sábado, 21 de junho de 2014

Bom é estar em outro lugar

Tenho dificuldade de fazer o tipo turista. Tenho dificuldade de fazer muitas fotos, de ir a muitos lugares, de comer onde todos comem e de beber onde todos bebem. (Mas eu provei da Guiness no meu primeiro dia.) Tenho dificuldade de estar em um lugar assegurando-me o tempo todo de que estou por ali de passagem. Eu adoro de onde venho, adoro onde ainda vivo (apesar do tudo - os grandes problemas que temos), adoro a vida que venho levando. Mas adoro estar à parte de tudo isso, estar por fora, estar bem longe, e ter certeza de que os dias passam e que minha vida congela em um lugar, mas segue em outro.

Quando viajo, não quero ser turista. Quero ser eu do jeito que sou nno sempre: andando à esmo, dormindo bem, comendo muito, falando pouco, abrindo os olhos. Gosto de estar comigo mesma no lugar estranho, e de pensar em tudo que não seja eu nem minha vida lá por onde ficou. Olho tanto as pessoas e penso tanto no que elas podem estar pensando ou vivendo.

O que mais gosto de fazer em Dublin é andar de ônibus. Aqui, os ônibus tem dois andares, e lá de cima eu vejo ainda mais o que gosto de ver. Vejo as pessoas, os parques, os prédios. Vejo os cachorros tentando agachar pra fazer xixi e cocô no meio da rua. Vejo as crianças indo para a escola munidas de patinete e capacete. Penso que a vida escolar pode ficar cem por cento mais divertida se pudermos ir para a escola todos os dias de patinete. (Nossas calçadas precisam ficar melhores para que isso aconteça um dia.)

Quando ando pelas calçadas, sinto todo mundo apressado e urgente. Abrindo mão dos sapatos estilosos e colocando os tênis, que é pra ir mais rápido sem doer nos pés, que é pra ir com urgência e chegar logo no trabalho. Vislumbro uma multidão do outro lado da pista, passo por dentro dela, e também vou correndo, senão eu fico, senão o sinal não espera, senão o carro buzina, senão o ônibus de dois andares passa por cima de mim. Todos correm. Olho para alguns bem dentro dos seus olhos, olho para os seus cabelos e suas roupas, suas expressões de cansaço ou de vida corriqueira e quarta-feira igual às outras. Assim como faço na minha cidade e no meu país. Faço mesmo.

De lá de cima do ônibus, a velocidade do transporte me dá a sensação de que elas agora vão mais devagar. De que param nas filas dos cafés sem pressa, e saem tomando seus cappuccinos e americanos também sem pressa. Vão indo. E elas vão me passando a ideia de que o dia de sol é ótimo, de que o dia cinza faz parte, de que ambos são mais um dia de uma vida inteira na capital da Irlanda. E também vejo-as andando junto com seus pensamentos: esses vão no ritmo certo da caminhada, sem alvoroço. E, talvez enquanto andam, façam planos consigo mesmas: para hoje à noite, para o fim de semana, o verão, a vida inteira. Eu, quando ando, faço planos para a vida inteira. Ou para a noite.

Eu não tenho planos por aqui. Não faço planos para muito longe, porque esses ficaram na minha vida lá em Natal. É como se aqui eu não tivesse muito no que pensar; só olhar, observar, imaginar, e sentir o que me cerca. É como se aqui eu não fosse turista, ou pelo menos não fosse uma turista qualquer. Sou um passageiro que se deixa estar, e, principalmente, que se deixa levar.

Acho que fazer turismo não é bom. Bom mesmo é estar em outro lugar, subir no ônibus do fluxo, e se deixar levar. Pelo fluxo, pelo lugar. Se deixar levar.

Um comentário:

Deyze Ferreira disse...

Lendo esse texto, percebi porque que nunca gostei de ser chamada de turista... Porque apesar de adorar ie aos lugares e tirar fotos, não é mecânico, é vivência pura, é deixar-se levar. Adorei, Bia!