terça-feira, 21 de janeiro de 2014

E Ele bebia cerveja

Sobre o Ele e mais: 
Página 53: 
O Padre Teves, ainda adolescente, informou o pai de que queria ser um profeta como os do Antigo Testamento. 
- Serei um profeta para corrigir os povos e os costumes. 
Foi imediatamente espancado. O pai, que era um livre-pensador, era capaz de suportar tudo, menos a estupidez: 
- Não quero preguiçosos na família. 

Página 213:
- Ninguém sabe, caros Jesus Cristo e seus apóstolos, por que razão o homem se sedentarizou, já que está provado que ser nómada dá muito menos trabalho. Então porque sucedeu essa mudança radical? Muito simples, vou explicar-vos (...): foi a cerveja. Para ter cerveja era preciso cultivar. E assim nasceu a sociedade como a conhecemos. Graças à cerveja, temos hospitais e bibliotecas. Não existiriam livros se não fosse a cerveja. Não existiriam escritores nem ciência. Os nómadas não têm prisões nem conhecem o castigo, mas por outro lado não têm bibliotecas. Os nómadas não têm nada disto, porque andam de um lado para o outro e as prisões não podem ser transportadas, tal como as tipografias e os hospitais e as livrarias. E tudo isso se deve ao fato de alguns povos terem querido beber cerveja e, para isso, precisarem de se sedentarizar. No tempo de Cristo, (...) andavam todos a beber cerveja. (...) o Egito tinha inúmeras cervejeiras e exportava grandes quantidades para a Palestina. O que se bebia no espaço geográfico em que Cristo habitava era a cerveja. O vinho era uma bebida de romanos, dos invasores. Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores, (...) mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso é que era a cerveja, símbolo do povo. 

Página 223: 
- Não me fale em Deus, Rosa. Deus tem um jardim, que é onde vive. Nós temos um inferno. Foi o que ele nos deu. (...) Um pai, se o filho passa fome, é o primeiro a privar-se de comida para que seus filhos possam comer. Deus deveria andar a possar fome e a sofrer todas as dores. (...) Olha à tua volta: um dirigente, quando quer sacrificar, fá-lo sacrificando o povo, mas que pai faria isso aos seus filhos? Qualquer pai estaria disposto a sacrificar-se a si antes de sacrificar os filhos e é isso que faz um líder e é isso que faria o verdadeiro Deus, se existisse. Se queres encontrá-Lo, procura-O no maior indigente, no maior sofrimento. Essa é a sua única hipótese de existência. Os líderes que vemos a governar os nossos países são apenas criminosos, iguais ao Deus católico. Quando se portarem como um pai a tomar conta de seus filhos, serão verdadeiros estadistas. Deus não está no céu, está na barriga dos esfomeados. É um punho fechado, peludo, a gritar de agonia dentro do estômago. 


E sobre tudo o mais:
Página 18: 
Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo.

Página 87: 
Detesta que lhe digam coisas como aquela, pois isso irrita-a e dá-lhe vontade de gritar, e gritar fá-la sentir-se sozinha. É como se estivesse num deserto e ninguém a ouvisse e por isso precisasse berrar. Gritar é coisa de pessoa sozinha, pensa. Quando temos pessoas para nos ouvir não precisamos de gritar, pois não?

Página 110: 
- Impossível. Nós somos pobres.
- Claro, como quase toda a gente. 
- Trabalhamos, mas continuamos na miséria. 
- Evidentemente. Se o trabalho desse dinheiro, os pobres seriam ricos. 


A primeira vez que ouvi falar de Afonso Cruz, foi vendo-o falar. Isso no Festival Literário de Natal, em fins do ano passado, ele e outros escritores de língua portuguesa (de Angola, Macau, Cabo Verde, Moçambique e mais - Brasil também) estiveram por aqui falando de literatura e outras coisas. Afonso Cruz falou de literatura e cerveja, e curiosamente não fez tanta alusão nem propaganda ao seu livro tipo fantástico Jesus Cristo Bebia Cerveja. Mesmo que ele tenha falado exatamente de assuntos relacionados a essa obra. 

Recentemente comprei um outro livro dele, Os Livros que Devoraram Meu Pai. E depois encomendei à minha mãe, em viagem à terra dele, que me trouxesse o Jesus Cristo (e/ou vários outros dele que encontrasse por lá). O Valter Hugo Mãe tem um apelo seu na contracapa de que as pessoas leiam o Afonso Cruz. E eu aumento o coro. 

Afonso falava de um jeito muito simples e interessante sobre a literatura e a gastronomia e a literatura e a cerveja. E sobre a cerveja (2x). E ele escreve de um jeito muito simples e interessante também. O enredo de Jesus Cristo é criativo e único, sem exageros nem molduras demais. É uma história direta, de personagens diretos e simples, nem tão próximos de nossa realidade, mas cheios de pensamentos e planos como os nossos. 

Fiquei impressionada na imersão do autor e/ou narrador dentro dos discursos de personagens tão diferentes. E na capacidade comunicativa que isso tem no livro. Fazia tempo que eu não lia um autor fazendo isso tão claramente; as últimas ficções que li foram grandes... ficções, grandes histórias. Mas a ficção de Afonso Cruz me ficou como uma ficção simples que comunica mais do que apenas conta a história. Como se o conteúdo fosse seu objetivo único; e o desenho da história se fizesse por ele mesmo, sem esforço. Algumas tiradas de bom-humor, e  um espírito astuto no livro todo. 

Uma história simples e direta, sem molduras, sem floreios. Um narrador comunicando ideias que não passam em branco. E um livro que não pode passar em branco. 

Vão atrás de saber se Jesus Cristo Bebia Cerveja. Afonso Cruz merece mais atenção; é surpreendente. 

Nenhum comentário: