segunda-feira, 10 de março de 2014

A gente é difícil

Que se não fosse, nossa vida não seria reclamar dos outros - que muitas vezes são nós mesmos.

Eu vejo todos os dias modelos de que somos difíceis demais de se conviver, de sermos "seres sociais" - se é que essa frase pode fazer algum sentido.

Aqui na UFRN, uma das vias principais passa em frente à Biblioteca Central e ao Centro de Ciências Humanas (e também em frente ao laboratório de psicologia, mas esse já não importa tanto - dizem). É uma via de mão dupla, sem a necessária faixa amarela que vemos no trânsito comum, mas de mão dupla desde muito ou sempre.

Acontece que, diferente das pessoas que andam de ônibus e a pé, as pessoas que dirigem carros seguem à risca sua religião Motorista que prega: andarás sempre o mínimo possível sobre os pés, o mínimo possível. Diz que se paga caro pelo pecado de estacionar longe e em locais permitidos. Então, era bem óbvio: os estudantes professores funcionários visitantes e demais seres humanos estacionavam o carro na via dupla. Coladinho com a Biblioteca Central, que era para não andar muito e deixar o carro toda a tarde estacionado ali, enquanto se estudava muito (me pergunto para o quê).

No fim da tarde e início da noite, quando o trânsito dentro da universidade também é intenso, tínhamos um problema: a via de mão dupla tornava-se mão única e, frequentemente, os carros se beijavam bem no meio do caminho. Alguém tinha de ceder e dar ré. Ou, o que era também complicado de se fazer, pois seguia a ordem da boa vontade (que tínhamos que ter, já que os seres humanos da religião fervorosa Motorista tinham estacionado todos os seus possantes na via principal da universidade, proibidos eles de andarem muitos metros a pé): um motorista esperava com seu carro do outro lado da rua, bem no início da via, enquanto o colega, lá dez carros à frente, vinha trazendo sua turma na mão oposta. E era esperar um, dois, três, mil carros virem, para depois você ir - se não viesse mais ninguém, ou se houvesse um alguém de bom coração esperando sua vez do lado de lá. E que lado de lá. A fila de carros estacionados era grande.

Então que a falta de educação e bom senso e boa vontade e o excesso de egoísmo e egocentrismo acompanhados da mania de estacionar em locais inconvenientes de todos esses religiosos fervorosos proibidos de andar a pé resultou em: tijolos amarelos grandes precisando de dividir a pista em mão dupla, anunciando que sim, gente, em todos os horários, ali devem passar carros nas duas direções e que não, não é permitido nem de bom grado nem de bom senso estacionar seus carros em cima da biblioteca, mesmo que vocês estejam estudando para causas muito nobres que não vêm ao caso de jeito nenhum. Foi preciso escancarar o óbvio e explicitar limites para que as pessoas cumprissem o que já era óbvio e o que já continha limites há muito tempo.

O que foi necessário, depois positivo e razoável, teve também seus efeitos ruins imediatos porque, sim, a gente não cansa de ser difícil. O estacionamento do laboratório de Psicologia teve sua dificuldade aumentada (?): os tijolos amarelos exigiam manobras mais apertadas para enfiar o carro em noventa graus. Antes, sem a divisão concreta das vias, bastava aumentar a curva e colocar o carro em sintonia com os outros, repetindo: em noventa graus. E então, o que aconteceu: as pessoas passaram a estacionar em 45 graus. Não existe demarcação no chão, mostrando como as pessoas devem de estacionar; mas além de ser possível estacionar como antes, é óbvio qual que seja o jeito certo: aquele em que outras pessoas poderão também usar o estacionamento, não só você e mais três.

A conclusão é rápida: em breve terão que pintar (gastar outros dinheiros) o chão com linhas amarelas em noventa graus, anunciando concretamente, explicitamente, via regras, como devemos estacionar. Para que todos fiquem felizes no final.

Eu, usando um banheiro público, já cheguei a ver: "depois de usar o banheiro, lave as mãos". Isso depois de ter lido "não urine na tampa", "dê descarga", "não jogue papel no chão", "coloque absorventes higiênicos no cesto", "não jogue papel higiênico molhado no teto, por favor" (esse eu inventei, mas não duvido) e outros.

Olhe só, como a gente dá trabalho. E só pra nós mesmos. A gente é muito difícil. E se não houver um pai ou uma mãe pra colocar os tijolos na via, pintar as linhas do jeito certo, e para escrever em detalhes tudo o que devemos fazer, já pensou, não conseguiríamos viver em sociedade.

Exclamação entre parênteses.

Um comentário:

-sOliNo- disse...

brasileiros são infantilizados. após séculos de governos autoritários, nós precisamos de "pais" que nos digam explicitamente o que podemos fazer e o que não podemos. e, pior que tudo, como toda criança, fazemos questão de testar a autoridade desses "pais", estacionando em frente a placas de "proibido estacionar", por exemplo. e assim vamos aprendendo o que realmente vale e o que não vale das regras desses nossos "pais". esse egoísmo que vc fala é o egoísmo da criança, que acha que o mundo existe apenas para satisfazer suas vontades. esse é o brasileiro depois de centenas de anos de governos autoritários.