. Sai de casa e deixa silêncio. Deita pra dormir e só ouve o silêncio, e se acorda no meio da madrugada tem de lidar com o silêncio de novo. Um silêncio ensurdecedor das vozes reais. Só tem barulho se as vozes forem da música e da televisão. Não quero. Não dá. Tenho medo de quem ouve poucas vozes reais durante o dia porque acho que isso enlouquece um pouco.

Você almoçando e sem ter com quem falar. Você cortando as unhas do pé, de noite, depois do banho, e ninguém pra te ouvir reclamar que a vida é chata e que fica mais chata quando você tem que parar o que tem que fazer pra cortar as unhas dos pés. Eu ia terminar cortando os dedos no lugar das unhas. Sem querer.

Eu tenho medo de quem se acomoda e gosta disso e vive assim. E quando chega na aula está sozinho e calado, e quando eu vejo andando pela rua está sozinho e calado também. Quando chegar em casa, tudo igual. Os anos passando. A ausência de casamento e de filhos. Não tem casal nem tem criança nem tem nada além da pessoa, só. Da pessoa só. Só de sozinha.

Eu tenho medo de quem gosta de ser assim. De quem aprendeu a ser sozinho e que não se desespera nem enlouquece em ser assim.

Porque na verdade eu tenho medo é de ficar sozinha. E de enlouquecer - sem ter ninguém pra ver nem me escutar gritando de loucura.

Mas gritar é coisa de gente sozinha, Afonso Cruz disse.

Eu sinto vontade de gritar o tempo inteiro.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Solidão continuada

Um silêncio que não foi pedido. Um passado que não esqueci. Um presente que não me dou conta que tenho. Presentes que não me dou conta que tenho, que ganho. Ausências premiadas. Universos distantes, mais silêncio. Saudades de outros passados. Dos barulhos e conversas. E-mails que não são respondidos. Cartas que nunca foram enviadas. As mensagens que guardei. O ano que acaba e a saudade que paira. Vem mais pela frente. Mais silêncio e menos respostas, mais ausência.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

VHMãe

Sente-se como uma dor de estômago mais a fundo. Como se o estômago estivesse a descer e a querer sair pernas abaixo. O meu pai perguntou: a morte. E eu respondi: não. As flores das mulheres. O sangue apodrece e cheira mais forte. Corre dentro como um bocado de fogo raivoso, porque me arde. Expliquei assim. Mas o meu pai não conversou mais nada. Teve vergonha. A minha mãe disse que era um pequeno vulcão. São as flores das mulheres. São de sangue. São de lume. Magoam. Todos me falavam de passar a ser mulher e sobre o que isso significava de perigo e condenação. Ser mulher, explicavam, era como ter o trabalho todo do que respeita à humanidade. Que os homens eram para tarefas avulsas, umas participações quase nenhumas. Serviam para quase nada. Como se fossem traves de madeira que se usavam momentaneamente para segurar um teto que ameaçasse cair. Se não valessem pela força, nunca valeriam por motivo algum, porque de coração estavam sempre mal feitos. Eram gulosos, pouco definidos, mudavam com facilidade os desejos, não conheciam a lealdade passional, concebiam apenas engenharias e mediam até os amores pelo lado prático da beleza, gostavam sempre de quem lhes parecesse dar mais jeito, como se procurassem empregadas ao invés de esposas, como se precisassem de precaver os seus próprios defeitos mais do que as virtudes livres das mulheres.

Valter Hugo Mãe.
A desumanização.

Tal pai, tal pai.

Era uma das primeiras aulas da primeira disciplina de leitura e produção de texto. Ler e escrever, ler e escrever, o que a gente supostamente fazia por ali. Eu cheguei atrasada depois do trânsito típico das obras da Copa, e a professora tinha acabado de completar a chamada. Perguntou meu nome, para pôr a presença. Eu acho que disse só o primeiro nome (não devia ter outra Beatriz na turma), mas ela olhou meu sobrenome e na mesma hora perguntou, antes que eu me sentasse, inclusive: se eu era parenta do meu pai. "Sou filha", respondi. Ela fez uma cara de quem recebeu uma notícia semi-impressionante. Uma cara que até hoje não sei necessariamente o que queria dizer.

Passou.

Semanas depois, a professora começou uma maratona de produção de texto. Finalmente. Porque, até então, com a professora anterior, a gente só tinha visto teoria teórica! A mulher de agora botava a gente pra escrever. Na sala de aula ou em casa.

Ela estava num congresso quando eu escrevi um conto, à mando dela, e enviei logo por e-mail, na data combinada. Ela elogiou meu trabalho, disse que eu escrevia bem. E fez questão de complementar algo sobre meus genes, minha herança genética, como se fossem estas as responsáveis por um texto bem escrito.

Semanas depois, ela premiaria com livros os melhores contos na turma. O meu ficou em 4º lugar. Eu nem merecia receber livro, já que 4º lugar é 4º lugar. Mas enfim. Acho mesmo é que ela queria me dar o livro que fala de trabalhos anteriores do meu pai, livro escrito por ela. Mas as motivações dela não me interessam. De novo, eu voltava para a cadeira, e, ainda em pé, ela elogiou meu trabalho novamente, e fez questão de dizer outra vez: mas também, sendo filha de quem é. Disse isso com um sorriso no rosto, sem deboche, sendo felizmente sincera, mesmo.

Eu gostava bastante dessa professora. E ainda gosto. Mas tive de ficar pelo menos ofendida a cada vez que ela disse isso. Lembro da Ana Elisa Ribeiro falando para uma turma de estudantes do ensino médio: que esquecessem essa história de que escrever é 'dom', que todo mundo devia escrever, sim, porque boa escrita é resultado de trabalho. Ana disse em seguida: quando alguém fala que eu tenho o 'dom' de escrever, eu sinto que essa pessoa está menosprezando meu trabalho, porque eu escrevo todos os dias.

Às vezes eu escondo que sou filha do meu pai. Pelo menos quando sei que um comentário desse pode surgir. Porque eu também escrevo todos os dias. E apesar de achar que não escrevo nada de excepcionalmente bom, tenho certeza de que o que sai melhor não é por causa dele, mas por causa do que eu faço, todos os dias, sozinha, só ouvindo meu silêncio. Eu quis dizer à professora que não são meus genes que escrevem os textos, só minha cabeça ruim e minha disposição mesmo. Mas passou.

E eu lembrei dessa história comprida e chata quando olhava, ontem, a lista dos deputados federais eleitos pelo estado da gente. Eleitos pelo povo que vive aqui, que mora aqui. Milhares de pessoas pensam igual à minha professora: os filhos são feito os pais, são quase que a mesma coisa, por isso vamos manter todo mundo em seu lugar, vamos respeitar a sucessão hereditária. Somos capitania hereditária, pois bem.

Não é necessário pensar se o que o descendente faz é trabalho dele; aliás, não é necessário buscar qual é o trabalho dele. Porque o pai já fez. No meu caso, pelo menos, a professora leu o conto, deu uma olhada no meu trabalho, e só os créditos é que foram dados de forma meio errada. No caso de ontem, não sei sinceramente qual o conceito de trabalho e de crédito que os eleitores se valeram.

O problema: é que a professora tentava me elogiar, mesmo que de um modo torto, porque ela acha que meu pai faz um bom trabalho. O problema maior: é que sobre os pais e os filhos que milhares elegem para nos representar, eu não acho que deva dizer a mesma coisa.

sábado, 4 de outubro de 2014

Ainda bem que deu errado

Esse livro é dedicado a tudo que deu errado, foi o que li no livro, no livro de poesias, a dedicação e agradecimento a tudo que deu errado. Tudo que deu errado terminou naquelas palavras, nas estrofes tortas, e no tudo que veio depois.

Ainda bem que deu errado. Depois que demos errado, depois do profundo nada, depois das dores matadoras, depois que a gente se esbarrou e se espancou enquanto pensava se amar. O depois me deu sóis.

Conheci países. Pessoas. Amores. Tive amor novo, grande, sadio: o meu próprio. Fotografei com os olhos lugares novos, e tirei novas fotografias dos lugares velhos que conheci com você. Escrevi. Escrevi você nos papéis, nas paredes, no meu teto. Passei uma tinta lilás por cima das palavras onde te escrevi. Deixei meu teto na minha cor preferida. E fui olhar pela janela de novo.

Deu tudo errado. E eu inventei pelo menos quinze ou vinte novas histórias em que tudo dava certo. Inventei outras quinze onde tudo dava errado, de novo, mas de um jeito diferente. Há várias formas de darmos errado, e só havia uma de dar certo (a que tentei com você), porque as outras que inventei eram bem mentirosas.

Ainda bem que deu tudo errado. Apesar do passado assombrando, da obsessão complexa e fria, apesar da memória me maltratar, o tudo errado me deu um presente maior e melhor do que imaginei ter. Esse agora. Nosso amor não é mais protagonista.

Ganhei o papel principal.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

exorcismos

ou solta e corre pro lado oposto
porque o desgosto
já não pode aguentar.

corre,
corre, tão pouco.
corre.

Há gosto
quando o nosso começou

E outubro
ou nada

O que restou de nós dois.

~~


não pense
que foi pouco

Foi tudo que já tive.

~~

Quando estive viva:

só não pense que foi pouco
os dias longos
os poucos meses

por algumas semanas,
tudo que tive.
por muitos anos depois,
também.

e nem é mais meu.
mas é tudo que tive,
que tenho,
até ontem.

~~

dentro do livro
de contos
as contas
que perdi
desde quando o escrevi em mim.

~~

escrevi você em mim
você se inscreveu em mim

~~

escrever é exercício,
ela disse.
escrever é exorcismo.
exorcizo.

me inscrevo.

~~

As partes em itálico foram transcritas do livro de Sinhá, Na Veste Dos Peixes As Palavras de Ontem.
As partes que não estão em itálico foi o que o livro dela me fez escrever. Sem filtro. No susto.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Não sou escritora

Quando comecei a escrever, eu tava doida pra falar comigo. Eu queria que alguém me ouvisse, mas tinha vergonha de dizer o que tinha vontade de dizer. Falava comigo mesma. Escrevia. Passava horas. Escrevia um monte de tudo que no final era um grande nada. Assim como hoje.

Nunca me mandei escrever. Nunca mandei na minha escrita - também não tentei. Sempre deixei que ela me levasse para onde quisesse, e que me deixasse onde ela quisesse também. Já passei tempos em ausência de tudo, presente só em mim mesma, porque: escrevia.

Não crio história nenhuma. Só conto histórias que acontecem. Que eu vejo e que eu escuto. Ou que sonho. Adoro escrever sonhos, mas só quando eles ficam na memória o dia inteiro: são os que pedem para ser escritos e para ficarem guardados. Eu obedeço. Eles ficam. As histórias ficam. As histórias e os sonhos são que se escrevem, sozinhos.

