quarta-feira, 12 de março de 2014

Anotação velha

Hoje eu estava no banco gastando horas do meu dia enquanto escrevia no meu caderno vermelho, que já está esgotando nas páginas. Quando terminei de escrever o que queria, fui reler o caderno. Porque a gente sempre pode encontrar algo que preste - no meio de várias coisas das quais você se envergonha. Aí achei:

Nesses poucos metros quadrados com mais gente do que deveria haver. Por se tratar do "dia útil" com coisas demais a fazer, obrigações demais a cumprir. 
Comportamentos neuróticos denunciam que há gente demais para lugar de menos, obrigações demais para vida de menos. 
Essa senhora hipertensa, triste, tremendo a perna que treme nossas cadeiras, meus pés, meus pensamentos e a ligação do rapaz aqui de trás. 
O rapaz na frente. A cada quatro, seis minutos, dá de ombros, encolhe o pescoço, cabeça para o lado direito, para lado esquerdo. Dá de ombros, encolhe pescoço, cabeça para lado direito, cabeça para lado esquerdo. Numa cadência que lhe assegure ordem, nessa desordem de dia útil, de pagamentos inadiáveis de contas inúteis - para uns, tudo o que temos. 

Eu escreveria diferente hoje. Retiraria uns trechos (até agora não entendo porque chamei a senhora de hipertensa - ela deve ter dito a alguém do lado), mudaria umas coisas, escreveria mais. Ou não escreveria nada disso.

Mas foi legal achar esse texto corrido no meio de um caderno desorganizado e cheio de garranchos sempre escritos em tópicos. Quase não escrevo textos inteiros nele. E eu estava no banco. Talvez sentada na mesma cadeira que dessa outra vez.

Deve ter mais de um ano o manuscrito.

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