segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Pedaço do meu passado e manhã inteira

Foi dia um na fisioterapia, que lá na clínica é todo dia, a partir das sete (sete!), até as cinco da tarde. Por ordem de chegada e sem parar pra almoço. Pois é. Daqui a pouco os psicólogos vão começar a atender por ordem de chegada também, e nossa vida vai ser definida de acordo com nossa capacidade de chegar às sete da manhã em consultórios médicos.

Na minha terceira vez na clínica, deu pra perceber os pacientes cativos da fisio e dos retornos ao ortopedista. Velhinhos, sim, bastante deles. Com suas dores e bengalas e sua entrada triunfal dizendo um grande "bom dia" pra todo mundo. É tão bom e tão certo o quanto precisamos disso.

Lá vem um deles. De bermuda e tênis, e camisa de botão de mangas curtas. Uma barriga grande, a pele clara e frouxa, óculos imensos por cima de olhos que eram miúdos sem ser apertados. E agora penso que tudo isso te vestia um figurino infantil, um dos itens que nos leva a tratá-los como crianças. Mas não devemos de fazer isso. Não fizeram.

Ele sentou sem pressa e fez da sala de espera o seu círculo de amigos, a sua mesa do bar, o almoço da família no domingo. Ou as cadeiras em calçada no fim da tarde. Tinha tanta história pra contar. Nem pude ouvir todas. Eu estava longe dele, e às vezes eu evito, por educação, ouvir a conversa alheia. Mas a conversa dele nem era alheia nem só dele. Era de todos.

Contou pra vizinha bem ao lado como tinha se machucado, caído em casa, como tinha ido parar ali na fisioterapia. Sem detalhes mórbidos nem tristes. Falava de um jeito leve e tinha a voz macia e calma. De vô. Com aquele tique de dizer um "hein?" meio alto quando já se ouviu o que a outra pessoa dizia, mas quer confirmar se ouviu certo. Tanto que já tinha a resposta que sai quase de imediato.

Quando a primeira interlocutora teve de se levantar para ir para sua sessão de fisioterapia, ele mudou de parceiro. Pegou o meia-idade da frente, e o senhor do lado desse homem; um senhor como ele, e que ele já conhecia, pois tinham servido o Exército no mesmo quartel - fiquei sabendo lá. Nessa hora eu já não evitava nem disfarçava, e até me esforçava para prestar atenção. Falavam muito, tanto, de um jeito calmo. O velho tinha tantas histórias da vida e do dia. Falava sem pressa e com prazer de ser ouvido. Sem insistir com ninguém, mas também sem desistir de que lho ouvissem.

E eu lembrava do meu avô.

Por certo ele falava mais do Exército. Quando o segundo interlocutor foi para a sessão de fisioterapia, uns oito minutos depois de terem começado o papo, o senhor adotou toda a sala de espera para comentar o jornal que passava na televisão. Nos seus últimos minutos ali com a gente, ficou dizendo como não acreditava em nossa justiça. E nós todos concordando, conformados, como somos.

A recepcionista chamou-o para "fazer seus exercícios". Ele respondeu com um "já vou" automático e continuou conversando com toda a sala de espera. E a gente ouvia, concordava, e sorria. Ele não insista nem desistia de nenhum de nós.

Quando entrei na sala fisioterapêutica (?), ele ia sem camisa e muito à vontade fazendo todos os exercícios que sabia. Acho que tinha machucado o ombro, e por tabela um dos braços. Mantinha o jeito manso da conversa de antes no seu silêncio; o andar calmo, a expressão tão serena que de novo só me fez pensar no meu avô. Eu sentindo uma saudade absurda do passado e ele com cara de quem vive o dia melhor do que todos nós.

E tinha esperado bastante tempo na sala de espera. "O senhor tá aqui já tem uma meia hora?". Ele diz "teeem",  espichando a palavra pra dar ênfase. "Mas eu não ligo não. Chego aqui e fico conversando, falo tudo o que tenho pra falar".

E a manhã dele segue assim. Sem reclame, com espera, falando tudo o que tem pra falar. Pra quem estivesse ali que pudesse ouvir. Todos nós.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Semana

O ortopedista falou que eu não poderia mais ir para a academia, não por enquanto. Disse que eu só podia fazer natação e pedalar. Não sei nem nadar nem andar de bicicleta. E não sei como vou me tratar agora. Mas concordei com a recomendação dele e fui embora sem perguntar o nome do osso com defeito.

Entrei na sala de aula e fiquei esperando a aula começar, até descobrir que a aula da disciplina que fiz a matrícula só será em abril. E tive que sair fazendo de conta que nada tinha acontecido e todo mundo vendo. Adeus.

E que também fui fazer a matrícula nas disciplinas complementares da pós-graduação e aí que não tinha quase nada no nosso programa. Acredita? Quando a gente estava na graduação, sofríamos de perceptível síndrome do abandono, e os professores diziam que não tinham muito tempo pra gente por causa da pós (diziam); não davam disciplina complementar divertida na graduação por causa da pós (diziam). Aí a gente chegou na pós e... descobriu que as desculpas não se aplicam. E ficamos por isso mesmo.

Tem uns que abrem disciplina diferente; publicam pra todo mundo ver, mas se todo mundo tenta entrar, eles dizem "não, não, essa matéria aqui, só pros meus alunos!, aqueles que trabalham comigo desde que... sempre". As desculpas se aplicam pela metade - em parte.

O trânsito completamente desencaixado, por dizer. Ontem mesmo ficamos na fila vendo o sinal ficar vermelho-verde, vermelho-verde, vermelho-verde suas cinco vezes. E depois mais. Os carros no cruzamento não aprenderam que só podem avançar o sinal se tiver buraco do outro lado da rua pra eles ficarem. As pessoas que dirigem os carros não aprenderam noções de bom senso nas cadeiras da faculdade casa. Faltou tudo. E o egoísmo destruindo nossos humores matutinos (vespertinos e noturnos, porque o trânsito hoje não escolhe mais turno).

Novidades boas e ruins na cadela da casa e lá vamos nós de novo. Ela tá sabendo de tudo e tentou morder o rapaz do banho. A veterinária disse "bem feito", porque escapou de ser mordida ela, mensageira das novidades.

Uma sexta à noite merecida fazendo quase nada perto dos amigos. E pensando que a vida pode ser bem isso: o nada ou o pouco perto das boas pessoas. E já basta.

A gente chegando numa idade em que ficar o sábado no sofá e não ter perspectivas é bom. Uma idade em que não ter perspectivas é até saudável, no sábado à noite. (Idade?) E por aqui a gente fica.

A semana foi.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

E assim nós vamos

Ele detesta o fim da tarde. A mudança das cores e a alteração primeiro sutil depois intensa no céu inteiro. Algo que termina e que anuncia uma escuridão que se estenderá por horas. Isso muda o humor e faz pairar uma aura de poucas perspectivas. O fim, o escuro. E a demora em se iniciar um sol novo e um dia mais claro.

Eu adoro o fim da tarde. Em saber que a noite chega logo e, com o começo dela, os cheiros de café e pão. A ideia de começar ou recomeçar ou voltar a trabalhar e a escrever. Coisas que combinam com a noite, que se encaixam bem nela. E o fim de tarde vai me dando vontade desses momentos.

A gente toma café no fim da tarde e no início da noite. Algumas xícaras.

Eu detesto ir ao supermercado. Aliás eu detesto repetir coisas com certa frequência, pois acho que elas deveriam durar por mais tempo. Fazer as unhas, abastecer o carro, pagar as contas, ir à depilação, fazer o supermercado. São coisas que deveríamos fazer a cada muitos tempos, mas temos que fazer quase que o tempo todo. Ele precisa de ir quase que o tempo todo no supermercado.

E gosta de ir. E planejar os pratos. E imaginar os sabores. E pensar em como pode me agradar naquele almoço, para o qual eu não dou a mínima e comeria em qualquer canto da cidade para não ter de enfrentar as gôndolas do mercado.

Mas lá estamos. A gente vai muito ao supermercado.

Ele repete demais que eu sou linda. Eu repito o tempo inteiro que me acho feia. Ele diz que eu não sei das coisas. E eu respondo que ele só pode me achar linda porque é muito apaixonado por mim. "Não é porque sou apaixonado que tenho mal gosto", ele diz.

E assim estamos. E vamos.

Na clínica veterinária

Nos últimos meses eu tenho mantido um ritmo frenético de idas ao veterinário. Por motivos não muito felizes, claro, como toda grande frequência a lugares com médicos. Mas aí:

1. É incrivelmente alto o número de seres humanos que seguram seus cachorros como se fossem bebês. Assim, com o peito e a barriga do bicho encostado no peito deles, apoiando o bumbum no animal no seu braço direito flexionado. Eu nunca consegui fazer isso com cachorro nenhum que segurei na vida; e quando eu era criança, pois é, eu sempre insistia. Mas os tempos passaram e os cachorros são outros e aí. Os cachorros ficam feito bebês no braço dos donos. E esse índice aumenta entre os cachorros doentes ou hospitalizados.

2. Estar doente ou com dor também aumenta a chance de o animal chegar na clínica envolto em uma toalha, como se ela fosse uma manta de bebê. Mesmo que não seja necessária, a toalha é um item obrigatório para comunicar certa urgência e preocupação no atendimento.

3. Os donos ficam assustadíssimos com a possibilidade iminente de o seu cachorro se aproximar de outro cachorro. A aproximação de humanos é tratada com naturalidade. Mas dois animais se aproximando é uma ansiedade vivida por todos - que acham esse fato normal e só fazem agarrar seus animais e impedir que eles cheguem perto de outros da mesma espécie.

4. Cachorros feios estão na moda.

5. Cachorros feios estão muito na moda. Cachorros esquisitos, exóticos, que parecem raposas ou gatos ou que parecem bonecos mas nunca cachorros. Muitos deles ostentam franjas e olhos esbugalhados que nunca acalmam.

6. Cachorros grandes não cabem na sala de espera e muitas vezes esperam do lado de fora, com um dos donos.

7. Eu não sei como é o clima de um consultório de pediatria, mas imagino que seja tudo muito parecido: donos (pais) perguntam que idade ele tem, se só tem ele ou se há outros em casa, e o que é que ele tem para ter ido ao consultório. Depois da resposta a essa última pergunta, donos (pais) trocam experiências e se dão a contar a história da vida inteira de seu animal (filho) mesmo que ninguém tenha necessariamente demonstrado interesse nisso. A sequência de doenças e os hábitos de comportamento são detalhados à exaustão.

8. Sim, todos falam com seus bichos usando vozes de criança. Todos.

Amizades do passado

Se tem uma coisa triste e ruim em nossas vidas (e eu não sei como é que eu começo uma frase assim, pois sei que na verdade existem várias) é a de como nos tornamos frios uns com os outros ao longo do tempo. Melhor (pior) dizendo: se tem uma coisa triste e ruim na vida de nossas amizades, é de como podemos nos tornar frios ao longo do tempo. Enquanto o tempo passa. E depois que o tempo vai todo embora também.

É um papo nostálgico e pra lá de triste o de ficar lembrando do quanto nos falávamos com mais euforia e felicidade anos atrás. E de como hoje nos encontramos e mal conseguimos conversar. Insistimos em um tópico nas vias virtuais e ele não rende. É a pessoa que não quer responder e o você que não tem certeza se realmente tem interesse em saber. Porque, para o hoje, não faz tanta diferença assim.

Nossas vidas estão mudando em cambalhotas, já faz tempo, e quando nos vemos a gente responde que anda tudo na mesma. Como se tivéssemos a mesma vida de antes, e fôssemos os mesmos de antes. Quando na verdade nos tornamos dois completos estranhos.

É claro que amizades esfriam e pessoas ficam distantes e, claro, amizades também acabam, quando há motivos explícitos para tal; quando algo aconteceu e foi preciso que nos tornássemos um 'outro' para o outro (!). Mas aí fica de novo nostálgico e pra lá de triste quando nos tocamos de que amizades também acabam sem motivo nenhum. Sim, porque uma amizade que esfria, pra mim, é uma amizade que acaba.

E acaba mesmo.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Fica difícil escrever

E aí fica cada dia mais difícil escrever. Não sei porque. Parece que eu tenho medo da reprovação da plateia exigente, que sou eu, só. Sou eu que leio o que escrevo, e falo mal do que tá escrito e me recuso a continuar lendo. Tudo ruim. Tu soubesse a quantidade de posts com alcunha de "rascunhos" têm sido salvos por aqui, escondidos a sete chaves e a um clique. É tudo a prova de que só posso ser uma pessoa muito diferente daquela que escrevia num suspiro. Ou numa única tomada de fôlego.

Aí falta fôlego. Falta coragem, coragem do tipo expôr o rosto em forma de texto; expôr o corpo e a história da gente toda. Tem horas que ninguém quer saber. E tem horas que todos (duas pessoas) querem saber se aquela vírgula escrita foi uma indireta ou um menção nada honrosa a um fato infeliz. Eu às vezes tento dizer que as palavras não são autobiografias. Mas em se tratando de não-escritores, são sim, eles dizem, são sim. Sua palavra é a autobiografia.

