quinta-feira, 6 de março de 2014

O problema do carnaval

Não é que eu deteste o Carnaval. Eu não gosto tanto, é verdade. Porque me incomoda um pouco uma coisa que paira sobre nossas cabeças além das serpentinas nesses quatro dias (às vezes mais): que é a obrigação de a gente ficar feliz, de ser bem alegre.

É dizer a palavra Carnaval e existe uma ameaça súbita que você tem que sorrir e sentir uma felicidade emanando dentro de você. Nada de tristeza, ódio, tédio. No Carnaval, a alegria é infinita e compartilhada em doses máximas. Tá todo mundo sorrindo na tevê, na propaganda, no instagram, na mesa do bar. Tá todo mundo contente de que vai chegar o Carnaval. E a alegria que eles irradiam é tanto que eu me pergunto se é somente de um carnaval que se trata.

Pior que é.

Aí eu não gosto. Acho que alegria é algo para ser concentrado e cultivado em doses saudáveis. E o excesso me irrita. (Pois é.)

E aí eu não gosto, e eu não vou, né. Ou saio de casa algum dos dias para "ir olhar", ação que condiz totalmente com minha idade psicológica para lá dos oitenta anos de idade. Vou um dia ver algumas pessoas e ouvir marchinhas. Mas não fico extravasando no sorriso e dançando frevo, porque seria ridículo. No caso eu, dançando frevo, deve de ser uma coisa pra lá de ridículo. (Uma vez na 2ª série do ensino fundamental eu tive de participar de uma apresentação de frevo e).

Mas sou do time dos que maltratam carnaval. Deixa ele lá; e eu simplesmente não vou, né? E se um dia ou se um ano eu me arrependo dessa resolução, eu "caio" na folia - o que deve ser mentira porque não fico rindo escandalosamente nem danço nada parecido com o frevo.

Nada contra. Aproveitem tudo. Até sejam felizes em modo infinito nos seus quatro ou seis dias carnavalescos. Isso tudo eu aguento numa boa. Mas vá: o que eu não gosto do carnaval é todo mundo comemorando reveión na quarta-feira de cinzas. E me desejando feliz ano novo na quinta-feira.

Se nem quando o ano vira, as coisas zeram, continua tudo na mesma (e eu já me irrito com nossa ilusão de novo começo). E agora, nessa quinta sexto dia de março, vocês ficam desejando feliz ano novo sem fogos e com as testas manchadas de cinza.

E aí, mais, o que eu não gosto do carnaval é que, virada a quarta-feira, vocês aceleram a linha do tempo que não existe e começam: daqui a pouco já é Páscoa, depois o ano acabou. Agora já é o Natal. Menina, já estamos em março!, o ano voou! (vocês dizem no tempo pretérito mesmo, que eu sei).

O problema do carnaval é só quando ele acaba mesmo: todo mundo querendo acelerar o ano, que, ao mesmo tempo, vocês dizem que acabou de começar. Me admitam aí: é pra chegar logo o carnaval no ano que vem?

Parem. E continuem o que estavam fazendo antes do feriado prolongado. E, claro, sem extrapolar na quantidade de alegria.

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