quinta-feira, 15 de maio de 2014

Passaram e ficaram

Eram as primeiras horas da noite duma sexta, e eu tinha parado no cruzamento e esperava o sinal vermelho. Agora que os táxis e os motoristas embriagados derrubam sinais de trânsito nas madrugadas, os sinais com vários círculos vermelhos e verdes são substituídos por aqueles que só tem um pra cada cor. A gente se desacostuma desses. Não sabe se tá perto ou se tá longe de abrir, e mal olha pra rua, com medo de perder o começo do sinal verde e o cara de trás infartar na buzina, apressado. Como todos.

Nas primeiras horas da noite de sexta não parecia ter tanta gente na rua com pressa. Talvez fosse sábado. E agora eu me confundo porque o dia exato mesmo não importa. Pela minha direita, na calçada, vinha um casal do lado oposto. Que eu não sei bem se formavam um casal. Era menino e menina, homem e mulher, rapaz e moça, por bem dizer.

A roupa parecia roupa de corrida e caminhada. Mas dava para ir andar pela cidade por qualquer outro motivo do mesmo jeito. Não sei se eram casal. Não sei se voltavam da caminhada. Os dois vinham, cada um dentro de seus tênis e bermuda, olhando mais para a frente que pros lados, pros carros estacionados, que não tinham muito o que fazer que não fosse olhar pro sinal e pra eles. (Mas todos os motoristas deviam de estar olhando seus smartphones.)

Faz semanas que guardo essa imagem toda e nem sei por que. A menina tinha os cabelos escuros, presos em rabo de cavalo, sem ser magra nem não magra, sem ser linda e sem ser feia de se ver. Ele era por assim também. Não deviam ter menos de vinte, nem mais de vinte e cinco. E nesses meio-termos eles iam. Vinham. Passavam por nós. Ela contava uma história longa, desde o outro quarteirão, dava pra ver. Falava sem parar algo importante sem muita importância, algo interessante de se ouvir, ali, voltando da caminhada em plena Hermes da Fonseca. Ela estava concentrada em não errar o passo (talvez seja como eu, que tropeça se precisa conversar e andar ao mesmo tempo), em não esquecer a história, falava de um jeito meio sério. Tudo mais ou menos assim, mais ou menos por aí. Eles vindo.

E ele olhava para ela a todo instante. Eu tive medo de ele tropeçar e aí, sei lá, se fosse a primeira vez dos dois juntos, é possível que isso fosse desastre. Ele olhava para ela de instante a instante. Ela completava a história. Ele contemplava a menina. Ela falou algo menos sério, ele sorriu e riu, disse uma frase de efeito. E seguiu com ela adiante, andando para frente, olhando para o lado, para ela. Olhava mais para frente, e virava o rosto logo para vê-la. Eles trocaram os olhares algumas vezes. Ela sorriu um pouco. Ele sorria mais.

E essa imagem que se move, que parece dança, que foi um momento breve, agora penso nela e leio o que consegui escrever. E vejo a metáfora estancada dentro dela.

Eles seguiram. Meu sinal abriu. A história dela ainda ia ser terminada, assim como a caminhada dos dois e o sábado inteiro. Os motoristas se desfizeram momentaneamente dos seus smartphones para seguir com o sábado e a noite, dirigindo para frente, olhando para frente, nunca para os lados.

Eu guardo essas imagens de poucos minutos até agora.

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