domingo, 29 de junho de 2014

Eles e elas

Elas parecem mais apressadas, sempre mais apressadas. Vejo muitas vestidas como executivas, usando as roupas formais, o blaser e a saia lápis, a saia na altura dos joelhos, e nos pés: um par de tênis coloridos. Que é para irem mais rápido, para não doerem os pés, para as unhas não encravarem (pedicure aqui não é lá essas coisas). Não sei se quando chegam no trabalho, elas tiram um scarpin de dentro da bolsa (ou de dentro da gaveta do escritório, onde ele fica a semana inteira, deixando tudo mais prático). Ou se passam todo o dia de tênis, e não só durante as longas caminhadas.

Eles usam mais sapatos. Os ternos vão junto com os sapatos mesmo, não com tênis (mas convenhamos que sapatos masculinos são mais fáceis de serem confortáveis do que os femininos). Bolsas e pastas de couro, cabelos ruivos, barbas ruivas, olhos de cores claras mas fortes: não vejo verdes e azuis translúcidos, e sim bem fortes, bem verdes, ou bem azuis. Tudo isso fazendo um contraste bonito com a pele alva e os pêlos coloridos. O resultado é bonito, e emolduram homens que me parecem solitários. Como se estivessem sempre ruminando sobre a vida: enquanto andam, enquanto pedalam, e enquanto vão mais devagar do que elas, eu acho. Eu vejo.

Elas me parecem mais práticas. Vão com pressa, vão de tênis, param pouco no meio do caminho. Há mais homens sentados nos cafés do que mulheres; isso durante as manhãs e as tardes. Elas passam e passam, correm. Têm no rosto uma certa dureza, o olhar fixo, a expressão de quem pode não estar necessariamente pensando em nada, e sim apenas seguindo com pressa.

Eles carregam essa beleza natural e simples. A junção de cabelos ruivos com olhos de cores claras (mas fortes) resultam em rostos de beleza impactante. Mas não acho que eles se dêem conta disso, ou que se importem.

Elas carregam na maquiagem, infelizmente. E por trás das sobrancelhas muito finas e dos olhos com muita sombra escura eu consigo ver uma mulher naturalmente bonita. Principalmente as de pele clara e cabelos escuros, olhos verdes, narizes afilados. Não precisariam nem de blush para fazer bonito numa foto, mas escolheram os traços e as cores artificiais já para as primeiras horas da manhã.

Eles parecem pessoas silenciosas, das que podem passar despercebidas.

Elas parecem pessoas barulhentas nos gestos e nos atos, no abrir e fechar de portas, nos passos dados com firmeza. Como aquelas pessoas que sempre sabemos quando estão em casa: barulhentas em todos os toques, meio brutas, de voz alta.

Como se elas agissem com mais peso. Como se elas tivessem uma presença mais impactante por onde estão. E como se eles se apagassem um pouco, talvez diante de tudo isso. Eles parecem mais acuados, quase transparentes nas ruas, pedalando ou caminhando ao som dos próprios silêncios.

E eles e elas parecem realmente desencontrados, diferentes, estranhos uns aos outros. Como se o irlandês estivesse em um país (ou em um mundo) diferente do da irlandesa. Bem diferente.

Mas posso estar toda errada, isso sim. Isso tudo foi só o que meus olhos estrangeiros andam vendo, ou acham que andam vendo.

Desencontros são mais

Choque de cultura pode ser interessante, mais do que o encontro cultural. O desencontro pode ser mais interessante - pois falo do choque não em um sentido negativo, mas no sentido de ser abrupto.

Nos meus primeiros dias em Dublin, alguns estrangeiros me perguntavam com imensa curiosidade por que há tantos brasileiros em Dublin. O que fazemos tanto por aqui. Eu, diferente da maioria, vim passar umas semanas e estudar inglês. A maioria, até onde eu vejo, veio de mudança. Sem planos de voltar a morar no Brasil.

Daí eu tive de responder (à húngara, ao coreano e ao polonês) qual é o meu palpite. Não sei se está de todo certo, mas é como eu interpreto, e foi o que pude dizer no momento. O brasileiro tem buscado salários dignos e à altura de seu trabalho (o que, sinceramente, não acho que seja o que ocorra aqui em Dublin, mas vamos adiante). Também quer ter qualidade de vida: quer saber como é uma educação pública de qualidade, um transporte público que funcione. O brasileiro tem vontade de estar em um país onde pode não ter medo de ser assaltado, não ter medo de ser assassinado. Onde pode andar nas ruas tarde da noite e ter certeza de que vai chegar em casa bem (apenas bêbado). E seguir a vida dessa forma.

Meus interlocutores ficam mais tristes do que eu quando me ouvem falar isso. Estamos buscando mudar, mas não mudar o país, e sim mudar de país. O polonês complementou: pois é, os brasileiros que vem cá dizem que gostam daqui por Dublin ser um "safe place". Nesse momento o coreano arregalou os olhos e gritou um 'what' pro bar inteiro ouvir. Brasileiro é tudo maluco mesmo, ele pensou.

Na minha escola há muitos alunos venezuelanos, também. E o choque cultural também acontece. Eles falam com certa naturalidade do país de onde eles vêm, que, pra quem ouve, soa completamente atípico. O governo da Venezuela controla a quantidade de dinheiro que você pretende levar para o exterior. E não existem casas de câmbio, eles dizem. O governo também retém toda a moeda estrangeira em suas próprias mãos: e quem quiser sair do país, que compre o euro diretamente com o Estado. Nessa hora o aluno da Arábia Saudita teve de pedir para a colega repetir a história. E depois pediu de novo. Ele falou que achava que o país dele fosse uma ditadura. "Mas isso aí... nunca imaginei". Ele também não acreditava.

O professor perguntou se alguém na sala já tinha sido assaltado na vida. A brasileira contou de um assalto à própria casa que aconteceu há vinte anos atrás (como acontece hoje: o ladrão entra na casa enquanto a gente fecha o portão eletrônico, rende todo mundo, e... perdemos tudo, a vida continua). A francesa reagia assustadamente, como se ela narrasse um filme de terror em detalhes desnecessários. O professor tinha outra história de assalto pra contar: uma que outro aluno brasileiro tinha contado na sala de aula. A francesa e os coreanos tinham dificuldade de acreditar no que ouviam.

Os alunos Saudi Arabia que estão por aqui na verdade são famílias: as meninas vieram com seus maridos; os meninos vieram com suas mulheres. E é assim que chamo, porque eles têm a mesma idade que eu e meus amigos. E já constituíram seus casamentos e criam seus filhos pequenos; cozinham para a família toda a noite e se cobrem sob véus. Apesar do matrimônio, não usam alianças. Elas não podem tirar fotografias de si mesmas. E eu tenho dificuldade para memorizar seus rostos, apesar de ser apenas isso que vejo delas - não saber como são seus cabelos e seus corpos impedem que eu crie uma memória fotográfica dessas pessoas, e aí eu já me pergunto se há um preconceito tão arraigado assim em mim.

Por aqui, vejo muitos brasileiros ignorarem outros brasileiros. Um choque cultural que propaga certa indiferença, ou vice-versa. Não sei por que. Qualquer dia vou pensar um pouco mais sobre esse choque, esse desencontro cultural, totalmente atípicos.

O que tem de bom no pacote

Quando se anda pelas ruas, ninguém te vê, ninguém te nota, e necessariamente ninguém se importa com quem você é. Parece solidão, mas na prática significa liberdade. E, considerando a cidade de onde eu venho, não ser notado nem observado dos pés à cabeça (se demorando sobre a etiqueta da roupa e sobre a marca do carro), isso é a parte da frase de Clarice sobre "o que eu quero não tem nome". Liberdade é pouco.

As pessoas estão retomando os anos oitenta. Ou pararam nele. E por isso nas ruas e nos pubs a aura pode ser um pouco diferente: os coques no topo da cabeça, os cós das calças na altura do umbigo, com os tops curtos (porque 14ºC é um calor desgraçado pra eles), as plataformas exageradas. E não é um problema se você se veste como as pessoas de 2014. Ninguém se importa com o que você está vestido, já disse.

Todos os pubs são bons. Mesmo os que são ruins. Porque esse líquido precioso chamado cerveja está em todos eles, em todas as marcas e tipos, e tamanhos de copos. É só abrir uma "torneira" que já tem. Mesmo nos piores lugares tem das melhores cervejas, e essa frase para muitos soa como o paraíso ou a redenção depois da morte. É bem assim mesmo.

Não comi em nenhum lugar ruim até agora (incluindo tudo o que comprei no supermercado). Também nunca comi pouco. Minha mãe teria brigado comigo diversas vezes durante essa viagem, por ter deixado comida no prato em muitas refeições. Mas é difícil almoçar uma porção que serve três pessoas, mas que eles juram que é o menor prato da casa. E self-service eu não vi por aqui (muito provavelmente porque a maioria dos clientes irlandeses sairiam no prejuízo).

Os cafés pequenos são imensos e os grandes eu nunca tive coragem de pedir. Quando eu pedi um "americano", me serviram café preto dentro de uma sopeira. Em outro lugar, quando perguntei se tinha uma xícara pequena de café, ele disse que sim, claro que sim, que ia me trazer "the smallest one". Aí ele me trouxe café dentro de uma bacia. (Nessas horas eu peço em silêncio que os Irish, indo ao Brasil, não vão nos cafés das livrarias para pedir um "capuccino grande". Vai haver uma grande confusão nesse dia.)

Em dia de parada gay, todos os jovens estão na rua vestindo as cores do arco-íris. Mães e pais com seus filhos, também. E os pubs do centro hasteiam a bandeira do orgulho gay. A maior parte do público desse dia é hetero, me pareceu. E a cidade fica toda orgulhosa de ter essa festa, isso sim.

Tem mais coisa boa por aqui, é claro. Mas depois eu faço outra lista.
Estando em uma posição confortável agora. Criado-mudo, livro, computador, caderno e lápis, dias novos, tudo transitoriamente diferente. Por um tempo, só. Por um tempo. As palavras dentro da cabeça e bem ao alcance dos dedos, da folha em branco, dos desabafos escondidos. Cheia de desabafos escondidos, querendo ser escritos.

Precisando me escrever. Já tenho tudo ao alcance. Só falta o fôlego.

sábado, 21 de junho de 2014

Bom é estar em outro lugar

Tenho dificuldade de fazer o tipo turista. Tenho dificuldade de fazer muitas fotos, de ir a muitos lugares, de comer onde todos comem e de beber onde todos bebem. (Mas eu provei da Guiness no meu primeiro dia.) Tenho dificuldade de estar em um lugar assegurando-me o tempo todo de que estou por ali de passagem. Eu adoro de onde venho, adoro onde ainda vivo (apesar do tudo - os grandes problemas que temos), adoro a vida que venho levando. Mas adoro estar à parte de tudo isso, estar por fora, estar bem longe, e ter certeza de que os dias passam e que minha vida congela em um lugar, mas segue em outro.

Quando viajo, não quero ser turista. Quero ser eu do jeito que sou nno sempre: andando à esmo, dormindo bem, comendo muito, falando pouco, abrindo os olhos. Gosto de estar comigo mesma no lugar estranho, e de pensar em tudo que não seja eu nem minha vida lá por onde ficou. Olho tanto as pessoas e penso tanto no que elas podem estar pensando ou vivendo.

O que mais gosto de fazer em Dublin é andar de ônibus. Aqui, os ônibus tem dois andares, e lá de cima eu vejo ainda mais o que gosto de ver. Vejo as pessoas, os parques, os prédios. Vejo os cachorros tentando agachar pra fazer xixi e cocô no meio da rua. Vejo as crianças indo para a escola munidas de patinete e capacete. Penso que a vida escolar pode ficar cem por cento mais divertida se pudermos ir para a escola todos os dias de patinete. (Nossas calçadas precisam ficar melhores para que isso aconteça um dia.)