E se for mesmo, então tá aí, a resposta de por que eu não consigo mais escrever.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Guinada

Vai pra frente, menina. Vai em frente também.
Vai pra frente e olha pra frente porque, não sei se te contaram, mas não existe outra saída nem caminho. É sempre pra frente que a gente vai, que o tempo vai, e a vida inteira.
E se a gente anda sem olhar pro adiante, o resultado é de não dar certo. (Tropeços.) E mesmo assim você insiste.

Vê se anda pra frente, olha mais à frente, e pensa em tudo que você pode encontrar por lá; o que ficou atrás a gente já sabe. E os dias que vêm pela frente são sempre melhores, sempre, porque são nossas possibilidades.

Olha pra frente. Anda pra frente. É nessa direção que as possibilidades estão. E se tu continua a olhar pra trás, nunca que tu vai vê-las. Nunca.

Pra frente. Sempre.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Nosso mal

A gente senta na mesa do bar e começa tudo outra vez. É outra sexta, outro mês, outro ano, outras vidas, e somos os mesmos. A gente senta na mesa e reclama. Tem as lamúrias, os lamentos, os sofrimentos e as piadas sobre os sofrimentos. A gente se acha superior porque faz piada da nossa dor. E ainda mais superior por fazer piada e brincar com o que nem é dor de verdade. Mas a gente acha que é. Tem certeza.

E alguns com tanta inveja de quem tem dinheiro. De quem ganha bem no fim do mês. E eu nessas horas me pergunto por que que a gente não tem inveja de quem é feliz. Uma inveja branca e branda, mas, pelo menos, desse conteúdo diferente. Ser feliz. A gente parou de ser feliz e de buscar isso. Sentou no bar e reclamou de que não tinha dinheiro. E que por isso nada dava certo.

E nada dando certo.

E as coisas iguais e nós todos iguais. E os tempos passando. E os dias mudando.

Nossa geração tem tanto medo de sofrer que é praticamente só isso que a gente faz: dizer que sofre. E acreditar no que diz. E sentir falta das coisas erradas e sentir ânsia pelas coisas erradas. E fazer tão pouco pra remendar isso tudo.

Depois que o fim de semana acabar, vamos começar tudo diferente? Vamos fazer diferente.

Depois que o fim de semana acabar.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Desconhecidos de sempre

Num dos restaurantes na universidade, a gente senta em mesas compridas, agrupadas em duas ou três ou mais. Antes evitavam esse tipo de coisa. As mesas eram dispostas como em restaurante mesmo, só algumas sendo um pouco mais compridas que outras, preparadas para receber meia turma de estudantes calouros, como mormente acontece.

Ao longo do tempo, as pessoas se habituaram a sentar entre desconhecidos. Há mais gente sozinha indo ali do que grupos de três ou quatro colegas. Se aproximam com o prato cheio em mãos, perguntam se tem alguém por ali e sentam. E comem. Pedem o suco do dia (cada dia só tem dois sabores disponíveis), e quando têm muito tempo, palitam os dentes no final da refeição.

As mesas tem ficado cada vez maiores e únicas. Nesses dias vira um grande refeitório, feito esses de colégio. E ninguém se importa mais onde senta - contanto que sente - nem com quem.

Em algumas vezes a gente lida com aqueles que sofrem da síndrome do incômodo de estar só, e que falam sobre suas vidas mesmo sem a gente perguntar se está tudo bem com elas. Teve um dia que a desconhecida na minha frente me viu pedir o suco de maracujá e falou que evitava; dava umas enxaquecas terríveis, que ela passou mais minutos explicando como que eram em frequência e intensidade e em conformidade aos seus hábitos alimentares. Assim como toda enxaqueca.

Outra vez tinha uma menina tão parecida comigo, na minha diagonal, que fiquei um pouco confusa do que estava acontecendo ali. Era um dia especialmente triste, não me lembro por quê, e, fazendo de conta que minha percepção não foi enviesada, ela vinha especialmente triste também. Comia em silêncio e sem expressão alguma. No final, pareceu suspirar e tomar algum fôlego pra voltar ao dia e ao tempo dele. A mesma coisa que fiz, minutos depois.

