segunda-feira, 28 de julho de 2014

Falsa memória

Dizem que, na época da escola, eu assistia aula às 7h15 da manhã. Às 7h10 tocava para que a gente entrasse na sala (o que significa que, antes das 7h, a maior parte de nós já estava no colégio, escorados nas muretas dos corredores, falando sobre qualquer coisa de muito importante - à época, esperando a música do toque). Entre 7h10 e 7h15, a gente assistia à oração e rezava. Às 7h15, o professor começava a nos ensinar alguma coisa de útil para a vida (ou para o vestibular).

Eu não sei quem inventou tudo isso. Depois de cinco anos de uma graduação vespertina (com trabalhos acadêmicos feitos na madrugada, é evidente), entrei em uma nova, no turno Matutino. Eu ia colocar para a noite, é verdade, mas perdi a inscrição do Enem, e, naquele ano, era só via Enem que tu poderia ser da turma noturna de Letras. Me restou o vestibular e as primeiras horas da manhã.

Nenhum problema. Eu gosto de estar na universidade durante o dia. Gosto de acordar cedo, estudar cedo, trabalhar logo cedo também. Mas por cedo, é claro: não significa de madrugada, não significa sete horas da manhã.

Lá estou eu com o comprovante de matrícula: leitura e produção de texto argumentativo (que, na época do colégio, significava aula de redação, ou seja, aula boa), primeiro horário de manhã. É preciso que eu esteja na universidade às sete horas. Da madrugada.

Eu sabia que não conseguiria. Falhei na primeira semana: faltei. Nova falha hoje: cheguei com quase uma hora de atraso. E cheguei e fiquei assustada: eram 7h50 e diversos seres humanos já estavam não só acordados, como também produtivos. Todo mundo estava na sala, com a maior naturalidade de quem havia acordado há horas, tomado café em mesa farta (não só deu tempo de tomar café, como também de prepara-lo), dirigido com os olhos bem abertos e um sorriso no rosto. Eu não quis nem sondar se, dentre aquelas pessoas (?), também havia daqueles que fazem exercícios antes de ir para a aula ou para o trabalho. Porque essas pessoas não existem. Elas não podem existir.

E fiquei lá por toda a manhã: tentando abrir os olhos, assistindo à aula que, por melhor que fosse (afinal, eu faço Letras), não conseguiria me fazer sorrir naquela hora. Nem ser produtiva. Nem fazer exercícios antes dela. (Nem depois, porque é claro que adormeci assim que cheguei em casa.) Também fiquei me perguntando se algum dia na vida eu seria como aquelas pessoas: maduras, responsáveis, produtivas, matutinas. Adultas. Parece que eu já fui assim, na época do colégio, mas eu duvido. Hoje descobri que essas aulas de Matemática e Química às 7h15 são memórias falsas, delírios preocupantes, inclusive. Falei com alguns amigos e eles compartilham da mesma inquietação, da mesma dúvida, do mesmo sono.

E paro aqui. Daqui a pouco serão nove da noite: vai ser hora de começar a trabalhar.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Viva o nosso brasileiro

Quando ouvi falar de João Ubaldo pela primeira vez, eu era criança. Quando vi João Ubaldo pela primeira vez, eu tinha uns dezenove anos, e ele tinha vindo a Natal para um evento de escritores. Quando o vi pela segunda vez, eu tinha vinte anos; foi em uma edição da Flipipa. Viva os festivais literários. E viva meus pais, que, por terem o privilégio de serem amigos dele, me deram o privilégio de conhecê-lo e de vê-lo falar. E de ouvi-lo falar.

E ouvi-lo falar é do que mais guardo comigo. Por causa da voz poderosa e memorável, do timbre grave de dar medo e de não esquecer. De nunca esquecer. É possível evocar o som da voz dele a qualquer momento: e, em se tratando de um escritor, isso é muito singular, e tem efeitos incomparáveis. Porque podemos lê-lo e ouvi-lo ao mesmo tempo. Lê-lo e vê-lo falar, e bater um papo, e ficar de conversa com o escritor, que conta aquela história só pra você, que é pra fazer com que você, além de ler, possa ouvi-la também. A gente ouve a voz dele dentro dos nossos ouvidos enquanto o lemos. Por isso mais vivas aos festivais literários. Mais vivas aos meus pais.

Eu guardava alguns livros na estante para autógrafos futuros. Era para eu ter levado a penca de livros para o restaurante aquele dia, aquele primeiro encontro. Marcaria o inconveniente mesmo. Ao invés da sobremesa, haveria os autógrafos. Meus pais ficariam com vergonha, e eu ficaria cheia de autógrafos, mesmo antes de ter lido aqueles livros.