Não sou escritora. Porque não é meu trabalho, não é meu dever, e não pretendo que seja. Não consigo mandar nas minhas palavras, não consigo ser dona delas. Por isso tem dias que não escrevo. Tem dias que não escrevo muito. E tem dias que escrevo sem parar e não faço outra coisa.

Não tenho nada de muito grande para dizer a ninguém. Mas tenho todos os sentimentos do mundo para contar a mim mesma. Por isso escrevo.

Não sou escritora. Não quero ser escritora. Eu só quero escrever. É só isso que tenho feito.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Histórias que fazem falta

Até pensei em escrever pra ele e dizer que, olha, eu queria um livro novo seu, porque já li todos, já li as colunas do jornal, já reli os contos do pdf também. Ele ia pensar que isso só pode ser castigo; gente desconhecida enviando e-mail pedindo livro novo. Uma encheção de saco, como se escrever livro fosse fácil como escrever um e-mail enchendo o saco dos outros.

Falei pro Otávio esses dias: vou ter que reler algum dos livros, então. Não tem livro novo, já li tudo, já li o que foi pros jornais. Ele saiu dos jornais (não sei até quando). E ao mesmo tempo eu não queria repetir os livros. Porque a experiência de lê-los foi mais singular e extrema do que quase toda a literatura que eu já li: ler de novo aqueles livros seria ler de novo coisas minhas que eu venho fazendo questão de esquecer (ou de só contar para mim mesma).

Mas fui reler Até o Dia em que o Cão Morreu, na desculpa de que eu tinha uns textos sob encomenda pela frente. Comecei a ler e anotei algumas coisas. Comecei a ler e me perdi e me encontrei dentro do livro - como da outra vez, como com os outros livros.

Lembrei do desespero solitário que senti lendo O Cão na primeira vez. E de como isso se repetiu. E de como essa solidão, ao longo da história, me soa mais natural do que estar acompanhado e em busca de algo. De como eu me sentia melhor acolhida dentro do apartamento vazio (e de tudo que isso possa significar) do que pertencendo a um lugar qualquer.

Aconteceu parecido quando estive assistindo à história de Mãos de Cavalo. Eu lendo aquela espécie de solidão elevada (é assim que chamo, é como entendo e como não consigo explicar, paciência), uma ilusão de ter tudo e uma certeza de não ter absolutamente nada, ou uma certeza de ter tudo e de não saber o que fazer com isso. A etapa posterior à realização do desejo: o vazio. Mais vazio. Li esse livro durante uma viagem, longe de casa, em lugar frio (em todos os sentidos), e lembro de ter me sentido melhor com o livro no colo. Como se o livro me ajustasse melhor no mundo - se é que isso existe. Como se a empatia de alguém que não me conhece me transmitisse uma real tranquilidade.

E quando li o Barba, sentia que podia ouvir aquela história para sempre. A história que o personagem contava pra mim. Você sabe que, nos melhores livros, a gente não lê muita coisa. A gente senta de frente ou bem ao lado do personagem e fica ouvindo a história que ele conta. A voz que ele tem. A presença que ele vai deixando, ao longo da história e depois dela. Eu me sobrava dentro dele, podendo entender aquele universo como se fosse meu, e desejando e tendo medo de viver tudo aquilo também. Se é que eu não já vinha vivendo algo parecido.

A experiência mais chocante e intensa tive com o Cordilheira. Depois de lê-lo, não consegui escrever nada sobre o livro, nem me aproximar, nem manuseá-lo novamente. Me assustei em todos os capítulos, e devo ter sublinhado parágrafos inteiros, comentado páginas à mão livre, arregalado os olhos em algumas passagens e sufocado algum grito de "Ei!, quem pensou isso fui eu". A confiança na fuga e o desejo desespero de ter um bebê; querer especificamente o que nunca se teve, sem saber se esse é um desejo genuíno ou não. Dias depois, meu namorado falou no café da manhã: no meio da noite, achei que você tinha parado de respirar; quase não dava pra perceber sua respiração. E até hoje ele se assusta. Diz que, enquanto durmo, ele encosta o ouvido nas minhas costas para sentir minha respiração - quase nula durante o sono. Anita. Anita.

E nunca vivi nada parecido com isso tudo em livro nenhum, em autor nenhum. Nem em filme, nem em arte, que eu não sou tão sensível assim pra arte nem pra música, e o último filme que me identifiquei foi o de uma menina que queria ser escritora mas que era péssima e que ninguém queria lê-la. Minhas interpretações não vão muito além disso. E por isso sinto falta de livros como esses, do que acontece comigo enquanto os leio.

Por isso pensei em escrever e pedir um livro novo para breve. Para logo. Como se as palavras e as histórias dele me faltassem. Como se eu precisasse de mais personagens pensando "os mesmos pensamentos que eu". Como se eu precisasse desses personagens que são espelhos de mim, espelhos não superficiais.

Mas talvez esse seja um problema de narcisismo que eu precise resolver. Não vou escrever pra ninguém não.

Se bem que: hoje o professor falou que vai cair um conto dele na próxima prova. É uma boa desculpa. "Você não sabe! Vai cair um conto seu na minha prova [que novidade, minha filha], legal, né? [não sei, quem vai fazer a prova é você]." E aí eu perguntava por um livro novo, quando que sai, e se tem volta pro jornal, estou sentindo falta do que você escreve, nossa!, olha... Não, melhor não.

