segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Questão de gênero

Ele estava implicando comigo e questionando o absurdo que é eu ficar toda noite esperando a hora da novela. E se chateava mais quando a gente levantava o coro de que era hora da novela e pronto, e quem não quisesse que saísse da sala. Não entendia por que a gente cultivava esse hábito sem propósitos.

Hoje eu desci pra tomar café da manhã e ele estava lá há horas, há dias, na verdade há anos que ele está nessa mesma posição eu acredito: na frente do computador apertando apenas três ou quatro botões e gritando palavrões e xingando entidades virtuais. Tem tanto filho da puta dentro daquela tela do computador, que eu acho que preciso rever até o meu uso dessa máquina. Ele não me viu descer, só ouviu. Nem me viu comer na frente dele. Só me ouviu mastigar e dizer que eu estava com cólicas hoje. A resposta dele foi de que precisava comprar vidas, só tinha mais três.

Aí me disse que pior do que eu ficar esperando a hora da novela toda noite, do que assistir à novela inteira, é a gente sentar pra falar sobre o que aconteceu ontem na história. Mas por que às vezes tem alguém que perdeu o episódio, ou precisa entender melhor o que se passa. E tem umas piadas que a gente não pode deixar passar. São dez minutos de prosa e depois passa. Mas ele reclama - não dá.

Aí tinham marcado de se encontrar, os amigos. Cada um com um negócio um pouco maior que um celular, que eles seguravam com veemência e fúria, e de onde saíam mais e mais filhos de putas e ladrões. Impressionante. Quanto mais deles estiverem juntos, jogando(?), mais ladrões dentro das telas minúsculas. Por que será.

Mas você não precisa de mais sapato nem mais bolsa nem um short novo né, peraí. Olhe pro seu guarda-roupa. Não tenho roupa pra sair, respondi, fui lá e comprei. Meu Deus do céu, nem acredito em Deus, mas olha como vocês são.

Era terça-feira no final do expediente e fui buscá-lo no trabalho quando ele disse que precisava parar pra tomar uma cervejinha. Tomou duas cervejas, levou uma terceira pra casa. Gastou o equivalente à nossa feira da semana, pra desanuviar o seu estresse vespertino.

E que além de vocês comprarem tanto, vocês falam sobre o que compraram e sobre o que querem comprar. Não precisa ter tanta coisa, a gente não usa, isso é puro consumismo. E você ainda fica falando em comprar, comprar, comprar... E desista dessa ideia de viajar pra fazer compras. Coisa mais ridícula, a pessoa viajar pra fazer compras.

Rapaz, pois eu encomendei umas cervejas importadas, vamos marcar de beber lá em casa. Não, foi uns duzentos e cinquenta reais. É, pois é, não é caro, vale à pena. Porque eu comprei aquela de trigo que a gente experimentou o outro dia, comprei também uma Pilsen que tu tinha me dito que era boa, lembra?, foi, foi mais ou menos esse preço aí. Aí também encomendei umas lá do interior de São Paulo, é, é boa sim, você tem que encomendar pra você também. E umas belgas eu pedi também. Aliás, a gente tem que marcar uma viagem dessas, pô, pra gente tomar umas cervejas,  vamo marcar!

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