Quando ando pelas calçadas, sinto todo mundo apressado e urgente. Abrindo mão dos sapatos estilosos e colocando os tênis, que é pra ir mais rápido sem doer nos pés, que é pra ir com urgência e chegar logo no trabalho. Vislumbro uma multidão do outro lado da pista, passo por dentro dela, e também vou correndo, senão eu fico, senão o sinal não espera, senão o carro buzina, senão o ônibus de dois andares passa por cima de mim. Todos correm. Olho para alguns bem dentro dos seus olhos, olho para os seus cabelos e suas roupas, suas expressões de cansaço ou de vida corriqueira e quarta-feira igual às outras. Assim como faço na minha cidade e no meu país. Faço mesmo.

De lá de cima do ônibus, a velocidade do transporte me dá a sensação de que elas agora vão mais devagar. De que param nas filas dos cafés sem pressa, e saem tomando seus cappuccinos e americanos também sem pressa. Vão indo. E elas vão me passando a ideia de que o dia de sol é ótimo, de que o dia cinza faz parte, de que ambos são mais um dia de uma vida inteira na capital da Irlanda. E também vejo-as andando junto com seus pensamentos: esses vão no ritmo certo da caminhada, sem alvoroço. E, talvez enquanto andam, façam planos consigo mesmas: para hoje à noite, para o fim de semana, o verão, a vida inteira. Eu, quando ando, faço planos para a vida inteira. Ou para a noite.

Eu não tenho planos por aqui. Não faço planos para muito longe, porque esses ficaram na minha vida lá em Natal. É como se aqui eu não tivesse muito no que pensar; só olhar, observar, imaginar, e sentir o que me cerca. É como se aqui eu não fosse turista, ou pelo menos não fosse uma turista qualquer. Sou um passageiro que se deixa estar, e, principalmente, que se deixa levar.

Acho que fazer turismo não é bom. Bom mesmo é estar em outro lugar, subir no ônibus do fluxo, e se deixar levar. Pelo fluxo, pelo lugar. Se deixar levar.

sábado, 14 de junho de 2014

Primeiros dias na ilha

Depois de um pedido de casamento no meio de um quarto bagunçado, de um sábado com pubs e pints, de uma caminhada longa voltando do pub, a qual já te deixa sóbrio (então por isso é que se bebe tanto, pra que a caminhada da volta não ponha a perder todas as pints), a viagem começou. Ou a longa estadia.

No domingo a aventura consistia de andar de onde estamos morando (sem aspas mesmo) para onde vou estudar. Parando no meio do caminho pra beber no pub, claro, porque a caminhada leva mais de uma hora. No caminho de volta a gente parou pra beber no pub de novo, mas agora em outro.

No dia seguinte eu já teria aula, mas sem pubs pelo meio do caminho dessa vez - pelo menos na ida, é certo. Mas não conseguimos andar todo o caminho a tempo, e tivemos de pegar um táxi no meio dele. O táxi errou o caminho. E quase que eu não conseguia chegar a tempo no primeiro dia de aula.

No segundo dia a cena se repetiu, mas a taxista dessa vez acertou o caminho. Mulheres no volante, pois é. Dá tudo mais certo. No terceiro dia completamos o trecho inteiro a pé: eu nunca desmaiei na minha vida, mas acho que o princípio de um desmaio era mais ou menos o que eu sentia ali. Ou o princípio de uma morte lenta - mas nem tanto.

Na quarta-feira eu já tinha alcançado uma crise de garganta de fazer inveja a muitas que já tive, meu nariz alternava momentos escorrendo com momentos ardendo com momentos em que não existia e eu não respirava mais por ele. As noites têm durado pouco mais de seis horas, o que implica dormir apenas três ou quatro com alguma eficácia (e o restante do tempo você dorme com os olhos abertos, porque os olhos não fecham com toda essa claridade, meu Deus). Os dias alternavam dez minutos de mormaço com dez minutos de vento glacial, às vezes tirando uma onda com nossa cara e derrubando chuva gelada na nossa cabeça. Assim como também houve vezes com chuva, sol e vento, tudo ao mesmo tempo, nos conduzindo a crises de humores e de existência, também simultâneas.

