terça-feira, 3 de junho de 2014

Não consigo dizer

A escrita podia melhorar a gente ao longo dos anos. Dizem que melhora. No meu caso, onde eu devo estar fazendo alguma coisa (ou tudo) errada, o caminho vai ao contrário.

Nunca tive dificuldade de dizer o que penso, o que provavelmente foi a causa de metade dos meus problemas na infância e na adolescência (hoje). Só precisei frear os pensamentos de vez em quando, mas sempre soube dizer. O que sempre tive dificuldade em dizer era o que sentia, e talvez por isso passei a escrever tanto sobre isso o tempo inteiro, numa forma de antecipar um fim possível: o do um dia em que eu talvez consiga, espremendo e esgotando bem as palavras, dizer aquilo que quero.

Se eu tiver de dizer sentimentos pra alguém, eu não digo. E tenho uma ansiedade danada de dizer isso aos meus amigos. Acho que nunca disse ao meu melhor amigo a diferença que ele faz na minha vida, nem que já faz anos que considero-o irmão. Essas frescuras eu deixo passar. Tenho vergonha de me ouvir dizer e de ver a pessoa me ouvir dizer essas coisas.

Achei que eu podia usar as redes sociais pra ostentar a felicidade que determinadas pessoas me trazem, ou que têm me trazido ao longo dos anos (da vida). É o que muitos têm feito. (Mas também fazem de um jeito tão... Esse pensamento melhor frear.)

Acontece que por eu achar o sentimento um negócio difícil (quase impossível) de passar para as palavras, eu duvido em cem por cento dos casos que as palavras bem ditas estão dizendo os sentimentos reais. Muitas vezes eu acho que elas são só palavras. Bonitas e bem ditas, mas só palavras. Tenho dificuldade de acreditar nas palavras, simplesmente, mesmo porque eu venho sempre aqui nesse blog mentir à exaustão usando palavras. É, juro! E quando elas ficam por aí dizendo sentimentos e emoldurando fotos, eu freio os pensamentos que tenho na hora, depois penso em fazer o mesmo, e. Fica tudo por aí. Não vou adiante.

Não traduzo sentimento nenhum com palavra. Nunca consegui, e hoje vejo que isso me dá uma angústia danada. Há histórias (reais e ficcionais) que tenho tentado escrever há anos. Escrevo e reescrevo, escrevo várias versões, escrevo diferentes histórias  para uma mesma história. E o sentimento continua preso aqui dentro. É minha incapacidade crônica.

E aí que em dias de precisar fazer isso, e externar alguma coisa, eu não faço nada. Por exemplo, detesto telefonar e desejar "feliz aniversário", porque não sei se essas palavras dizem muita coisa além do de ser uma convenção social. Na verdade, eu queria ligar e dizer que eu não me importo com aniversário nenhum, e sim com os dias comuns que correm pelo ano e pela vida da gente, e que bom que essa pessoa tem estado comigo ao longo dos dias comuns, principalmente os comuns, os ruins, os que dão errado e os que eu não tenho nada a oferecer além da minha má companhia. É isso que eu tenho vontade de dizer em aniversários de pessoas que me são importantes. E não "saúde e paz", porque isso é completamente óbvio que eu desejo ao meu amigo. Genuinamente. Não preciso ficar dizendo.

Mas aí vou ter que repensar. E falar dos meus sentimentos de vez em quando, e telefonar e dizer palavras bonitas que, por mais que não traduzam o que sinto, pelo menos vão dar uma enfeitada e também uma noção de pertencimento social. Eu tô por fora. Tô bem à margem. Não consigo dizer exatamente o que sinto e por isso não tenho dito nada.

A não ser esse texto mal acabado e mal dito em tudo, que tentou falar que eu tenho pessoas importantes demais na minha vida, para as quais até hoje eu não consegui dizer metade do que sinto em relação a elas. E são só coisas boas. São só coisas boas.

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