sábado, 26 de abril de 2014

Na livraria esses dias

As nossas livrarias andam um pouco diferentes, vocês sabem, né. Primeiro que são cada vez menos. As que não estão locadas em shoppings, estão queimando seus estoques e fechando, fechando. Virando cafés. Fechando. As que estão em shoppings centers têm deixado de vender bons livros pra vender um estoque de 85% de best sellers, e o restante de livros para concursos. Mais um pouco (um terço ou um quarto da loja) (acho que errei no cálculo da porcentagem) vende material de papelaria. E a parte mais importante de cada uma delas tem sido, cada vez mais, o café.

Mas vá lá. Eu ainda as frequento, apesar de ter a certeza resoluta de que, em Natal, as melhores oportunidades para comprar livros são nos lançamentos dos amigos e na internet. A livraria decepciona.

Eu estava lá pescando pelo livro da Ana Elisa, o Capitu. Devia ser o quarto exemplar desse livro que eu andava comprando - pra dar de presente, calma. Ele não estava na mesa onde devia estar, ao lado dos outros livros da editora. Não estava na prateleira onde devia estar. Mas tinha um exemplar disponível na loja, disse o sistema, e a moça que olhou o sistema (porque os clientes não podem acessar o sistema sem pedir - e esperar por quinze minutos e uma fila de três pessoas - ao livreiro).

Ela deu uma volta na loja. Deu duas. Perguntou ao outro livreiro, que fez beiço e cara de quem não tinha notícia nenhuma desse livro (não me surpreende, já que ele deve passar o dia ouvindo e procurando títulos de best sellers e de concursos). A vendedora (que eu já ia chamar de livreira, olha) se aproxima com olhar de nada e diz com tom de coisa nenhuma que "infelizmente, senhora, não encontrei na loja".

Eu preciso que as pessoas abandonem o costume de responder "infelizmente" aos clientes. Porque elas não lamentam por isso, não acham a situação infeliz, muito menos ficam infelizes por não terem encontrado um livro (que não está onde devia estar) dentro de uma loja (que não é grande). A vida delas segue. A minha seguiu sem livro, e eu tive de comprar um outro por lá mesmo. Saí quase que de mãos abanando.

Voltei esses dias e, desesperançosamente, perguntei por um livro do Daniel Pellizzari. Achei que não ia ter. Minha experiência na loja, quando consigo encontrar um vendedor, depois de sete minutos procurando, depois de quinze esperando numa breve fila, depois de ele se apertar pelos labirintos do computador, é ele dizer que não tem nenhum exemplar em loja. Mas, pasmem, tinha o livro, e, de novo: apenas um exemplar.

A moça se antecipa: tem um exemplar na loja, mas se ele não estiver na estante onde deveria estar, eu não vou ter como encontrar pra senhora.

Antes que minhas sinapses se organizassem pra eu realmente compreender o que a vendedora (deixando ela bem claro, nessa situação, que não é uma livreira) tinha acabado de me dizer, acompanhei a moça até a única prateleira onde o autor deveria estar. Não estava. Ela olhou em uma prateleira da grande estante (devia ser gigante) dos autores nacionais. Olha, não está aqui; deveria estar, porque organizamos por ordem alfabética do sobrenome, mas como não está, ele pode estar em qualquer lugar da loja, e eu não tenho como encontrar para a senhora.

Eu tenho certeza que ela repetiu "infelizmente" algumas três vezes, mas me recuso a transcrever as frases por aqui. Então eu, no auge da minha bravura e independência, aceitei o desafio: tudo bem, vou procurar o livro.

Comecei pela primeira prateleira da estante dos autores nacionais (são seis blocos, cada um com cerca de oito prateleiras - reforçando que a moça olhou uma prateleira). Fui um a um. Não sabia como era a capa do livro, tinha esquecido de fazer isso antes de sair de casa, se era preta ou verde ou nude (bege). Se o livro era grosso ou não, pequeno, alto. Lá vou eu, livro a livro, prateleira a prateleira.

Três, quatro, cinco minutos depois... O LIVRO. E onde ele estava: na prateleira exatamente acima de onde "deveria estar". Era só subir um pouco mais os olhos, insistir um pouco mais em investir a atenção seletiva naquilo que deveria ser (desculpem, mas eu acho) o trabalho deles.

Posso estar fazendo comentários injustos, mas, a função do livreiro perde um pouco o significado se ele só olha o livro no sistema, e vai até a prateleira "onde ele deveria estar". Uma prateleira que é bem estreita, que só acumula livros de autores cujo sobrenome comece com P ou N ou C ou qualquer letra. Isso eu também sei fazer, e sem olhar no sistema (o qual só o vendedor tem acesso).

Não acho que vendedor tenha de passar uma tarde do meu lado procurando por um exemplar perdido. Claro que não. Mas investir cinco minutos a mais não é um problema, ou não deveria ser. Só que: como o dono da livraria quer pagar poucos funcionários, tem por lá sempre uma fila de pessoas esperando para consultar o sistema. E depois que o vendedor procurar o livro de uma delas, a fila fica maior, e assim sucessivamente, por todo o dia.

É preciso que haja menos vendedores e mais livreiros, e que estes últimos tenham certeza dos significados de seu trabalho. E que, se for o caso de os clientes fazerem muita bagunça e mudarem muito os livros de lugar, que haja funcionários específicos pra isso. Para manter a loja organizada por todo o dia, colocar os livros onde devem estar.

Mas quando a livraria vira loja, e o livro vira um produto qualquer de consumo, dizer e implicar com tudo isso não faz mais tanto sentido. É esperar chegar em casa e consultar as estantes das livrarias virtuais. Infelizmente, não tem muito jeito. Infelizmente.

Um comentário:

Deyze Ferreira disse...

INFELIZmentes!!!