No meu primeiro dia da escola, tinham me colocado em uma turma errada, e sofri um início de bullying quando entrei na sala (todos riram) e quando disse que era brasileira (riram ainda mais alto). Eu nunca sofri bullying na minha vida, mas acho que é assim que se começa. E desde então consegui fazer amizade com uma pessoa que não tinha conseguido fazer amizade nas últimas semanas: porque os brasileiros vivem juntos (e não têm aceitado demais brasileiros no grupo), os venezuelanos também, os árabes, e os coreanos, então. Pois é.

Os brasileiros em Dublin não gostam de brasileiros. Os irlandeses parecem estar de saco cheio dos brasileiros. E outras nacionalidades também parecem, mas não vou falar disso aqui para não me acusarem de ódio racial e injustiças de outras ordens.

Depois de cinco dias de ausência de nariz e garganta, e de lábios também (não os sinto desde segunda-feira), o clima continua o seu escárnio, e os dias acho que têm ficado ainda mais longos. Mas comecei a ir bem. Completei uma semana e, agora sim, parece que a viagem vai começar.

sábado, 7 de junho de 2014

Por que você está indo para Dublin?

As dezesseis horas de viagem ininterrupta seriam interrompidas por quatro imigrações. As recomendações são muitas para qualquer mulher jovem, sozinha, sem filhos, andando por aí tentando entrar na Europa. Tive de trazer uma bagagem de mão cheia de documentos mostrando que: apesar de jovem, sozinha, sem filhos, eu estou fazendo uma viagem de ida e volta (mesmo), e, pasmassem eles, eu tenho uma vida que me interessa lá no Brasil, e que por isso meu sonho não era vir de vez pra terra deles.

Em Portugal, eu só tive de mostrar que ainda ia pegar a conexão para a Irlanda e que não iria ficar por ali. "Você quer ir direto para o portão esperar seu avião ou quer passar para esse lado do aeroporto e fazer compras?". Eu disse que ia direto esperar o avião, claro, que quanto mais cedo eu chegasse no portão, mais cedo o avião ia chegar, e mais cedo eu ia chegar na Irlanda (uma hora da minha casa até São Gonçalo e mais sete horas de lá até Lisboa e eu já não aguentava mais viajar). Duas horas depois, eu entrava no segundo avião.

Quando cheguei em Londres, fui para a imigração para onde todos os passageiros iam, e levava comigo o formulário que preenchemos no vôo, onde tínhamos de dizer: qual o nosso endereço no Reino Unido e por quanto tempo iríamos ficar no Reino de dona Elisabete. Lá eu disse: "Olha, eu preenchi esse formulário, mas eu não vou ficar no Reino Unido. Eu daqui vou direto para a Irlanda." E ele: "Por que você está indo para Dublin?" Respondi que estava indo estudar umas semanas de inglês, e apresentei meus quatrocentos documentos informando tudo isso e mais da minha vida toda. "Então, você não vai ficar em Londres?". "Não". "Você não vai para Londres?! Para esse lado aqui, você segue para Londres, então você não vai mesmo ficar em Londres? Você vai para Dublin?!". Só consegui imaginar que ele era muito patriota ou que estava querendo me confundir ou que queria fazer amizade comigo, já que, diferente das expectativas associadas aos profissionais de imigração, ele era jovem e sorria, e parecia ter uma vida feliz. Eu disse que não queria nada com Londres não (e não quero mesmo), que foi só quando ele me disse que a minha imigração não era aquela, mas mas outra no guichê bem ali. Bom que eu tinha só uma hora e meia em Heatrow, que, pelos meus cálculos de olho nu de quem nunca soube fazer contas, é do tamanho de Natal, e eu já tinha corrido quilômetros do avião até ali.

