sábado, 14 de junho de 2014

Primeiros dias na ilha

Depois de um pedido de casamento no meio de um quarto bagunçado, de um sábado com pubs e pints, de uma caminhada longa voltando do pub, a qual já te deixa sóbrio (então por isso é que se bebe tanto, pra que a caminhada da volta não ponha a perder todas as pints), a viagem começou. Ou a longa estadia.

No domingo a aventura consistia de andar de onde estamos morando (sem aspas mesmo) para onde vou estudar. Parando no meio do caminho pra beber no pub, claro, porque a caminhada leva mais de uma hora. No caminho de volta a gente parou pra beber no pub de novo, mas agora em outro.

No dia seguinte eu já teria aula, mas sem pubs pelo meio do caminho dessa vez - pelo menos na ida, é certo. Mas não conseguimos andar todo o caminho a tempo, e tivemos de pegar um táxi no meio dele. O táxi errou o caminho. E quase que eu não conseguia chegar a tempo no primeiro dia de aula.

No segundo dia a cena se repetiu, mas a taxista dessa vez acertou o caminho. Mulheres no volante, pois é. Dá tudo mais certo. No terceiro dia completamos o trecho inteiro a pé: eu nunca desmaiei na minha vida, mas acho que o princípio de um desmaio era mais ou menos o que eu sentia ali. Ou o princípio de uma morte lenta - mas nem tanto.

Na quarta-feira eu já tinha alcançado uma crise de garganta de fazer inveja a muitas que já tive, meu nariz alternava momentos escorrendo com momentos ardendo com momentos em que não existia e eu não respirava mais por ele. As noites têm durado pouco mais de seis horas, o que implica dormir apenas três ou quatro com alguma eficácia (e o restante do tempo você dorme com os olhos abertos, porque os olhos não fecham com toda essa claridade, meu Deus). Os dias alternavam dez minutos de mormaço com dez minutos de vento glacial, às vezes tirando uma onda com nossa cara e derrubando chuva gelada na nossa cabeça. Assim como também houve vezes com chuva, sol e vento, tudo ao mesmo tempo, nos conduzindo a crises de humores e de existência, também simultâneas.

No meu primeiro dia da escola, tinham me colocado em uma turma errada, e sofri um início de bullying quando entrei na sala (todos riram) e quando disse que era brasileira (riram ainda mais alto). Eu nunca sofri bullying na minha vida, mas acho que é assim que se começa. E desde então consegui fazer amizade com uma pessoa que não tinha conseguido fazer amizade nas últimas semanas: porque os brasileiros vivem juntos (e não têm aceitado demais brasileiros no grupo), os venezuelanos também, os árabes, e os coreanos, então. Pois é.

Os brasileiros em Dublin não gostam de brasileiros. Os irlandeses parecem estar de saco cheio dos brasileiros. E outras nacionalidades também parecem, mas não vou falar disso aqui para não me acusarem de ódio racial e injustiças de outras ordens.

Depois de cinco dias de ausência de nariz e garganta, e de lábios também (não os sinto desde segunda-feira), o clima continua o seu escárnio, e os dias acho que têm ficado ainda mais longos. Mas comecei a ir bem. Completei uma semana e, agora sim, parece que a viagem vai começar.

Um comentário:

Deyze Ferreira disse...

Vai ter que fazer um post sobre essa relação dos brasileiros e dos irlandeses, ou dos outros tantos estrangeiros por aí. Fiquei curiosa.