domingo, 29 de junho de 2014

Desencontros são mais

Choque de cultura pode ser interessante, mais do que o encontro cultural. O desencontro pode ser mais interessante - pois falo do choque não em um sentido negativo, mas no sentido de ser abrupto.

Nos meus primeiros dias em Dublin, alguns estrangeiros me perguntavam com imensa curiosidade por que há tantos brasileiros em Dublin. O que fazemos tanto por aqui. Eu, diferente da maioria, vim passar umas semanas e estudar inglês. A maioria, até onde eu vejo, veio de mudança. Sem planos de voltar a morar no Brasil.

Daí eu tive de responder (à húngara, ao coreano e ao polonês) qual é o meu palpite. Não sei se está de todo certo, mas é como eu interpreto, e foi o que pude dizer no momento. O brasileiro tem buscado salários dignos e à altura de seu trabalho (o que, sinceramente, não acho que seja o que ocorra aqui em Dublin, mas vamos adiante). Também quer ter qualidade de vida: quer saber como é uma educação pública de qualidade, um transporte público que funcione. O brasileiro tem vontade de estar em um país onde pode não ter medo de ser assaltado, não ter medo de ser assassinado. Onde pode andar nas ruas tarde da noite e ter certeza de que vai chegar em casa bem (apenas bêbado). E seguir a vida dessa forma.

Meus interlocutores ficam mais tristes do que eu quando me ouvem falar isso. Estamos buscando mudar, mas não mudar o país, e sim mudar de país. O polonês complementou: pois é, os brasileiros que vem cá dizem que gostam daqui por Dublin ser um "safe place". Nesse momento o coreano arregalou os olhos e gritou um 'what' pro bar inteiro ouvir. Brasileiro é tudo maluco mesmo, ele pensou.

Na minha escola há muitos alunos venezuelanos, também. E o choque cultural também acontece. Eles falam com certa naturalidade do país de onde eles vêm, que, pra quem ouve, soa completamente atípico. O governo da Venezuela controla a quantidade de dinheiro que você pretende levar para o exterior. E não existem casas de câmbio, eles dizem. O governo também retém toda a moeda estrangeira em suas próprias mãos: e quem quiser sair do país, que compre o euro diretamente com o Estado. Nessa hora o aluno da Arábia Saudita teve de pedir para a colega repetir a história. E depois pediu de novo. Ele falou que achava que o país dele fosse uma ditadura. "Mas isso aí... nunca imaginei". Ele também não acreditava.

O professor perguntou se alguém na sala já tinha sido assaltado na vida. A brasileira contou de um assalto à própria casa que aconteceu há vinte anos atrás (como acontece hoje: o ladrão entra na casa enquanto a gente fecha o portão eletrônico, rende todo mundo, e... perdemos tudo, a vida continua). A francesa reagia assustadamente, como se ela narrasse um filme de terror em detalhes desnecessários. O professor tinha outra história de assalto pra contar: uma que outro aluno brasileiro tinha contado na sala de aula. A francesa e os coreanos tinham dificuldade de acreditar no que ouviam.

Os alunos Saudi Arabia que estão por aqui na verdade são famílias: as meninas vieram com seus maridos; os meninos vieram com suas mulheres. E é assim que chamo, porque eles têm a mesma idade que eu e meus amigos. E já constituíram seus casamentos e criam seus filhos pequenos; cozinham para a família toda a noite e se cobrem sob véus. Apesar do matrimônio, não usam alianças. Elas não podem tirar fotografias de si mesmas. E eu tenho dificuldade para memorizar seus rostos, apesar de ser apenas isso que vejo delas - não saber como são seus cabelos e seus corpos impedem que eu crie uma memória fotográfica dessas pessoas, e aí eu já me pergunto se há um preconceito tão arraigado assim em mim.

Por aqui, vejo muitos brasileiros ignorarem outros brasileiros. Um choque cultural que propaga certa indiferença, ou vice-versa. Não sei por que. Qualquer dia vou pensar um pouco mais sobre esse choque, esse desencontro cultural, totalmente atípicos.

Um comentário:

Deyze Ferreira disse...

Eu me impressionei ao ler e perceber que me acostumei (odeio me acostumar) com essa rotina. Desacostumando mode ON!