sábado, 7 de junho de 2014

Por que você está indo para Dublin?

As dezesseis horas de viagem ininterrupta seriam interrompidas por quatro imigrações. As recomendações são muitas para qualquer mulher jovem, sozinha, sem filhos, andando por aí tentando entrar na Europa. Tive de trazer uma bagagem de mão cheia de documentos mostrando que: apesar de jovem, sozinha, sem filhos, eu estou fazendo uma viagem de ida e volta (mesmo), e, pasmassem eles, eu tenho uma vida que me interessa lá no Brasil, e que por isso meu sonho não era vir de vez pra terra deles.

Em Portugal, eu só tive de mostrar que ainda ia pegar a conexão para a Irlanda e que não iria ficar por ali. "Você quer ir direto para o portão esperar seu avião ou quer passar para esse lado do aeroporto e fazer compras?". Eu disse que ia direto esperar o avião, claro, que quanto mais cedo eu chegasse no portão, mais cedo o avião ia chegar, e mais cedo eu ia chegar na Irlanda (uma hora da minha casa até São Gonçalo e mais sete horas de lá até Lisboa e eu já não aguentava mais viajar). Duas horas depois, eu entrava no segundo avião.

Quando cheguei em Londres, fui para a imigração para onde todos os passageiros iam, e levava comigo o formulário que preenchemos no vôo, onde tínhamos de dizer: qual o nosso endereço no Reino Unido e por quanto tempo iríamos ficar no Reino de dona Elisabete. Lá eu disse: "Olha, eu preenchi esse formulário, mas eu não vou ficar no Reino Unido. Eu daqui vou direto para a Irlanda." E ele: "Por que você está indo para Dublin?" Respondi que estava indo estudar umas semanas de inglês, e apresentei meus quatrocentos documentos informando tudo isso e mais da minha vida toda. "Então, você não vai ficar em Londres?". "Não". "Você não vai para Londres?! Para esse lado aqui, você segue para Londres, então você não vai mesmo ficar em Londres? Você vai para Dublin?!". Só consegui imaginar que ele era muito patriota ou que estava querendo me confundir ou que queria fazer amizade comigo, já que, diferente das expectativas associadas aos profissionais de imigração, ele era jovem e sorria, e parecia ter uma vida feliz. Eu disse que não queria nada com Londres não (e não quero mesmo), que foi só quando ele me disse que a minha imigração não era aquela, mas mas outra no guichê bem ali. Bom que eu tinha só uma hora e meia em Heatrow, que, pelos meus cálculos de olho nu de quem nunca soube fazer contas, é do tamanho de Natal, e eu já tinha corrido quilômetros do avião até ali.

No novo guichê: "olá, estou aqui com esse formulário, mas não vou ficar no Reino Unido; estou indo para Dublin". E novamente: "por que você está indo para Dublin?". Mas gente. Essa pergunta é muito boa. Comecei a pensar se não tem gente que diz "porque é meu sonho!!!". Porque, olha, no dia que eu chegar na Alemanha eu vou ter de dizer isso, já que a ordem nas imigrações é dizer a absoluta verdade, né não? E na Argentina vou fazer o mesmo: porque ir pra Ushuaia é meu sonho número dois, e, olha, não sei se tu já leu, mas o João Paulo Cuenca tem uma crônica sobre essa cidade, que... E também vou falar do livro do Galera. Ora. "Por que você está indo para Dublin?" e eu nem podia dizer que era por causa do livro do Pellizzari, quando nas primeiras páginas ele diz que Dublin é uma ótima cidade pra se deixar pra trás. Porque aí ia soar um pouco masoquista de minha parte.

Por que você está indo para Dublin? Porque eu adoro beber, moço. Juro. Por que você está indo para Dublin? Porque eu finjo que sou intelectual e vim conhecer a terra do James - mostrando aí que não é intelectual porra nenhuma, já que os íntimos o chamam de Joyce mesmo. Por que você está indo para Dublin? Eu não estou nem aí para Dublin, eu quero é pegar o ônibus até o Wicklow e ver o cenário do filme P.S. Eu Te amo. Por que você está indo para Dublin? Porque ouvi dizer que os músicos de rua são os melhores músicos do mundo e eu quero assisti-los tocar em troca de cinquenta cents. Não gosto de pagar couvert muito alto não.

Por que você está indo para Dublin, e eu respondi e mostrei que vinha estudar. Mas só os ingleses me soltaram essa pergunta cheia de respostas possíveis, me fazendo imaginar se realmente há quem diga coisas impensáveis, verdadeiras mas fora do óbvio. Um "why" suscita muitas coisas. Na cidade dos pubs, de Joyce, e dos (até agora) maravilhosos músicos de rua, a imigração só quis saber até quando eu ficava por aqui. E para onde eu iria depois da Irlanda. E terminou com um "tchau, obrigado" dito em melhor português que o de muito brasileiro.

Quando cheguei em Dublin, fui pedida em casamento.

Por que você está indo para Dublin? Vou ser um pouco mais feliz, moço. Obrigada.

Um comentário:

Deyze Ferreira disse...

PQP!
Se não fosse esse final apoteótico, inspirador e encorajador, eu ia desistir de fazer qualquer viajem Internacional.
Que feliz!!! Magão ahazou!