quinta-feira, 20 de março de 2014

Futuro igual

Vão todos os prédios ficando verdes. Verdes e brancos, brancos e verdes. Em tons iguais de verde, esse tom cor de vidro, meio cor-de-piscina, mas verde. Por vezes também eles mudam alguns tons de verde de um para o outro. O que torna tudo pior. Porque há tons feios em um mundo de prédios iguais (o que já é feio por si). Prédios esqueléticos iguais.

Me pergunto se um dia todos os prédios da cidade serão assim, de mesmas cores, mesma altura, mesma espessura, se as pessoas de dentro serão iguais também.

Esse dia chega.

A cada manhã vejo mais espigões subindo e subindo. Mais operários se submetendo ao suor desses dias de calor impossível enquanto erguem um prédio igual ao outro, um prédio igual ao outro. Capaz de ter operários que já fizeram mais de um prédio igual; mais de dois; metade desses novos.

E são muitos. Os prédios e os operários.

Viveremos cercados de torres iguais, elas nos sufocando com essa vista igual. E me angustia eu ter de olhar para cima e, além de não ver céu, ver um verde que imita o natural e é feio, e é sempre igual. Já me angustia hoje. Penso nos dias futuros.

E se as pessoas continuarão iguais, também me dói pensar. Se os batons serão ainda todos vermelhos em todas as bocas, como são hoje. Ou se serão da cor coral ou da cor da boca ou da cor magenta, que eu não sei bem que cor que é.

Se seremos todos donos de corpos sarados, ou se os corpos serão todos esguios - como os prédios. E se ao invés de nos olharmos em espelhos, e depois sairmos para viver o dia sem espelhos, ficaremos defronte ele nos fotografando. E se vamos ficar olhando as fotos ao invés de ficar olhando para nós mesmos.

E se vamos rir menos, como hoje. Sim, porque acho que hoje as pessoas riem menos do que há um tempo atrás. Não sei se são os prédios ou os batons vermelhos ou a fixação em corpos sarados que têm deixado todos meio cabisbaixos. Ou se sou eu que ando cabisbaixa com os prédios iguais, as bocas iguais e os corpos iguais, e vejo tudo isso por uma lente ruim. Uma lente que não é fotográfica, como a deles. Uma fotografia que faço com meus olhos e que é impossível de compartilhar e de pôr legenda.

E se vamos continuar nos esforçando em sermos iguais para sermos aceitos. E por vezes nos esforçar para sermos um pouco diferentes e inusitados, planejadamente inusitados, para que assim sejamos admirados. E depois aceitos.

E se tudo isso continua.

Tenho medo de um futuro igual. O presente já vai assim.

E esse texto é igual a outros que já deixei aqui.

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