domingo, 29 de junho de 2014

Eles e elas

Elas parecem mais apressadas, sempre mais apressadas. Vejo muitas vestidas como executivas, usando as roupas formais, o blaser e a saia lápis, a saia na altura dos joelhos, e nos pés: um par de tênis coloridos. Que é para irem mais rápido, para não doerem os pés, para as unhas não encravarem (pedicure aqui não é lá essas coisas). Não sei se quando chegam no trabalho, elas tiram um scarpin de dentro da bolsa (ou de dentro da gaveta do escritório, onde ele fica a semana inteira, deixando tudo mais prático). Ou se passam todo o dia de tênis, e não só durante as longas caminhadas.

Eles usam mais sapatos. Os ternos vão junto com os sapatos mesmo, não com tênis (mas convenhamos que sapatos masculinos são mais fáceis de serem confortáveis do que os femininos). Bolsas e pastas de couro, cabelos ruivos, barbas ruivas, olhos de cores claras mas fortes: não vejo verdes e azuis translúcidos, e sim bem fortes, bem verdes, ou bem azuis. Tudo isso fazendo um contraste bonito com a pele alva e os pêlos coloridos. O resultado é bonito, e emolduram homens que me parecem solitários. Como se estivessem sempre ruminando sobre a vida: enquanto andam, enquanto pedalam, e enquanto vão mais devagar do que elas, eu acho. Eu vejo.

Elas me parecem mais práticas. Vão com pressa, vão de tênis, param pouco no meio do caminho. Há mais homens sentados nos cafés do que mulheres; isso durante as manhãs e as tardes. Elas passam e passam, correm. Têm no rosto uma certa dureza, o olhar fixo, a expressão de quem pode não estar necessariamente pensando em nada, e sim apenas seguindo com pressa.

Eles carregam essa beleza natural e simples. A junção de cabelos ruivos com olhos de cores claras (mas fortes) resultam em rostos de beleza impactante. Mas não acho que eles se dêem conta disso, ou que se importem.

Elas carregam na maquiagem, infelizmente. E por trás das sobrancelhas muito finas e dos olhos com muita sombra escura eu consigo ver uma mulher naturalmente bonita. Principalmente as de pele clara e cabelos escuros, olhos verdes, narizes afilados. Não precisariam nem de blush para fazer bonito numa foto, mas escolheram os traços e as cores artificiais já para as primeiras horas da manhã.

Eles parecem pessoas silenciosas, das que podem passar despercebidas.

Elas parecem pessoas barulhentas nos gestos e nos atos, no abrir e fechar de portas, nos passos dados com firmeza. Como aquelas pessoas que sempre sabemos quando estão em casa: barulhentas em todos os toques, meio brutas, de voz alta.

Como se elas agissem com mais peso. Como se elas tivessem uma presença mais impactante por onde estão. E como se eles se apagassem um pouco, talvez diante de tudo isso. Eles parecem mais acuados, quase transparentes nas ruas, pedalando ou caminhando ao som dos próprios silêncios.

E eles e elas parecem realmente desencontrados, diferentes, estranhos uns aos outros. Como se o irlandês estivesse em um país (ou em um mundo) diferente do da irlandesa. Bem diferente.

Mas posso estar toda errada, isso sim. Isso tudo foi só o que meus olhos estrangeiros andam vendo, ou acham que andam vendo.

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