segunda-feira, 26 de maio de 2014

O livro do tempo longo

O livro longo. Não fácil, mas sem chegar a ser difícil. O livrou que levei meses lendo, se é que se pode passar meses lendo um livro de 700 páginas. Pode. O livro fabuloso.

Grande Sertão Veredas.

Todos temos uma lista de clássicos encabeçando nossa vontade de ser um leitor de respeito. E todos temos uma lista própria de clássicos onde cabem menos clássicos que na lista anterior, que são os que lemos realmente até o fim dos nossos dias. Espero que eu tenha muitos dias pela frente, para ler meus clássicos e os não clássicos que eu passo a chamar de clássicos depois de lê-los. Porque sim. Enfim.

Ganhei uma caixa de livros com alguns exemplares do Rosa. Uma coisa linda de se ganhar de presente, um acerto que só a melhor amiga é capaz de fazer. Dentro dela vinha um exemplar de Grande Sertão. Grosso, e delicado, e muitas páginas, e um mundo de história pela frente. A jagunçagem toda esperando ser lida e vivida e ouvida. Pois olhe, meu pai avisou logo: aproveite para ler esse livro em voz alta, de vez em quando.

É lindo. Rosa fica lindo sendo lido, e mais ainda sendo ouvido. Guimarães Rosa saindo de nossa voz parece mesmo saindo de nosso coração, te falo a verdade. As palavras inventadas e as palavras que já existem sendo mais bonitas porque ele aloca-as de um jeito só dele. E você as ouve. Parece que está "elevando" o livro a um patamar superior - onde o livro já está, como sabemos, mas para onde ele só transita depois que você o lê. Uma experiência danada.

Me incomodava muito minha lentidão em ler Grande Sertão. Eu me sentia meio burra e meio fútil, observando minha impaciência, e, devo admitir, uma não-vontade de seguir com a leitura me atacou algumas vezes. Aí levei meses. Mais ainda que o peso do livro não me deixava levá-lo sempre para todos os lugares. Eu lia-o mais em casa.

Ainda bem que eu li o Sertão Grande mais dentro da minha casa. Deitada na cama, no sofá, entoando Rosa no silêncio do domingo. Aí nisso eu acertei. Mesmo que estivesse lenta e meio torpe, com dificuldade de avançar junto com Riobaldo, e nem tão curiosa por Diadorim (admito), eu pude ouvi-los aos poucos, em dias mais tranquilos e de mente mais quieta. Porque Grande Sertão tem de ser lido assim.

Achei que eu ia devorar o livro clássico, me empanturrar de Rosa e esquecer das obrigações enquanto lia-o em voz alta. Foi assim algumas vezes, mas não em todas; e todas as vezes, em total, levaram meses.

Terminei a obra. Vou lê-la de novo, sim, quando quiser. Vou ouvi-lo de novo falar através de mim umas coisas simples e lindas. Vou recomendar que os outros o leiam, mas que leiam sem pressa e sem agonia com a própria agonia de estar sendo lentos na leitura. É que é um livro fabuloso. É uma experiência fabulosa. Um único sujeito sentou para escrever essa história fabulosa, que ficou eternizada em um livro que, ainda bem, é lindamente valorizado.

Ler Grande Sertão Veredas não foi fácil. Mas foi lindo. De novo: completamente fabuloso.

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