quarta-feira, 26 de março de 2014

Sem letras nem timbres

Saudade que tenho de ler as palavras dos meus, dos nossos. 

Faz dias que espero respostas em e-mails e chats e por mensagens que chegam nas telas dos telefones. São várias fontes de texto, e vários possíveis caminhos. Poucas vezes os olhos nos olhos, e, quando sim, os olhos que eu vejo têm de lidar com telas e fontes artificiais de letras. 

Talvez eu precise fazer caligrafia. Tu também. 

Sinto falta das conversas longas atravessadas em fios de telefone. Dos textos grandes e confusos e próprios, bem próprios. Sinto falta de a gente se apropriar de nosso discurso e se meter a conversar. Sobre nós, e do nosso jeito. 

A gente fala de passagem. Conversa muito rápido. Esquece de olhar nos olhos e fica falando sentimentos por dentro das telas. E rápido, cada vez mais rápido, por poucos tempos. E ainda mais o mundo cada dia com mais imagens da gente e menos palavras nossas. Isso acaba bem? 

Isso me acaba um pouco. Eu sinto as saudades e o receio de passar a ver, cada vez mais, menos palavras e letras. Menos de nós. Menos de papo. E mais de imagens rápidas que fogem; mal me ficam na memória. 

Eu mesma. Não lembro mais minha caligrafia. Nem a sua. Nem a conversa longa última que tivemos. Lembro menos ainda a sua voz. Esqueci completamente. 

Faltei

Eu hoje não vi o céu. Eu hoje acordei cedo, me arrumei cedo, fiz café, comi pão, pensei no dia e no futuro. Saí de casa com pressa apesar de ter acordado cedo. Cheguei na universidade com mais pressa achando que não daria tempo do compromisso para onde eu teria de seguir depois de lá. Assustada com a sequência do dia. A sequência que planejei ontem, replanejei hoje, e replanejava de novo (!) enquanto esperava as centenas de xerox que eu tirava. Na minha frente, a mensagem: "Tá com pressa? Acorda mais cedo!". E uma tartaruga sorrindo. Eu devia ter levantado mais cedo. Teria visto o céu.

Segui o dia correndo sobre os pés e por dentro da cabeça e por dentro das entranhas. Amaldiçoei a cidade quando o céu desabou. O dia ia desabar. Amaldiçoei o céu que desabou. Se eu tivesse visto o céu, não teria amaldiçoado ninguém.

Ontem eu mesmo eu dizia que queria me mudar e ir finalmente morar numa casa. Eu sempre morei em apartamento e hoje isso me angustia um pouco, especialmente se eu paro pra pensar sobre. Essa coisa de vivermos uns sobre os outros, em cima e em baixo, e espremidos lado a lado, e, a pior parte: olhando tudo de cima, de longe. E hoje eu não olhei pra cima. Nem muito à minha frente.

Corri mais, sem dar tempo de muita coisa. Coloquei os pensamentos pra correr também, e me perdi por dentro deles. Passei o dia olhando pra dentro do meu umbigo, e foi assim que perdi o grande espetáculo.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Futuro igual

Vão todos os prédios ficando verdes. Verdes e brancos, brancos e verdes. Em tons iguais de verde, esse tom cor de vidro, meio cor-de-piscina, mas verde. Por vezes também eles mudam alguns tons de verde de um para o outro. O que torna tudo pior. Porque há tons feios em um mundo de prédios iguais (o que já é feio por si). Prédios esqueléticos iguais.

Me pergunto se um dia todos os prédios da cidade serão assim, de mesmas cores, mesma altura, mesma espessura, se as pessoas de dentro serão iguais também.

Esse dia chega.

A cada manhã vejo mais espigões subindo e subindo. Mais operários se submetendo ao suor desses dias de calor impossível enquanto erguem um prédio igual ao outro, um prédio igual ao outro. Capaz de ter operários que já fizeram mais de um prédio igual; mais de dois; metade desses novos.

E são muitos. Os prédios e os operários.

Viveremos cercados de torres iguais, elas nos sufocando com essa vista igual. E me angustia eu ter de olhar para cima e, além de não ver céu, ver um verde que imita o natural e é feio, e é sempre igual. Já me angustia hoje. Penso nos dias futuros.

E se as pessoas continuarão iguais, também me dói pensar. Se os batons serão ainda todos vermelhos em todas as bocas, como são hoje. Ou se serão da cor coral ou da cor da boca ou da cor magenta, que eu não sei bem que cor que é.

Se seremos todos donos de corpos sarados, ou se os corpos serão todos esguios - como os prédios. E se ao invés de nos olharmos em espelhos, e depois sairmos para viver o dia sem espelhos, ficaremos defronte ele nos fotografando. E se vamos ficar olhando as fotos ao invés de ficar olhando para nós mesmos.

E se vamos rir menos, como hoje. Sim, porque acho que hoje as pessoas riem menos do que há um tempo atrás. Não sei se são os prédios ou os batons vermelhos ou a fixação em corpos sarados que têm deixado todos meio cabisbaixos. Ou se sou eu que ando cabisbaixa com os prédios iguais, as bocas iguais e os corpos iguais, e vejo tudo isso por uma lente ruim. Uma lente que não é fotográfica, como a deles. Uma fotografia que faço com meus olhos e que é impossível de compartilhar e de pôr legenda.

E se vamos continuar nos esforçando em sermos iguais para sermos aceitos. E por vezes nos esforçar para sermos um pouco diferentes e inusitados, planejadamente inusitados, para que assim sejamos admirados. E depois aceitos.

E se tudo isso continua.

Tenho medo de um futuro igual. O presente já vai assim.

E esse texto é igual a outros que já deixei aqui.

terça-feira, 18 de março de 2014

Eu ia reclamar de

Eu ia reclamar que vi a gasolina a 3,069 e que acho um descalabro um negócio desses. Mas desisti porque acusam isso de ser um mimimi safado de classe média, que acha que três reais por litro de gasolina é problema.

Eu ia reclamar que andar de ônibus nessa cidade virou motivo pra não querer sair de casa, mas desisti porque, veja, Bia: as manifestações passadas fizeram com que a passagem não aumentassem, e é necessário inclusive comemorar o preço atual das passagens, que, aparentemente conclui-se por aí, é justo.

Também ia reclamar do que um amigo disse: foi diminuída a frota de ônibus na cidade porque os empresários querem pressionar pelo aumento das passagens; os ônibus demoram a vir e quando chegam, estão lotados, fervendo as pessoas lá dentro a mais de cinquenta graus celsius. Eu não consigo saber se essa é uma notícia oficial, se é verdade, mas eu ia reclamar mesmo assim. Mas desisti porque, veja Bia: as manifestações passadas conseguiram fazer com que o preço da passagem não aumentasse (o que significa que "foi tudo por causa de vinte centavos?", vai saber), então não reclame, comemore.

Eu ia reclamar que meu carro quebrou ontem no meio da rua, apesar de ter saído da revisão poucas semanas antes, e que isso também é absurdo, visto os serviços estarem todos em dia e eu pagar caro por eles. Mas não reclamei porque esse é outro mimimi de classe média e porque "só passa por isso quem tem carro", inclusive algo que só tenho porque em Natal é semi-impossível andar de ônibus, pois eu preferiria não dirigir, mas também não reclamei disso (de não poder andar de ônibus, porque as passagens não subiram e etcétera), e aí também não reclamei do carro ter quebrado sem justificativas plausíveis. Não deixaram.

Eu ia reclamar que a cidade está impossível, intragável, intransitável e invivível. Mas disseram que tudo vai melhorar com a Copa (espero que meu joelho, também - porque "tudo" é "tudo", vocês que estão dizendo aí), as obras estão aí pra isso, depois da Copa teremos uma cidade cheia de avanços, empregos, e pessoas sorrindo.

Eu ia reclamar da minha dor no joelho, mas não reclamei porque disseram que, graças a Deus (minha mãe), eu tenho um plano de saúde que me dá vinte sessões de fisioterapia ao ano (?). E isso já facilita a minha vida, me faz feliz.

Eu ia reclamar que hoje de novo fez um calor do caralho mas desisti. Porque. Porque nem sei.

Não têm me deixado reclamar, e eu fiquei sem assunto. Assim mesmo.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Anotação velha

Hoje eu estava no banco gastando horas do meu dia enquanto escrevia no meu caderno vermelho, que já está esgotando nas páginas. Quando terminei de escrever o que queria, fui reler o caderno. Porque a gente sempre pode encontrar algo que preste - no meio de várias coisas das quais você se envergonha. Aí achei:

Nesses poucos metros quadrados com mais gente do que deveria haver. Por se tratar do "dia útil" com coisas demais a fazer, obrigações demais a cumprir. 
Comportamentos neuróticos denunciam que há gente demais para lugar de menos, obrigações demais para vida de menos. 
Essa senhora hipertensa, triste, tremendo a perna que treme nossas cadeiras, meus pés, meus pensamentos e a ligação do rapaz aqui de trás. 
O rapaz na frente. A cada quatro, seis minutos, dá de ombros, encolhe o pescoço, cabeça para o lado direito, para lado esquerdo. Dá de ombros, encolhe pescoço, cabeça para lado direito, cabeça para lado esquerdo. Numa cadência que lhe assegure ordem, nessa desordem de dia útil, de pagamentos inadiáveis de contas inúteis - para uns, tudo o que temos. 

Eu escreveria diferente hoje. Retiraria uns trechos (até agora não entendo porque chamei a senhora de hipertensa - ela deve ter dito a alguém do lado), mudaria umas coisas, escreveria mais. Ou não escreveria nada disso.

Mas foi legal achar esse texto corrido no meio de um caderno desorganizado e cheio de garranchos sempre escritos em tópicos. Quase não escrevo textos inteiros nele. E eu estava no banco. Talvez sentada na mesma cadeira que dessa outra vez.

Deve ter mais de um ano o manuscrito.

segunda-feira, 10 de março de 2014

A gente é difícil

Que se não fosse, nossa vida não seria reclamar dos outros - que muitas vezes são nós mesmos.

Eu vejo todos os dias modelos de que somos difíceis demais de se conviver, de sermos "seres sociais" - se é que essa frase pode fazer algum sentido.

Aqui na UFRN, uma das vias principais passa em frente à Biblioteca Central e ao Centro de Ciências Humanas (e também em frente ao laboratório de psicologia, mas esse já não importa tanto - dizem). É uma via de mão dupla, sem a necessária faixa amarela que vemos no trânsito comum, mas de mão dupla desde muito ou sempre.

Acontece que, diferente das pessoas que andam de ônibus e a pé, as pessoas que dirigem carros seguem à risca sua religião Motorista que prega: andarás sempre o mínimo possível sobre os pés, o mínimo possível. Diz que se paga caro pelo pecado de estacionar longe e em locais permitidos. Então, era bem óbvio: os estudantes professores funcionários visitantes e demais seres humanos estacionavam o carro na via dupla. Coladinho com a Biblioteca Central, que era para não andar muito e deixar o carro toda a tarde estacionado ali, enquanto se estudava muito (me pergunto para o quê).

No fim da tarde e início da noite, quando o trânsito dentro da universidade também é intenso, tínhamos um problema: a via de mão dupla tornava-se mão única e, frequentemente, os carros se beijavam bem no meio do caminho. Alguém tinha de ceder e dar ré. Ou, o que era também complicado de se fazer, pois seguia a ordem da boa vontade (que tínhamos que ter, já que os seres humanos da religião fervorosa Motorista tinham estacionado todos os seus possantes na via principal da universidade, proibidos eles de andarem muitos metros a pé): um motorista esperava com seu carro do outro lado da rua, bem no início da via, enquanto o colega, lá dez carros à frente, vinha trazendo sua turma na mão oposta. E era esperar um, dois, três, mil carros virem, para depois você ir - se não viesse mais ninguém, ou se houvesse um alguém de bom coração esperando sua vez do lado de lá. E que lado de lá. A fila de carros estacionados era grande.

Então que a falta de educação e bom senso e boa vontade e o excesso de egoísmo e egocentrismo acompanhados da mania de estacionar em locais inconvenientes de todos esses religiosos fervorosos proibidos de andar a pé resultou em: tijolos amarelos grandes precisando de dividir a pista em mão dupla, anunciando que sim, gente, em todos os horários, ali devem passar carros nas duas direções e que não, não é permitido nem de bom grado nem de bom senso estacionar seus carros em cima da biblioteca, mesmo que vocês estejam estudando para causas muito nobres que não vêm ao caso de jeito nenhum. Foi preciso escancarar o óbvio e explicitar limites para que as pessoas cumprissem o que já era óbvio e o que já continha limites há muito tempo.

