sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Desconhecidos de sempre

Num dos restaurantes na universidade, a gente senta em mesas compridas, agrupadas em duas ou três ou mais. Antes evitavam esse tipo de coisa. As mesas eram dispostas como em restaurante mesmo, só algumas sendo um pouco mais compridas que outras, preparadas para receber meia turma de estudantes calouros, como mormente acontece.

Ao longo do tempo, as pessoas se habituaram a sentar entre desconhecidos. Há mais gente sozinha indo ali do que grupos de três ou quatro colegas. Se aproximam com o prato cheio em mãos, perguntam se tem alguém por ali e sentam. E comem. Pedem o suco do dia (cada dia só tem dois sabores disponíveis), e quando têm muito tempo, palitam os dentes no final da refeição.

As mesas tem ficado cada vez maiores e únicas. Nesses dias vira um grande refeitório, feito esses de colégio. E ninguém se importa mais onde senta - contanto que sente - nem com quem.

Em algumas vezes a gente lida com aqueles que sofrem da síndrome do incômodo de estar só, e que falam sobre suas vidas mesmo sem a gente perguntar se está tudo bem com elas. Teve um dia que a desconhecida na minha frente me viu pedir o suco de maracujá e falou que evitava; dava umas enxaquecas terríveis, que ela passou mais minutos explicando como que eram em frequência e intensidade e em conformidade aos seus hábitos alimentares. Assim como toda enxaqueca.

Outra vez tinha uma menina tão parecida comigo, na minha diagonal, que fiquei um pouco confusa do que estava acontecendo ali. Era um dia especialmente triste, não me lembro por quê, e, fazendo de conta que minha percepção não foi enviesada, ela vinha especialmente triste também. Comia em silêncio e sem expressão alguma. No final, pareceu suspirar e tomar algum fôlego pra voltar ao dia e ao tempo dele. A mesma coisa que fiz, minutos depois.

Na primeira vez que um anônimo se chegou na mesa abruptamente, sem pedir permissão nem convite, avisei que naquela mesa (que só tinha quatro lugares; faz anos isso) já tinha gente ocupando. Ele respondeu "tudo bem". Sentou e começou a comer. Quando minha mãe chegou com o prato e sentou, cumprimentou o senhor e começaram a falar de suas vidas inteiras. Eram velhos conhecidos - acostumados a sentar entre anônimos e não anônimos por aquelas mesas, já há bastante tempo. Eu era caloura no curso.

E essa semana estava tudo igual a sempre. Estávamos todos iguais às outras vezes. Comíamos entre desconhecidos absolutos ou conhecidos de se ver sempre por ali. Tínhamos adiantado o almoço para as onze e meia, sabendo que a fila do self-service depois do meio-dia fica difícil - a comida esfria enquanto a gente espera pra pesar o prato. Pensávamos em nossos problemas, em como resolvê-los ou adiá-los, planejávamos uma tarde que ia começar cedo e sonolenta. Mastigávamos o feijão esperando o suco ralo, e sonhávamos de olhos abertos com uma sesta impossível. Os cotovelos próximos, os celulares vibrando, a gente vendo a fila aumentar e mais gente chegar. E nos mantínhamos nessa atividade ligeiramente íntima que é comer, fazendo isso em público, público anônimo que ali se comporta como se não fosse, como se fossem pessoas conhecidas nossas, pessoas de sempre.

Fui para a fila do caixa lembrando os problemas não resolvidos da minha manhã e o acúmulo para a tarde. Queria uma sesta. Mais gente saía e chegava. E todos faziam mais do mesmo; como sempre.

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