Na primeira vez que um anônimo se chegou na mesa abruptamente, sem pedir permissão nem convite, avisei que naquela mesa (que só tinha quatro lugares; faz anos isso) já tinha gente ocupando. Ele respondeu "tudo bem". Sentou e começou a comer. Quando minha mãe chegou com o prato e sentou, cumprimentou o senhor e começaram a falar de suas vidas inteiras. Eram velhos conhecidos - acostumados a sentar entre anônimos e não anônimos por aquelas mesas, já há bastante tempo. Eu era caloura no curso.

E essa semana estava tudo igual a sempre. Estávamos todos iguais às outras vezes. Comíamos entre desconhecidos absolutos ou conhecidos de se ver sempre por ali. Tínhamos adiantado o almoço para as onze e meia, sabendo que a fila do self-service depois do meio-dia fica difícil - a comida esfria enquanto a gente espera pra pesar o prato. Pensávamos em nossos problemas, em como resolvê-los ou adiá-los, planejávamos uma tarde que ia começar cedo e sonolenta. Mastigávamos o feijão esperando o suco ralo, e sonhávamos de olhos abertos com uma sesta impossível. Os cotovelos próximos, os celulares vibrando, a gente vendo a fila aumentar e mais gente chegar. E nos mantínhamos nessa atividade ligeiramente íntima que é comer, fazendo isso em público, público anônimo que ali se comporta como se não fosse, como se fossem pessoas conhecidas nossas, pessoas de sempre.

Fui para a fila do caixa lembrando os problemas não resolvidos da minha manhã e o acúmulo para a tarde. Queria uma sesta. Mais gente saía e chegava. E todos faziam mais do mesmo; como sempre.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Faz tempo

Com vontade de ouvir nossos silêncios.
No meio dessa semana barulhenta desse novo fevereiro que começa frenético e com cara de atraso. Empurrando o ano goela abaixo de quem o postergava; e eram tantos. Vê agora a cidade mais cheia de gente e de pressa e de barulhos altos que não dizem nada.

Sinto falta dos nossos silêncios.
A semana vai tão apressada e a agenda da gente também faz barulho. Muitos compromissos agora, empurrados também pelo fevereiro e pelo ano atípico que pede pressa inicial. Eu não gosto de ter pressa só no início. Tenho pressa sempre. E esse ritmo frenético artificial de agora me irrita tanto.

Vontade de ouvir silêncios.
E seus dias se atropelando e a viagem iminente mudando a rotina inteira. Vai vir. Penso nisso e a cabeça explode um pouco. E a ânsia e a rapidez dos dias que vão passar rápido, rápido. Logo.
Vontade de frear a pressa fajuta de todo mundo, baixar o volume do dia. E ouvir nossos silêncios.
E ficar com mais tardes e noites assim, ouvindo nossos silêncios, olhando dentro dos olhos um do outro.

Há quanto tempo não fazemos isso?

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Desaforismos

Parece ter sido daquelas quedas das quais a gente não consegue se recuperar. Alguma coisa foi muito bem mutilada e faz a gente mancar pro resto da vida. Algum pedaço da gente morreu e virou um fantasma que não te abandona nunca mais.

Ele me disse que eu não tinha culpa nenhuma, que, pelo contrário, eu tinha sido mais que certa comigo mesma nos últimos meses. Não havia erro. Eu só me entregava demais, apostava tudo, e que aí a primeira decepção me esgotava. Mas eu não me recuperara.

Parecia querer me consolar, mas na verdade eu sabia que ele pendia um pouco para a inveja; tinha vontade de saber como era isso, de viver a aposta da entrega, pelo menos uma vez. Mas tinha medo. Me consolava. Queria aquilo pra ele. Sentia o medo e rejeitava a ideia. Da boca pra fora dizia que eu estava certa em me apaixonar tanto; da alma pra dentro tinha sobressalto ao se imaginar sofrendo esse tanto assim. Do jeito que eu vinha.

Do jeito que fiquei.

Tentei dizer que se entregar tanto assim não valia à pena. Não porque a gente sofre. Mas porque depois que a gente sofre, dependendo do quanto, é capaz que a gente não se apaixone nunca mais. É capaz que a gente nunca mais consiga. E é. Mas achei melhor concordar com tudo que ele dizia, e me despedi.

Desaforismo

Já se foram vinte páginas e acho que está bom.
Eu ia reescrever tudo, contar o começo e o meio e o não fim, inventar um fim, bem trágico, de preferência; eu quis começar tudo de novo só para dar um fim definitivo à história.
Pura ficção.

Vou parar por aqui.
Vinte páginas.
A história mal começou. E vou parar por aqui.