O que foi necessário, depois positivo e razoável, teve também seus efeitos ruins imediatos porque, sim, a gente não cansa de ser difícil. O estacionamento do laboratório de Psicologia teve sua dificuldade aumentada (?): os tijolos amarelos exigiam manobras mais apertadas para enfiar o carro em noventa graus. Antes, sem a divisão concreta das vias, bastava aumentar a curva e colocar o carro em sintonia com os outros, repetindo: em noventa graus. E então, o que aconteceu: as pessoas passaram a estacionar em 45 graus. Não existe demarcação no chão, mostrando como as pessoas devem de estacionar; mas além de ser possível estacionar como antes, é óbvio qual que seja o jeito certo: aquele em que outras pessoas poderão também usar o estacionamento, não só você e mais três.

A conclusão é rápida: em breve terão que pintar (gastar outros dinheiros) o chão com linhas amarelas em noventa graus, anunciando concretamente, explicitamente, via regras, como devemos estacionar. Para que todos fiquem felizes no final.

Eu, usando um banheiro público, já cheguei a ver: "depois de usar o banheiro, lave as mãos". Isso depois de ter lido "não urine na tampa", "dê descarga", "não jogue papel no chão", "coloque absorventes higiênicos no cesto", "não jogue papel higiênico molhado no teto, por favor" (esse eu inventei, mas não duvido) e outros.

Olhe só, como a gente dá trabalho. E só pra nós mesmos. A gente é muito difícil. E se não houver um pai ou uma mãe pra colocar os tijolos na via, pintar as linhas do jeito certo, e para escrever em detalhes tudo o que devemos fazer, já pensou, não conseguiríamos viver em sociedade.

Exclamação entre parênteses.

domingo, 9 de março de 2014

Vocês têm que ler Rubem Braga

Para lerem crônicas bonitas e simples, também sutis, algumas eternas. Para verem como uma crônica pode ser eterna, pois que seja, com Rubem Braga o termo "crônica" pega mais sentido que tudo. Digo mais: com Rubem Braga a vida pega mais sentido que tudo.

Ele pegou nossos dias e os fatos comuns de nossos dias e fez crônica com eles. Como quem pega um presente e põe num embrulho bonito. Ele embrulhou tudo em crônica - e foi dando de presente aos leitores aos poucos. Que hoje as editoras nos dão de uma vez só: as crônicas em capa dura, um detalhe que aviva ainda mais a eternidade onde o Braga já está. 

Ele escreveu crônica para todos sem parecer se preocupar necessariamente com isso. Dele ele falava pouco; mas dá para conhecê-lo ao longo das duzentas crônicas que se lê. Meu pai disse que o conheceu pessoalmente. Sortudo. Mas que o Rubem (fiquei íntima, feito o diabo em Eu e Bebu Na Hora Neutra da Madrugada) falava pouco, quase nada. Era calado, caladíssimo, fechado para os não conhecidos. Economizava nas palavras orais. Colocou tudo pela máquina de escrever, pra transformar em crônica, pra se transformar em eterno. E deu certo. 

Vocês têm que ler Rubem Braga para conhecer crônicas sobre os detalhes importantes sobre os quais nunca pensamos, e principalmente para conhecer crônicas sobre detalhes desimportantes sobre os quais nunca pensamos. 

Vocês têm que ler Rubem pra saber o que se deu quando ele e o diabo gastaram um sábado juntos. Para ler uma Receita de Casa bem dada: com direito a porão e cajueiro. Para ler Pedaços de Cartas de nordestinos que emigraram para a Amazônia, e saber o que dizia a senhora de Mossoró escrevendo ao marido, esse em Manaus. Para ver um homem apaixonado por trás de um Homem Rouco. Para saber o que um amigo dele dizia sobre Os Jornais: noticiam tudo, tudo menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida. Para vê-lo falando de comida mineira e frutas e árvores que dão frutas. Tão bom. E sobre O Padeiro, que apertava a campainha e avisava gritando, antes de incomodar qualquer pessoa: Não é ninguém, é o padeiro!. Pois. E mais ele querendo uma casa de paredes grossas, de muitas paredes, pois A Casa deve de guardar nossos segredos. Também acho. E ainda fazendo a gente pensar na burocracia de nosso Mundo de Papel, cheio de Pobres Homens Ricos.

