domingo, 9 de março de 2014

Vocês têm que ler Rubem Braga

Para lerem crônicas bonitas e simples, também sutis, algumas eternas. Para verem como uma crônica pode ser eterna, pois que seja, com Rubem Braga o termo "crônica" pega mais sentido que tudo. Digo mais: com Rubem Braga a vida pega mais sentido que tudo.

Ele pegou nossos dias e os fatos comuns de nossos dias e fez crônica com eles. Como quem pega um presente e põe num embrulho bonito. Ele embrulhou tudo em crônica - e foi dando de presente aos leitores aos poucos. Que hoje as editoras nos dão de uma vez só: as crônicas em capa dura, um detalhe que aviva ainda mais a eternidade onde o Braga já está. 

Ele escreveu crônica para todos sem parecer se preocupar necessariamente com isso. Dele ele falava pouco; mas dá para conhecê-lo ao longo das duzentas crônicas que se lê. Meu pai disse que o conheceu pessoalmente. Sortudo. Mas que o Rubem (fiquei íntima, feito o diabo em Eu e Bebu Na Hora Neutra da Madrugada) falava pouco, quase nada. Era calado, caladíssimo, fechado para os não conhecidos. Economizava nas palavras orais. Colocou tudo pela máquina de escrever, pra transformar em crônica, pra se transformar em eterno. E deu certo. 

Vocês têm que ler Rubem Braga para conhecer crônicas sobre os detalhes importantes sobre os quais nunca pensamos, e principalmente para conhecer crônicas sobre detalhes desimportantes sobre os quais nunca pensamos. 

Vocês têm que ler Rubem pra saber o que se deu quando ele e o diabo gastaram um sábado juntos. Para ler uma Receita de Casa bem dada: com direito a porão e cajueiro. Para ler Pedaços de Cartas de nordestinos que emigraram para a Amazônia, e saber o que dizia a senhora de Mossoró escrevendo ao marido, esse em Manaus. Para ver um homem apaixonado por trás de um Homem Rouco. Para saber o que um amigo dele dizia sobre Os Jornais: noticiam tudo, tudo menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida. Para vê-lo falando de comida mineira e frutas e árvores que dão frutas. Tão bom. E sobre O Padeiro, que apertava a campainha e avisava gritando, antes de incomodar qualquer pessoa: Não é ninguém, é o padeiro!. Pois. E mais ele querendo uma casa de paredes grossas, de muitas paredes, pois A Casa deve de guardar nossos segredos. Também acho. E ainda fazendo a gente pensar na burocracia de nosso Mundo de Papel, cheio de Pobres Homens Ricos.

Vocês têm que ler Rubem Braga pra encher a vida de vocês de crônicas boas e inesquecíveis. Para começarem a fazer crônicas o tempo todo, e de tudo, de cabeça ou à mão escrita. Para verem que a vida está aí, inteira e pronta para ser escrita e registrada. Cronicamente. 

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