Vão vocês ler Daniel Galera. Mesmo que não caia na prova semana que vem.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

De segunda

Eu já devia estar assistindo aula há pelo menos seis horas ininterruptas, quando olhei pro relógio e descobri que ainda eram nove da manhã. A aula tinha começado às sete. Mas no meu caso teria começado ontem à noite, quando me forcei a dormir cedo e enfrentei uma insônia ridícula, que só me dizia que eu não sou forte o suficiente para adormecer antes da meia-noite. Por isso o tempo hoje não passava. Meus olhos abertos desde às cinco e meia.

Tinha de colocar alguma comida na barriga e me forcei a tomar um suco. Meu setor de aulas não tem mais uma cantina decente faz muito tempo, só temos ambulantes. A fila do ambulante sofisticado (mesa larga, salgados variados, uma pessoa para pegar no dinheiro, outra para pegar na comida - luxo) estava grande demais. Fui na moça sem fila. Que pega o dinheiro e a comida com a mesma mão e tudo. Tem suco? Tem, de limão e de maracujá. Não queria nenhum dos dois. Pedi o de limão. 

Sentei no batente em frente à sala de aula e fiquei vendo o dia e as pessoas passarem pelo corredor. Lembro de ter uma visão mais romântica da universidade assim que entrei lá (faz um tempo). E que hoje sei que todos estão ali só cumprindo a tabela da vida - alguns, muito mal. Reparo também que hoje em dia a gente vai muito mais desarrumado para a universidade, principalmente no meu setor de aulas. Não julgo. Ainda mais considerando que muitos chegaram ali eram sete horas dessa madrugada. 

Vejo Clara passar, uma das melhores professoras que tive na vida, uma das melhores professoras da faculdade de Psicologia (são duas). Lembro de como me dói lembrar da Psicologia, às vezes. De como eu evito essas memórias porque de alguma forma elas ainda me fazem mal. Mas nessa hora também penso em como alguns professores podem salvar um dia, um semestre, quase um curso inteiro. Clara foi uma dessas professoras, que faziam a ida à universidade valer à pena. 

Olho de novo para as pessoas passando no corredor sem muita motivação estampada no rosto. E lembro de novo de como eu tinha uma ideia diferente da universidade. Ou de como eu vejo as coisas diferentes agora. Talvez tudo continue romantizado como antes e eu não consiga mais ver dessa forma. Talvez nada mais tenha importância mesmo. Porra nenhuma tem importância, na verdade; é a conclusão que a gente sempre chega se pensar demais na vida. 

Meu joelho estala alto e dói pra caralho e eu penso até quando essa dor vai me acompanhar. "Pro resto da vida" foi mais ou menos o que o médico disse. E penso que depois da aula vou seguir pra fisioterapia e isso me dá mais sono. Nessa hora eu já estava dormindo - de olhos abertos. 

Penso que a semana vai ser punk.

Penso na minha avó, e lembro de ela dizendo, na cama do hospital, às vezes lúcida às vezes não, de que queria viajar. (Minha avó nunca gostou de viajar.) Eu perguntei para onde ela queria ir e ela disse que para uma praia, para uma praia bem bonita. Penso se não deveria sair dali agora e ir para uma praia. 

Enquanto isso tomo consciência de que a anestesia do luto se dissolve. E os problemas antigos ficam todos nítidos de novo. É a continuação dos dias. E uma forma meio ruim de fazê-los continuar. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Dia de despedida

A madrugada estava em silêncio absoluto, interrompido por carros freando de vez em quando (ainda não entendo porque isso acontece tanto de madrugada por aqui).
Saí de casa perto de nove horas, e os flanelinhas já estavam ocupadíssimos aqui na rua, guiando outras pessoas ocupadíssimas que chegavam ou saíam de consultas médicas e fisioterapia.
Muita gente andando pela rua. Muita gente dirigindo pelas ruas.
Fez muito calor. Fez sol. Foi um dia bonito. Um irlandês teria repetido centenas de vezes como o dia estava bonito hoje.
Quase não olhei para o céu.
Vi poucas pessoas olhando para o céu.

E os sujeitos iam para os seus trabalhos, para as escolas. Foram ao banco. Pagaram contas inúteis. Pagaram contas importantes. Buzinaram e fizeram alvoroço nas grandes avenidas. Os motoqueiros furaram filas de carros. Costuraram o trânsito.
Algumas pessoas chegaram atrasadas no trabalho. Poucas pessoas chegaram mais cedo ao trabalho.
Um monte de gente assistiu aula. Um monte de gente riu hoje. Muita gente franziu o rosto para o dia. Se sentiu incompreendido em algum momento.
Alguém sentiu-se mal.
Alguém começou a namorar hoje.
Alguém lembrou do ex e chorou.
Alguns fizeram aniversário.
Quase ninguém dirigiu à esmo, pensando na vida. Pouca gente escreveu.
Muita gente leu notícias. Milhares viram fotos atuais.
Alguns pensaram no passado.
Bebês nasceram, claro.
Telefones tocaram sem parar - a maior parte deles no silencioso.
Diversas pessoas não se olharam nos olhos, mesmo tendo passado horas juntas.
Diversas pessoas trabalharam por mais um dia inteiro, sem se perguntarem por que estavam fazendo aquilo - nem por quem.
Algumas pessoas se sentiram frustradas consigo próprias hoje.
Alguém se queixou de como o tempo passa rápido.