No novo guichê: "olá, estou aqui com esse formulário, mas não vou ficar no Reino Unido; estou indo para Dublin". E novamente: "por que você está indo para Dublin?". Mas gente. Essa pergunta é muito boa. Comecei a pensar se não tem gente que diz "porque é meu sonho!!!". Porque, olha, no dia que eu chegar na Alemanha eu vou ter de dizer isso, já que a ordem nas imigrações é dizer a absoluta verdade, né não? E na Argentina vou fazer o mesmo: porque ir pra Ushuaia é meu sonho número dois, e, olha, não sei se tu já leu, mas o João Paulo Cuenca tem uma crônica sobre essa cidade, que... E também vou falar do livro do Galera. Ora. "Por que você está indo para Dublin?" e eu nem podia dizer que era por causa do livro do Pellizzari, quando nas primeiras páginas ele diz que Dublin é uma ótima cidade pra se deixar pra trás. Porque aí ia soar um pouco masoquista de minha parte.

Por que você está indo para Dublin? Porque eu adoro beber, moço. Juro. Por que você está indo para Dublin? Porque eu finjo que sou intelectual e vim conhecer a terra do James - mostrando aí que não é intelectual porra nenhuma, já que os íntimos o chamam de Joyce mesmo. Por que você está indo para Dublin? Eu não estou nem aí para Dublin, eu quero é pegar o ônibus até o Wicklow e ver o cenário do filme P.S. Eu Te amo. Por que você está indo para Dublin? Porque ouvi dizer que os músicos de rua são os melhores músicos do mundo e eu quero assisti-los tocar em troca de cinquenta cents. Não gosto de pagar couvert muito alto não.

Por que você está indo para Dublin, e eu respondi e mostrei que vinha estudar. Mas só os ingleses me soltaram essa pergunta cheia de respostas possíveis, me fazendo imaginar se realmente há quem diga coisas impensáveis, verdadeiras mas fora do óbvio. Um "why" suscita muitas coisas. Na cidade dos pubs, de Joyce, e dos (até agora) maravilhosos músicos de rua, a imigração só quis saber até quando eu ficava por aqui. E para onde eu iria depois da Irlanda. E terminou com um "tchau, obrigado" dito em melhor português que o de muito brasileiro.

Quando cheguei em Dublin, fui pedida em casamento.

Por que você está indo para Dublin? Vou ser um pouco mais feliz, moço. Obrigada.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Não consigo dizer

A escrita podia melhorar a gente ao longo dos anos. Dizem que melhora. No meu caso, onde eu devo estar fazendo alguma coisa (ou tudo) errada, o caminho vai ao contrário.

Nunca tive dificuldade de dizer o que penso, o que provavelmente foi a causa de metade dos meus problemas na infância e na adolescência (hoje). Só precisei frear os pensamentos de vez em quando, mas sempre soube dizer. O que sempre tive dificuldade em dizer era o que sentia, e talvez por isso passei a escrever tanto sobre isso o tempo inteiro, numa forma de antecipar um fim possível: o do um dia em que eu talvez consiga, espremendo e esgotando bem as palavras, dizer aquilo que quero.

Se eu tiver de dizer sentimentos pra alguém, eu não digo. E tenho uma ansiedade danada de dizer isso aos meus amigos. Acho que nunca disse ao meu melhor amigo a diferença que ele faz na minha vida, nem que já faz anos que considero-o irmão. Essas frescuras eu deixo passar. Tenho vergonha de me ouvir dizer e de ver a pessoa me ouvir dizer essas coisas.

Achei que eu podia usar as redes sociais pra ostentar a felicidade que determinadas pessoas me trazem, ou que têm me trazido ao longo dos anos (da vida). É o que muitos têm feito. (Mas também fazem de um jeito tão... Esse pensamento melhor frear.)

