domingo, 26 de janeiro de 2014

Contraste e Copa e o que sobrar

Era segunda-feira de manhã e eu saía da aula na universidade. Tinha deixado o carro em casa e ia voltar pra casa de ônibus, uma coisa que eu vinha ensaiando fazer nos meses anteriores. O que mais me impedia de fazer isso era que a linha de ônibus que fazia o trajeto centro-universidade não existe mais. A empresa faliu (há uns dois anos?) e não puseram linhas substitutas. Para eu ir do centro da capital (a capital é Natal, uma cidade com menos de um milhão de habitantes) para o campus da universidade federal (que não fica longe do centro), eu tenho de pegar dois ônibus, obrigatoriamente.

Mas, sim: usando a gratuidade da segunda passagem, eu, antes, tinha três possibilidades de linhas para entrar como segundo ônibus do trajeto; agora, só tenho uma. Sim, por causa da empresa que faliu e da não reposição das linhas em seus percursos idênticos. É pegar um primeiro ônibus até a metade do caminho; esperar uma única segunda opção (linha 63), até então chegar na universidade. É tudo isso ou pegar um ônibus até quase(!) o campus, atravessar a passarela e, olha só, esperar mais para pegar o Circular. Os detalhes de os ônibus parecerem os carros dos Flinstones (só que lotados) a gente não precisa aprofundar.

Independente disso(s), nesse dia eu ia voltar para casa de ônibus. Esperei seus quinze ou vinte minutos pelo Circular, e depois peguei um ônibus que me levaria direto pra casa. Em tese.

Alguns quilômetros mais para frente e... paramos. Pararam carros, motos, ciclistas, ônibus, e principalmente a respiração de quem estivesse dentro do ônibus (um exercício necessário em dias de trânsito pesado, por medidas de meditação e economia do oxigênio circundante). E logo na frente a gente viu que a cidade parava inteira.

Foi o dia em que os motoristas do transporte alternativo conseguiram lacrar a cidade dentro de seu próprio trânsito. Fecharam os principais cruzamentos, realçando ainda mais, desse jeito, o não planejamento de trânsito que temos, e fez todo mundo parar em plena segunda-feira, perto do meio-dia. E até bem depois disso. O ônibus parava bem longe do destino final de quase todos os passageiros; não andava, o motorista bufava, e isso era só o começo. Ou a continuação das coisas bem como elas já estão.

E o que eu mais lembro desse dia foi  que o ônibus parou bem de frente ao estádio novo da cidade. Na verdade bem ao lado, mas como eu ia em pé (coisa óbvia; rumores acreditam que nos próximos meses todos os bancos dos ônibus serão arrancados e substituídos por mais barras de ferro, de modo que todos os passageiros - de preferência magros - viagem em pé, e assim seja possível caber mais 150 seres humanos dentro da lata), eu ia de lado para a frente do ônibus.

O estádio ainda não estava pronto mas já invadia a cidade. Já engolia e punha todos nós debaixo dele, como ele bem faz a partir de agora que está pronto; o estádio se sobressaía no meio do trânsito, que nesse dia virava caos e guerra (sem exagero, vocês sabem que sim), e brilhava e ofuscava o resto todo. O resto. Nós.

A gente dentro do ônibus transpirava e cansava. Transpirava mais. Tentaram arregaçar todas as janelas e o teto solar (bom nome) do ônibus, e a gente continuava suando. As pessoas mal tinham começado sua semana e estavam cansadas, espremidas umas contra as outras sem saber o que fazer com aquele dia que começava a ficar escroto pra todo mundo, deixando a gente ali parado por quase uma hora.

Eu sei que o papo é batido e chato. Que a Copa é evento privado, que a Fifa é uma empresa, e que você é também chato por sempre fazer esse tipo de comentário. Acontece que não, não é nem um pouco confortável lidar e aceitar as contradições que já saíram de debaixo do nosso tapete há tanto tempo e que agora gritam, agora não se escondem. E ver um símbolo de poder e dinheiro (público também), e de lazer para classes altas oprimindo (sim) tudo o que acontece por debaixo dele.

O estádio foi erguido no meio da cidade. Sobra, soçobra por cima da gente, e nesse dia sufocava. Junto com todos os problemas cotidianos de Natal, não resolvidos e tão mais urgentes, eu tinha de olhar para pessoas claramente pobres e desfavorecidas, cansadas, e desagradadas pelo inconveniente que já é, naturalmente, andar de ônibus em Natal, e que lidavam com a espera (aparentemente infinita) de continuar suas vidas. Pelo menos naquela segunda-feira. E, apesar de todo o inconveniente, temos de lembrar que o protesto esse dia envolvia... transporte.

Eu pensei em escrever bem nesse dia sobre o que vi de dentro do ônibus, pra falar que o protesto contra o transporte público, que causa tanto desagrado à quem anda de carro e fica preso no trânsito, ainda é muito, muito pouco. Diante do que essas pessoas cotidianamente aguentam. E que dois reais ou dois e vinte ou dois e o caralho é caro, é caríssimo de pagar para andar nesse dito transporte. Eu ia falar esse óbvio.

Mas em ano de copa do mundo, quando as propagandas, o comércio, o governo e as conversas nos bares vivem em função do futebol, quando nossa vida tem mudado (pra pior, até agora, ninguém me convence do contrário) em função da copa do mundo, e quando cidadãos estão indignados porque não conseguem comprar ingresso para ver o estádio (eles não foram assistir jogo, hoje, foram ver o estádio), eu tenho lembrado mais dessa cena, desse dia, mais da óbvia contradição, do nítido contraste que vi naquela segunda. E que, por mais piegas e metido à besta que possa parecer dizer, uma cena que me doeu de ver.

Natal agora é quase toda um estádio que varreu pra debaixo de sua grandeza prateada os nossos problemas maiores ainda. Mas a cidade tem se preparado para a Copa, e o país todo também. Espero que algo fique dessa preparação insana e apressada. Espero que algo nos reste, que sobre, só sobre, pra todo o resto que ficar. Nós.

Um comentário:

Ridan disse...

Ai, ai... Adorei seu texto, seu olhar. Esse estádio e os comentários "politicamente corretos" (será?) acerca da Copa me soam insuportáveis. Contudo, ao menos aquela "grandeza prateada"(futuramente, talvez, um elefante branco)fizeram brotar em você essa indignação que resultou nesse texto. Parabéns, menina!