Depois o céu ficou escuro. O trânsito ficou intenso. Dezessete de setembro de dois mil e quatorze se encerrava: que foi um dia comum para quase todas as pessoas que vi, ouvi, pensei sobre. Um dia comum para quase todas as pessoas que não conheço e que nunca vou conhecer. Um dia comum no mundo inteiro.

O dia em que tive de me despedir de voinha, no sentido prático e não espiritual da palavra. O dia em que nenhuma outra coisa fez sentido em haver, acontecer, se repetir. E que tive consciência de como ficamos alheios ao mundo inteiro quando temos uma despedida definitiva para atravessar.
Tudo acontece; e nada importa. A dor da saudade retira qualquer sentido que um dia como o de hoje pode guardar. E me martelou o dia inteiro: eu nunca falei a voinha que eu a amo.

E quando me dei conta disso, o dia de hoje e todos os anteriores fizeram menos sentido ainda.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Um dia inteiro antes do fim

Acordei carregada de uma certeza desconhecida de que daria tudo certo para mim agora. De que eu superaria as novas dores velhas de uma vez, de que isso passaria em breve. Acordei confiante e pus música para tocar. Repeti a música. Escrevi uns textos na cabeça.

Dirigi até a Via Costeira quando me deparei com a proibição de seguir. Mais um desmoronamento. Mais chuva. Mais gente pobre sendo confundida com saco de nada e perdendo suas coisas outra vez. Foi isso? Os ricos iam e vinham em seus veículos grandes; eram os únicos autorizados a passarem por ali para entrarem e saírem de seus apartamentos luxuosos. Dei a volta. Perdi tempo.

Cheguei com atraso na aula. A primeira aula foi dispensável - como a maior parte das aulas dessa disciplina. No começo da segunda aula caí em choro copioso e tive de ir embora quase que correndo.

Desabafei em prantos e me acalmei. E não resolveu nem resolvi nada. Segui. Tinha sessão com a psicóloga pela frente; era preciso economizar umas lágrimas e lamúrias. A supervisora dela pode estar precisando de uma agitação no meio da semana. (Se ela tiver supervisora.)

O suco de laranja da padaria estava pior do que qualquer suco de laranja que eu já fiz na vida. Só que nunca fiz nenhum, não.

Na escola tudo correu bem. Milagrosamente. Terminei a tarde satisfeita e com vontade de chorar novamente. O fim do dia está produzindo melancolia e estado moribundo também - por isso melhor que eu sempre esteja pela rua nesse horário.

Desci até a Ribeira para saber do meu pai o que ele tinha para me contar hoje. Mais cansado que o normal. Depois de cinquenta anos escrevendo diariamente, as pessoas ficam assim. Ficam? Me faltam quarenta. Mas como não escrevo a sério nem nada sério, tenho de ter pelo menos mais cem para ficar cansada como ele.

Li diários de viagens dos meus escritores preferidos. Estou carente das histórias que eles contam. Já li tudo. Quero novos romances e novas palavras que só eles sabem escrever. Penso em como as pessoas banalizam os autores contemporâneos e como só vão lê-los daqui a oitenta anos, quando eles estiverem mortos. E penso nos professores de literatura que existirão daqui a oitenta anos dizendo, em sala de aula, como eles foram "grandes caras", "grandes escritoras", e mais. Tenho pena de todos. Menos de mim que os leio com tesão.

Quero livros para me perder dentro deles.

E agora me resta a matéria para a prova de amanhã. Aula da manhã cancelada. Dia mais longo. Sono mais comprido. Alívio.

Deve ser nosso molde

Quando o dia tinha amanhecido chuvoso e frio outra vez. O despertador tinha tocado tanto, desesperado em me acordar, e eu desesperada em dormir, de novo. Tudo igual, mas do outro lado do oceano. Com outras expectativas e em um lugar bem diferente do nosso.

O café da manhã feito por você e tomado apressado por mim. As roupas apertando e tentando esquentar o que o tempo lá fora desafiava, um pouco. E meu humor desafiando o dia que viria pela frente. Era tudo diferente e igual, bom e ruim, hostil e amigável; acontecia tudo ao mesmo tempo, opostos se complementando naqueles dias. O lado positivo desses contrários vinha sempre de você.

E tínhamos mais esse dia esquisito pela frente; completamente alheio a tudo o que éramos e a tudo o que buscávamos. O dia passava sem nossa interferência. A vida corria sem que fizéssemos planos. Nada precisava nem dependia de nós dois. As coisas já são assim, eu sei. Mas longe de casa, as proporções desse contraste ficam maiores e piores.

E os dias iam passando desse jeito, alheios à nós dois e a tudo que queríamos deles. Muitas pessoas eram hostis; e quase todas, indiferentes. Muita chuva devia cair, ainda; muito frio fazendo me doerem as costas, os braços, a disposição também. Eu corria, me atrasava, o sapato doía, a mochila pesava de novo. Adoecia uma vez na semana. Engraçado não termos conseguido nos encaixar em nada daquilo.