Acontece que por eu achar o sentimento um negócio difícil (quase impossível) de passar para as palavras, eu duvido em cem por cento dos casos que as palavras bem ditas estão dizendo os sentimentos reais. Muitas vezes eu acho que elas são só palavras. Bonitas e bem ditas, mas só palavras. Tenho dificuldade de acreditar nas palavras, simplesmente, mesmo porque eu venho sempre aqui nesse blog mentir à exaustão usando palavras. É, juro! E quando elas ficam por aí dizendo sentimentos e emoldurando fotos, eu freio os pensamentos que tenho na hora, depois penso em fazer o mesmo, e. Fica tudo por aí. Não vou adiante.

Não traduzo sentimento nenhum com palavra. Nunca consegui, e hoje vejo que isso me dá uma angústia danada. Há histórias (reais e ficcionais) que tenho tentado escrever há anos. Escrevo e reescrevo, escrevo várias versões, escrevo diferentes histórias  para uma mesma história. E o sentimento continua preso aqui dentro. É minha incapacidade crônica.

E aí que em dias de precisar fazer isso, e externar alguma coisa, eu não faço nada. Por exemplo, detesto telefonar e desejar "feliz aniversário", porque não sei se essas palavras dizem muita coisa além do de ser uma convenção social. Na verdade, eu queria ligar e dizer que eu não me importo com aniversário nenhum, e sim com os dias comuns que correm pelo ano e pela vida da gente, e que bom que essa pessoa tem estado comigo ao longo dos dias comuns, principalmente os comuns, os ruins, os que dão errado e os que eu não tenho nada a oferecer além da minha má companhia. É isso que eu tenho vontade de dizer em aniversários de pessoas que me são importantes. E não "saúde e paz", porque isso é completamente óbvio que eu desejo ao meu amigo. Genuinamente. Não preciso ficar dizendo.

Mas aí vou ter que repensar. E falar dos meus sentimentos de vez em quando, e telefonar e dizer palavras bonitas que, por mais que não traduzam o que sinto, pelo menos vão dar uma enfeitada e também uma noção de pertencimento social. Eu tô por fora. Tô bem à margem. Não consigo dizer exatamente o que sinto e por isso não tenho dito nada.

A não ser esse texto mal acabado e mal dito em tudo, que tentou falar que eu tenho pessoas importantes demais na minha vida, para as quais até hoje eu não consegui dizer metade do que sinto em relação a elas. E são só coisas boas. São só coisas boas.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Aeroporto de Natal

Estive ontem no novo aeroporto do estado, que fica em São Gonçalo, mas se chama "Aeroporto de Natal". Um passeio necessário à quem viajar em breve, e a quem tem parente e amigo morando por fora do estado - e que a partir de agora vão chegar pelo novo Aeroporto de Natal, que fica em São Gonçado.

Era manhã de domingo, e não tinha trânsito parado. Mas tinha trânsito. Tinha desorganização, tinha buraco, tinha ausência de acostamento, tinha ausência de ciclovia e muita bicicleta no caminho, tinha mais buracos, tinha pista sem nenhuma divisão entre as duas mãos, de quem vai na direita e de quem vai na esquerda - aliás, tendência absoluta na cidade de Natal, cidade que tem seu aeroporto em São Gonçalo.

Há placas novas dizendo para onde você deve ir se chegar ao aeroporto novo. Mas tenho certeza de que se eu tivesse ido sozinha teria errado o caminho na primeira vez. Um co-piloto parece ser necessário em caso de pessoas com dificuldade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo: desviar dos buracos, observar se tem pedestre querendo atravessar nas faixas de pedestre que há, a esmo, pelo caminho, e, principalmente, observar se tem pedestre querendo observar fora de faixas de pedestre (são muitos), desviar do carro da esquerda que invade a sua direita, ou o contrário, já que quase não existem faixas separando as duas mãos, e, além de tudo isso, ter de olhar para as placas e suas setas retas ou diagonais. Eu tenho um pouco de dificuldade de dirigir sob essas condições, mas acho que o restante do pessoal não terá.

No "real" acesso ao aeroporto, aquele que ainda não está pronto, que ainda está caótico, que ainda está esquisito e que pode vir a ter pouco movimento tarde da noite e altas madrugadas (horário comum de se ir e voltar de aeroportos), havia trechos onde o celular não tinha sinal. Nem meu Claro nem meu Tim. Mas pode ter sido um problema ocasional, vai ver.