Vocês têm que ler Rubem Braga pra encher a vida de vocês de crônicas boas e inesquecíveis. Para começarem a fazer crônicas o tempo todo, e de tudo, de cabeça ou à mão escrita. Para verem que a vida está aí, inteira e pronta para ser escrita e registrada. Cronicamente. 

quinta-feira, 6 de março de 2014

O problema do carnaval

Não é que eu deteste o Carnaval. Eu não gosto tanto, é verdade. Porque me incomoda um pouco uma coisa que paira sobre nossas cabeças além das serpentinas nesses quatro dias (às vezes mais): que é a obrigação de a gente ficar feliz, de ser bem alegre.

É dizer a palavra Carnaval e existe uma ameaça súbita que você tem que sorrir e sentir uma felicidade emanando dentro de você. Nada de tristeza, ódio, tédio. No Carnaval, a alegria é infinita e compartilhada em doses máximas. Tá todo mundo sorrindo na tevê, na propaganda, no instagram, na mesa do bar. Tá todo mundo contente de que vai chegar o Carnaval. E a alegria que eles irradiam é tanto que eu me pergunto se é somente de um carnaval que se trata.

Pior que é.

Aí eu não gosto. Acho que alegria é algo para ser concentrado e cultivado em doses saudáveis. E o excesso me irrita. (Pois é.)

E aí eu não gosto, e eu não vou, né. Ou saio de casa algum dos dias para "ir olhar", ação que condiz totalmente com minha idade psicológica para lá dos oitenta anos de idade. Vou um dia ver algumas pessoas e ouvir marchinhas. Mas não fico extravasando no sorriso e dançando frevo, porque seria ridículo. No caso eu, dançando frevo, deve de ser uma coisa pra lá de ridículo. (Uma vez na 2ª série do ensino fundamental eu tive de participar de uma apresentação de frevo e).

Mas sou do time dos que maltratam carnaval. Deixa ele lá; e eu simplesmente não vou, né? E se um dia ou se um ano eu me arrependo dessa resolução, eu "caio" na folia - o que deve ser mentira porque não fico rindo escandalosamente nem danço nada parecido com o frevo.

Nada contra. Aproveitem tudo. Até sejam felizes em modo infinito nos seus quatro ou seis dias carnavalescos. Isso tudo eu aguento numa boa. Mas vá: o que eu não gosto do carnaval é todo mundo comemorando reveión na quarta-feira de cinzas. E me desejando feliz ano novo na quinta-feira.

Se nem quando o ano vira, as coisas zeram, continua tudo na mesma (e eu já me irrito com nossa ilusão de novo começo). E agora, nessa quinta sexto dia de março, vocês ficam desejando feliz ano novo sem fogos e com as testas manchadas de cinza.

E aí, mais, o que eu não gosto do carnaval é que, virada a quarta-feira, vocês aceleram a linha do tempo que não existe e começam: daqui a pouco já é Páscoa, depois o ano acabou. Agora já é o Natal. Menina, já estamos em março!, o ano voou! (vocês dizem no tempo pretérito mesmo, que eu sei).

O problema do carnaval é só quando ele acaba mesmo: todo mundo querendo acelerar o ano, que, ao mesmo tempo, vocês dizem que acabou de começar. Me admitam aí: é pra chegar logo o carnaval no ano que vem?

Parem. E continuem o que estavam fazendo antes do feriado prolongado. E, claro, sem extrapolar na quantidade de alegria.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Um tudo quase nada

É tudo muito idiota, eu penso. Esse ritual todo que eu criei e que repito ou que tento repetir todas as noites. Ouço a mesma cantora em álbuns inteiros, e leio as mesmas histórias de sempre. As do mesmo escritor também. E escrevo. Ouço outro álbum da mesma cantora. Leio outra história. Esqueço de respirar, levanto, dou voltas, penso sobre que porra estou fazendo e se tudo isso vale a pena mesmo. Me sinto muito idiota. Amanhã tem mais, deve ter mais, é a regra. Vou repetir os rituais e fingir que estou fazendo algo de útil com tudo isso. Talvez me perguntem o que eu faço. Mas provavelmente não. Todo mundo dorme e até o cachorro quando acorda me deixa meio irritada; fico achando que me observa e que descobre algo. De não sei o que. Nada disso consegue mais ser segredo. Esse nada que me mostra assim tão idiota. Já faz anos. E eu repito o ritual, que acho que é apenas pra isso que serve: ser repetido. Era melhor que nada tivesse acontecido realmente. Que eu tivesse sido menos idiota.

Um tudo resumido a quase nada, é o que tenho.