Das coisas que mais me lembro é de como terminávamos muitas de nossas noites. Naquela pizzaria de quatro mesas, pequena e barata, perdida no meio da grande avenida no centro. Tudo ao redor fechava, enquanto a pizzaria permanecia aberta até mais tarde. Até depois de ficar escuro naquele verão de dias longos. Nas vezes em que estivemos na rua sob noite escura, muitas vezes era ali que estávamos, que parávamos, sentávamos para aquela pizza de massa fina e pouco recheio. E falávamos sobre o que sentíamos ali, sobre o que pensávamos daquelas pessoas ao nosso redor, daqueles planos que tinham nos abandonado, e dos planos que tínhamos abandonado deliberadamente. Falávamos de nós muito propriamente, muito deliberadamente. Sem queixas acompanhando, ficávamos um diante do outro, comendo uma fatia após a outra, esperando a cidade adormecer ainda mais, enquanto o pizzaiolo aturava nossa português por mais uma noite.

Consigo lembrar de tudo e imaginar uma câmera que nos filma de fora da porta de vidro e se distancia à medida que a conversa não cessa. Mostrando os dois sofás circundando as quatro mesas, as cadeiras defronte os sofás, o balcão e o pizzaiolo por trás dele. Poucos metros quadrados de cenas repetidas. De conversas diferentes, que terminavam e antecipavam aqueles dias esquisitos que a gente vivia. Enquanto eu vejo isso, toca alguma música para embalar a cena. Para que eu me veja falando e você ouvindo, você sorrindo e eu comendo lentamente a pizza repetida. Nossos dias iguais e diferentes.

Tudo para depois terminarmos naquele quarto que não era nosso, naquela cama de casal onde outros casais já deveriam ter estado, e para de novo eu pôr meus pés gelados colados em você, porque eu só poderia aguentar o frio se fosse assim, com você toda noite.

Eu vejo essas imagens com uma trilha sonora que não consigo identificar, ainda. No caso, escolher. Vejo a cena se repetir de um jeito cinematográfico, como disse, e por saber o que aqueles dias significavam, o que eu e você pensávamos vivendo aquelas semanas atípicas em Dublin, fico resumindo tudo a uma situação em que estava mais ou menos tudo errado, e mais ou menos tudo certo também. Uns encaixes que não eram perfeitos, e também com desencaixes que pareciam sob encomenda pra nós dois.

Um todo mais ou menos pelo avesso, mais ou menos errado. E exatamente por ser daquele jeito: parece estar completamente certo. Me pego pensando que o amor só deve de ser isso. Essa coisa disforme que é molde. Que é nosso. Que se encaixa.

Se amor não for isso, também não faço a mínima ideia do que seja. Nem vou querer saber. Prefiro mesmo ficar com o que temos hoje. E com essa câmera e música que põem o foco em nós dois, nesses dias nossos, iguais e diferentes.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Decisivo

No dia em que acordei e decidi que a minha vida não ia mais parar por causa dele. 
Descobri que era possível.
E voltei a andar para a frente outra vez.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O começo do fim

Quando me faltaram todas as palavras de novo. Quando me faltou o bom senso e tudo o que ele provê, e eu telefonei em urgência e extrema necessidade. Quando me faltou a vergonha e eu fiz isso de novo. Quando me faltou o sono e eu sonhei os mesmos sonhos de olhos abertos. Quando me faltaram as travas inconscientes e eu sonhei tudo nosso de novo, e presente. Bem forte. Tudo como antes. Quando me faltou o acalanto e as palavras suas de fim de dia. Quando me faltaram os planos para o próximo verão - e fim de semana. Quando me faltou aquela viagem que nunca fizemos. Quando faltaram todos os planos que ficaram em suspenso - eram poucos. Quando o silêncio tornou o choro mais pesado e firme, convicto de que tinha de ser assim: um peso em meio ao silêncio. Quando me faltaram os barulhos e meus dias se resumiram aos silêncios todos. Quando foi o começo do nosso fim. Quando foi o começo do meu fim.

Malas prontas

Eu te dou todas as certezas de que ainda dá tempo. De que mesmo que tudo comece errado outra vez, vai dar certo no final. E vai. No final é o que vamos ter. Como agora. A gente se encarando de novo, rindo de novo, da gente, de tudo, e de toda a desgraça que nossas vidas conseguiram converter-se nos últimos tempos. Desgraça: sem graça. Fizemos tudo certo por outros, que fizeram tudo errado por nós. E passaram. É passado.

Vamos embora.

O mundo é tão grande, que se a gente se demorar, não vai ver quase nada. Vamos perder tudo, perder de tudo, e apesar de perder ser algo com o que já nos acostumamos... Vamos fazer tudo ao contrário essa vez, para ver se mudamos o eixo das coisas.

Podemos acertar um código para quando um de nós repetirmos o mesmo erro antigo. Tapa na cara. Dois tapas. Um puxão pelo braço para a gente ir embora.

E vamos.

Eu não acredito realmente que nada disso vá passar, melhorar, ou resolver. Nem que nós vamos ser tão diferentes do que somos hoje. Mas eu quero poder acreditar, ou fingir que. E para isso a gente tem que ir... e estar longe. E andar sempre pra frente, mais. Mais para a frente. Sempre.

Ainda. Ainda.

Eu já tinha dito que tanto faz, que não fazia mais diferença nem igual. Não fazia mais nada. Era história velha, lembrança sem gosto, com gosto perdido, aliás, um mundo inteiro já tinha ficado em outro mundo, e o caminho de volta eu já tinha era esquecido.

E tudo o que isso significava, eu tinha esquecido. Eu não lembrava mais o tamanho do amor, e da dor. Quão maior um, maior o outro. Quão mais intenso um, mais intenso o outro. A dilaceração em duas vias, em dois gumes, nos dois caminhos: o da felicidade e o da desilusão; o do começo e o do fim.

Apenas o fim.

