sexta-feira, 11 de abril de 2014

A moça no carro ao lado

Eu dirigia por uma das principais vias da cidade. Parei ao sinal vermelho; onze e pouco da manhã, sol forte, sol quente, trânsito fluindo um pouco por ali - pois ainda estávamos distante das obras de imoralidade urbana da Copa. Um gol preto pára bem ao meu lado, e me chama a atenção quem ia dentro dele.

Vidros abertos - em Natal, isso já chama a atenção por si só, e dentro do carro uma mulher usando seus óculos escuros. Não dava pra ver muito dela, mas acho que tinha entre seus 30 e 40 anos. 37 parece um chute bom. Claro que eu não conseguia ver sua roupa, mas seu ombro esquerdo revelada um tecido amarelo-ouro, em verdade mais ouro que amarelo, meio dourado, em tecido brocado e com brilhos. Bordados e brilhos. Uma coisa incoerente com o meio-dia de uma quarta, em Natal, sob vidros abertos. (Incoerente pra quem?) Não dava para saber se ela estava vestida para uma festa. Ou se ela havia estado em uma festa na noite anterior, e por motivos dela, ainda vestia o tecido glamouroso. Ou se o restante da roupa seria simples; a impressão daquela parte da roupa é que não condizia com o restante. Mas o tecido brilhava feito sol, refletia as luzes do dia, de verdade, chamava a atenção.

Mas não foi nada (tudo) disso que me fez olhar pra ela. A moça, detrás de óculos escuros e dentro da máquina que nos deixa anônimos o dia inteiro, cantava. Dançava. Levantava os braços, balançava as mãos, abria um pouco os dedos, seguia o ritmo não frenético da música, cantava mais. Sacudia um pouco a cabeça para os lados, levantava um dos braços, não parava de cantar. Não esbravejava agudos nem exibia dote artístico nenhum. Curtia. Ouvia e sentia uma música que devia vir do seu som, mas que surgia muito mais de dentro dela, e assim ela cantava mais. Não olhava para os lados para saber se havia alguém olhando (como quem quer ser visto, ou, mais, como quem não quer ser visto). Não exagerava. Fazia no seu carro aquilo que uns manuais de autoajuda nos dizem para fazer de vez em quando "dance de qualquer jeito, dance de um jeito livre... quando estiver sozinho". Ainda bem que a autoajuda sempre está errada. Ela dançava. Sorria. E ria mais, de um jeito leve, cantando de um jeito leve, aberto, dançando mesmo que sentada e presa por um cinto de segurança e por olhares ansiosos sobre a sua felicidade.

Não sei o que ela sentia. Se é dona de um transtorno bipolar com extremos extremíssimos e nesse dia experimentava uma mania assustadora (ou deliciosa). Se havia estado em uma festa na noite anterior, e em algo melhor que uma festa, logo depois, e por isso até então a roupa brilhosa e a suposta comemoração. Se havia se recuperado de um câncer, ou conseguido o emprego dos sonhos, ou encontrado o grande amor da sua vida (talvez na festa de ontem, quando comemorava seu novo emprego, e enquanto experimentava um delicioso momento maníaco em sua sazonalidade). Ou se ela estava simplesmente alimentando seu dia do jeito certo: comemorando. Talvez sem motivo nenhum.

Segui meu caminho imaginando como seria se todos nós fizéssemos isso todo dia. Se no trânsito estivéssemos todos cantando e dançando a cada vez que o carro parasse. Se estivéssemos sorrindo porque a música que está tocando na rádio é irada, e dá vontade de dançar e de sorrir. Se assim levássemos os carros e os dias.

Imaginei todos nós sendo mais assim, em nossos dias. Assim... mais... livres.

Um comentário:

Deyze disse...

Meu Deus, é muito isso! Ela brilhava por si só, nem precisava da roupa reluzente! Quero ser assim quando eu crescer! Quero crescer o mais rápido possível!