Entre o suposto pedágio (que não é pedágio) e a área de estacionamento são dois quilômetros. Se tiver que ir deixar alguém na área de embarque, tem que subir ao patamar de cima, e enfiar o carro entre outros, como em muitos aeroportos vemos assim. Em dias de gente muita (quem sabe a Copa), esse percurso todo pode ser que nos faça ultrapassar os vinte minutos de tolerância né (aquele que justifica a guarita da entrada não ser um pedágio), pois, depois de o caminho de ida, de deixar o parente no embarque, tirar as malas, dar um abraço nele e chorar muito rápido, são mais dois quilômetros para chegar até o pedágio que não é pedágio e só então ir embora. Ou ter de pagar pra poder ir embora. Já que o tempo correu enquanto você chorava de saudade (devia ter chorado durante o caminho, mas não conseguiu porque tinha de dirigir prestando atenção ao estímulo e à ausência deles - impossível chorar uma saudade antecipada). Parece que o aeroporto perdeu um pouco o romantismo. Mas eu também sou exagerada. Então vamos.

Vamos de volta. O pedágio ontem estava liberado! E o caminho de volta foi caótico como a ida: trechos do acesso onde não pega o celular, e não se vê sinal de outra coisa senão estrada e "mato", que, por favor, não vamos imaginar aqui nenhum duplo sentido, a vida é linda no Rio Grande do Norte, e mais ainda no Aeroporto de Natal, que fica em São Gonçalo.

O caminho de volta pela Zona Norte é como o da ida, é como o conhecemos: caótico, desorganizado. E não quero dizer isso em tom de desgosto ou preconceito, querendo avisar que o outro aeroporto era melhor, porque, do "outro lado" da cidade as coisas estão melhores.

As coisas não estão melhores em nenhuma parte da cidade. Mas, se faço um leve esforço na memória, consigo ver que, ao longo dos anos, todas as vezes em que ando pela Zona Norte tenho a mesma sensação: de descaso absoluto, de caos que aumenta, de agonia e de desorganização, que são causa e consequência de uma região muito afetada pela má administração de tantos anos.

Durante a faculdade, estagiei em um bairro da Zona Norte, podendo lá ver que as dificuldades são tantas, e tão velhas, que não é possível nem ver de por onde dá pra começar. E isso a gente vê: no caminho da ida, na manhã do estágio, no caminho da volta. E enquanto passa o resto da semana pensando sobre os casos e as pessoas e suas vidas dentro de um lugar grande e (aparentemente) abandonado da cidade.

E eu sei que pode parecer um devaneio ingênuo e sem nenhuma importância. Mas durante a viagem de ida e volta a São Gonçalo, onde fica o Aeroporto de Natal, eu não conseguia pensar em outra coisa. Porque, sinceramente, não sei se interessa se "os acessos ao aeroporto" ficarão prontos e quando ficarão prontos. E se serão bonitos e bem iluminados. Ou se terão segurança. O governo fala do acesso ao aeroporto como se não existisse a principal via que nos leva até ele: a Zona Norte que a gente tem, e que, se eu não estiver errada pelo que vejo, está há muito tempo abandonada por demais. Não quero saber das novas estradas em São Gonçalo, levando ao Aeroporto de Natal. Penso se, antes delas, a João Medeiros Filho, a Tomaz Landim, a Bernardo Vieira, e todos aqueles bairros e conjuntos de casas ao redor, se esses serão "melhorados" de alguma forma, se receberão algum milhão ou milhões de reais investidos, se receberão algum tipo de acesso, por Deus.

Porque, quando entramos e saímos do Aeroporto de Natal, lá em São Gonçalo, o governo do Estado avisa: "o futuro chegou". E ficou por ali mesmo. No meu caminho de ida e de volta, me sinto estúpida em dizer, mas: eu não vi futuro nenhum.

Nos resta torcer?