Eu já tinha resolvido que tanto fazia, que mais nada tinha sobrado por aqui. Até as pulgas por detrás das orelhas já tinham feito sua despedida. O carro me levava pelos caminhos certos, os lugares daquele quando já não significavam nada além do que são: lugares no meio da cidade.

Quando a novidade da velha lembrança pôde vir como um soco no estômago. E a dar repetidos chutes naquele lugar onde eu tinha esquecido o coração.

Vai começar tudo de novo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Manhã

Quando deixei o despertador tocar suas primeiras, segundas e terceiras vezes. E deixei-o se repetir por tantos minutos. Eu não podia perder a hora. Mas tudo bem perder os minutos, e ganhá-los ao mesmo tempo, e ficarmos aqui. Mais um tempo que eu posso desperdiçar de um lado e lucrar de outro; ainda mais que, agora, nossos minutos têm estado em débito - de minha parte.

E a manhã tão clara e silenciosa já era nossa. A segunda-feira ainda era nossa, então, mas a semana ia se perder por aí, longe dos minutos esmagados para serem a dois. Mais despertar e mais minutos. E mais abraços apertados dados de olhos ainda fechados. E dois sorrisos cúmplices. E dois olhares sorrindo, cheios de sono, já com saudade.

O tempo estagnado.

Os minutos que passaram apressados.

E enquanto lembro as imagens, os sorrisos e as primeiras palavras, e os abraços deixando o acordar cedo mais confortável e mais simples; enquanto lembro os barulhos do despertador e os minutos aos solavancos chamando, sem parar; enquanto lembro que não tínhamos pressa de começar tudo de novo, de ver mais uma semana passar. O tempo pára.

O tempo pára enquanto penso no nosso tempo que saiu apressado junto com o sol, hoje de manhã. Que já foi. Que vai demorar a vir. O tempo pára enquanto fico sozinha por aqui.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Senhoras de si

Eu estava na sala de espera do consultório médico, gastando horas do meu dia esperando para ser atendida. Lia um livro e de vez em quando levantava a cabeça para dar uma olhada nas pessoas, na televisão, na cor do dia lá fora. Dá pena ficar enclausurada dentro de um consultório médico em dias assim, como o que hoje amanheceu.

Já passava das nove da manhã quando desce, do primeiro andar da clínica, uma senhora idosa acompanhada de sua filha, ou de sua cuidadora, não sei bem dizer. E que diferença faz esses dois termos agora, sabendo que eles são tão intercambiáveis nessa situação. A senhora vestia uma saia e uma blusa em seus tons pastéis; era um "conjunto", uma roupa lindíssima, de tecido fino e bom, de costura bem feita, e perfeita em seu corpo de senhora. Tinha um colar de pérolas bonito e nada berrante. Chamava a atenção, mas não era chamativo. O rosto era bonito, plácido, a pele bem alva, os olhos brilhavam um pouco. O sorriso também.

Era uma senhora linda, que desceu as escadas sorrindo, e sentou-se na cadeira para esperar quem a vinha buscar. Precisava de ajuda para andar; não lembro se usava uma bengala ou só o auxilio da pessoa que estava com ela. Não reparei. Não consegui reparar. Porque eu não me cansava de reparar no sorriso que ela trazia e na simplicidade em estar ali, em uma simples quarta-feira, vestida como que para uma festa, para um coquetel, para um almoço importante. No tempo dela, acho que as mulheres cultuavam estar sempre assim: bem vestidas, com uma roupa cheia de classe, e com os rostos sempre traduzindo boa expressão (e boa impressão também). Minha avó é assim: a roupa combinando, sempre saia e blusa de botões, o sapato bonito e confortável, obrigatoriamente; o cabelo bem penteado e um sorriso grande no rosto. Imagens que só podem dizer: a vida é muito boa, e estar viva para vê-la é melhor ainda. Veja como eu aproveito meu dia, vestindo minha melhor roupa, usando colar de pérolas, arrumando o cabelo e sorrindo para quem eu vejo. Hoje não é um dia qualquer. Nunca é.

Uma hora depois lá vinha outra senhora, agora entrando na clínica, também acompanhada da filha. Dava para eu vê-las pela porta de vidro, mesmo que ainda estivessem um pouco longe. Ela também vestia uma roupa bonita e do tipo "conjunto", com saia e camisa estilo tailleur, ambas em cor cinza. E sapatos confortáveis, também. Não precisava de ajuda para andar, mas andava devagar. E aproveitou seu movimento mais lento para observar o que tinha na sua frente: as rosas plantadas na mureta da clínica.

Eu nunca tinha reparado que ali havia planta alguma. Quanto mais flores. Quanto mais flores brancas. Nunca tinha visto nem me aproximado delas. E foi o que essa senhora fez: chegou perto e falou algo sobre a flor para a filha; pegou com a mão direita, enquanto com a esquerda segurava a bolsa preta, falou mais alguma coisa para a filha, que respondeu e logo sorriu. Na sequência, cheirou a flor. Sem cerimônias, sem vergonha, com a destreza de quem faz aquilo todos os dias. Eu devo ter cheirado pouquíssimas flores na minha vida; e se chegar a sentir cheiro de flor em algum lugar, não vou prontamente saber dizer do que é.

