segunda-feira, 7 de abril de 2014

Eles e nós

Isso de nossos cachorros viverem tempo de menos e a gente, tempo demais, é uma grande merda. Uma coisa pelo avesso. Ou um certo escrito em linhas tortas (tortíssimas, pedregosas). Como se a gente tivesse algo de grandioso para contribuir vivendo nossos, sei lá, cem anos.

Logo a gente, que não faz festa com a chegada da nossa família, que só brinca quando é criança, que só corre quando não tem preguiça, que só sente o prazer de comer quando passa por longos períodos de fome, e olhe lá.

Logo a gente, que não é afeito de fazer companhia. Que tem mania de ser só, de ficar só, e de ficar só mesmo em bando, mexendo em telas de celulares e computadores.

Logo a gente, que falha em ser leal. Que esquece aniversários, faz questão de não dar bom dias, dorme a hora que quer sem dar boa noite. A gente que não se chega por perto de ninguém e faz um carinho, nem pede um carinho, nem traz um brinquedo nem uma esperança de sair e ver o mundo.

Logo a gente, que sai todos os dias para ver o mundo e acha isso uma grande merda. E reclama de tudo, porque acha que o tudo é nada. A gente que faz barulho em demasia. Logo a gente.

Logo a gente vive tanto. E criamos esses filhotes que são mais humanos que nós, mais leais do que nós, mais legais também, mais parceiros, mais alegres, festeiros. Mais eternos.

Bastam cinco, sete, dez, alguns até dezenove anos. Eles vêm, ficam um pouco, fazem uma festa incrível cotidianamente, e partem. Basta um período desses aí, eles vêm para partir e ficar eternos; eles vêm e nos mostram como deve ser vivida a vida da gente, que é longa, tão longa, tão extensa, que nós a deixamos de lado, quase sempre.

Eles trazem a vida junto com eles. E não deixam-na escapar do coração deles enquanto respiram perto de nós. Bem perto de nós.

Que, dentro de nossos cem ou mais ou menos anos de vida, não esqueçamos do que eles tentaram nos dizer, todos os dias, em tão poucos anos.

Um comentário:

Maíra D disse...

poucas vezes na vida vi olhar mais expressivo de carinho e expectativa como o que a minha cachorra faz. poucas ou nenhuma
e falam mais
até me emocionei