E acho que ela sentiu o cheiro e contou alguma história à filha; lembrou-se de algo importante para dizer ali. Ou só disse se cheiravam bem, que flores eram aquelas. Lembrou-me instintivamente a roseira que meu avô cultivava no jardim de casa: que dava rosas brancas bem abertas, um branco capaz de iluminar o jardim à noite. Ainda mais a noite dele, o período do dia que ele mais parecia gostar, e que mais parecia gastar admirando a roseira. Nunca o vi cheirando rosa nenhuma. Mas aposto que ele fazia isso escondido da gente.

Mãe e filha entraram na clínica. A senhora arrumada e contente entrou sorrindo, deu bom dia aos desconhecidos sentados perto da porta, e depois à recepcionista, e depois seguiu seu dia. Enquanto eu fui para minha consulta, autorizei meus exames, e saí da clínica com pressa. Sem olhar pra rosa alguma.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sonhos e ausência de lembrança

Eu estava dirigindo há algum tempo, era noite alta, escura e silenciosa já. Devia ser madrugada. De repente eu estava no meio de vielas e ladeiras muito íngremes e muito estreitas. Ruas cheias de buracos, ladeiras cheias de buracos, tudo o que me obrigava a passar a primeira marcha e acelerar (o máximo possível) o meu carro - que de tão fraco parece de plástico. O carro dos sonhos era o mesmo do da vida real (uma deixa para os publicitários, olha aí). As ladeiras ficavam mais íngremes à medida que eu dirigia, também mais esburacadas, tudo mais escuro, e não havia ninguém nas ruas. Mas havia carros estacionados - em lugares estreitíssimos, onde mal caberia um carro, quanto mais dois. E eu tinha de acelerar com força e ter muita destreza em desviar dos buracos e dos carros ao mesmo tempo. Nesse momento eu já sentia um medo absurdo.

O sonho parecia pesadelo, é claro. Eu enfrentava uma solidão perigosa, e a cena que consigo lembrar beira o assustador, mas ainda com muito suspense. Eu não sei dizer para onde estava indo, e acho que no sonho também não saberia. E claramente eu não fazia ideia de por onde seguir, mas seguia. E a sequência do meu caminho era sempre para cima, para cima. Subi muitas ladeiras (não desci nenhuma); todas esburacadas e sombrias. Desviei dos carros vazios, estacionados naquelas ruas que estavam em silêncio absurdo - tenho tanto medo do silêncio pesado quando da escuridão. Até que comecei a repetir que Nossa Senhora estava comigo.

Que não parece, mas eu sou religiosa, às vezes até com certo excesso. Acredito piamente em milagres e em destino reservado, ao mesmo tempo que tenho um medo absurdo dessa história de vida póstuma. Não consigo acreditar que ela exista - e caso ela exista, tenho medo de ser castigada por não ter acreditado, veja. Eu repetia que Nossa Senhora estava comigo enquanto as ladeiras ficavam mais íngremes, mais esburacadas, e o silêncio e o escuro seguiam me assustando. Não parava de repetir isso, até que cheguei ao fim da pior ladeira, acelerando o carro com exagero, desviando no último segundo do carro estacionado à minha esquerda (um Gol branco), até chegar no topo. O medo alto, o pior momento até então.

Quando cheguei lá em cima, estava dentro de uma igreja de pedra, sem porta, parecia a construção em ruínas, parecia uma igreja pela metade: parte do chão e teto estavam ali, e paredes também, justo na parte que circunda o altar, que abriga o altar. Da metade "para fora" não tinha construção. Podia ser uma igreja devastada. Uma igreja sem portas. Uma ruína conservada. Ainda estava escuro, e a única luz que havia no lugar era azul, bem azul. Existia uma aura ainda amedrontadora mas que conseguia ser reconfortante: havia pessoas rezando, havia uma missa acontecendo, e a missa e as pessoas aconteciam por causa de Nossa Senhora. A luz azul, única luz ali, era também por conta dela.

Naquela escuridão azulada onde eu já não estava dentro do carro (sem nunca ter realmente saído de dentro dele, até ali), eu tinha medo e paz, ao mesmo tempo. Nos últimos momentos do sonho, eu tinha a sensação de que já tinha vivido aquilo antes. Desde as últimas ladeiras e a frase que eu repetia, até a chegada na igreja de pedra. Mas quando acordei não consegui lembrar se eu já tive esse sonho antes, parecido ou igual (isso me acontece, de vez em quando). Não deu tempo de me certificar, ao acordar, se eu estava viva, mas eu estava. Estou. Foi que saí muito rápido para a segunda-feira. E enquanto eu dirigia, agora de manhã, na vida real e sob o sol, me lembrei de ter esquecido (!) de fazer isso; porque era um possível significado do sonho. Quem sabe.

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Uma vez eu sonhei com minha tia avó (religiosíssima) me avisando que ia morrer bem em breve, e afirmando peremptoriamente: agora é que a minha vida vai ficar boa, agora é que vou ter a vida que mereço, que vou ser recompensada por tudo; agora, sim, minha vida vai começar, e será o meu momento. E ela falava isso com certeza e tranquilidade impressionantes. Consigo lembrar a sensação de tranquilidade que ela até transmitia ao dizer aquilo: na varanda de casa, em pé, escorada no portal da porta, com a mão esquerda para trás das costas e a mão  direita apoiada sobre o peito, para mostrar a convicção.

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Uma vez me fantasiaram da mãe do menino Jesus, nas vestes brancas e azuis de sempre, e me fizeram carregar um boneco de plástico no meio do auditório, entre crianças fantasiadas de anjos e de outros personagens. Vejo as fotos. Não tenho a menor lembrança disso.