Vou ter de lê-los sem dedicatórias. Mas lerei ouvindo a voz, ouvindo o timbre. E os livros serão mais meus por causa disso; serão mais especiais. Viva o meu privilégio, viva os festivais literários, que trazem as vozes dos livros para perto da gente. Viva o nosso grande escritor brasileiro, e nossa sorte de o termos tido. E de o termos sempre. Porque, ainda bem que o mundo pode ser justo: escritores são imortais. E João Ubaldo já é eterno faz tempo.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Nessa viagem

Brinquei demais com a solidão. Ouvi silêncios ensurdecedores. Ouvi silêncios pesados. Senti pesar. Senti medo. Chorei de medo. Chorei de raiva. Chorei assustada com algumas pessoas com quem tive de trombar pelo caminho. Falei inglês. Tentei falar alemão. Escrevi longos e-mails. Troquei e-mails com meu pai. Lembrei do meu avô. Pensei muito no meu futuro. Comi demais. Senti muita fome. Senti fome por muitas horas. Senti vergonha de mim. Tive vergonha de falar, de pedir, e de chorar em público. Senti foi saudade. Senti o peso da ausência das coisas normais. As coisas triviais é que fazem falta. Bebi pouco. Deveria ter bebido mais. Mas não quis passar mal no outro dia. Passei mal de dor de dente. Fui a um dentista que falava mais rápido que o narrador da Rádio Globo. Fui ignorada por brasileiros. Fui acolhida por estrangeiros. Almocei ao ar livre, sentindo o sol e o frio ao mesmo tempo. Senti frio nas madrugadas. Senti dor nas costas e nos ossos das costas de tanto frio que tive. Fiquei pasma com a indiferença dos estrangeiros. Fiquei pasma com a arrogância de outros estrangeiros. Fiquei pasma com a hostilidade de tantos brasileiros. E de tantos estrangeiros também. Tive de ouvir que "sou do Norte", e tive de explicar a alguns estrangeiros que Norte e Nordeste são regiões bem diferentes (e muito massa) do Brasil. Falei sobre coxinha, cuscuz e tapioca sem tradução. E senti o gosto dessas coisas sem tradução nem explicação. O gosto. Estive em um pub com música latina rodeada por venezuelanos. Que dançavam. E dançavam. Não andei de bonde nem de trem. Andei de ônibus por oito horas acompanhando o sol, sem perdê-lo de vista no norte da Escandinávia - eu ia rumo ao nordeste, eita, desculpa. Confusões acontecem. Eu me perdi. Eu me senti perdida. Eu desisti de voltar pra terapia. Eu engordei. Eu me senti sozinha. Eu me arrependi de não ter estudado mais inglês quando pude, anos atrás. Eu prometi que vou me dedicar ao alemão, que se arrepender duas vezes da mesma coisa é um negócio feio. Eu pensei que talvez eu devesse voltar para a terapia. Eu quero viajar de novo. Eu quero viajar demais. Eu quero voltar pra casa. Nessa viagem, eu quis voltar pra casa. Várias vezes. Eu vi uma natureza exuberante, e tive aquela sensação de bem estar só em estar ali, de frente para uma paisagem incrível. Vi lagos e rios, vi o mar (um mar esquisito, uma praia sem graça). Aterrissei de avião assistindo a outras paisagens de tirar o fôlego. Sentei na grama do parque enquanto era sol. Tomei muito café quando fazia frio. Repeti que minha cidade é que é massa, é que tem calor, é que tem verão. "Você não sabe o que é verão", tive de responder ao meu professor irlandês, feliz com os dezenove graus celsius - e resumindo-os a verão. Sofri com insônias. Sofri com sono em excesso. Tive preguiça de ir ver a vida lá fora - a realidade me cansa. Tive dias longos, e ainda tenho-os tido. Fiquei noiva. Acho que li pouco. Tenho certeza de que escrevi de menos. E(s)tá acabando.

O que vai na bagagem

Foi o que aprendi nos meus primeiros dias longe de casa. O que significa que os primeiros dias valeriam a pena por si só, valeriam a viagem.

É difícil explicar de um modo lógico, e ainda mais difícil explicar de um jeito que não seja piegas. Mas fica fácil se eu falar de forma direta e sem vergonha (sentido literal, não figurado). O exterior não é melhor do que o nosso país, nem nunca vai ser. O exterior tem suas vantagens, mas não é um lugar melhor que o Brasil, nem nunca vai ser. (Espero que meus três leitores estejam sempre cientes de que isso é só um post qualquer de um blog qualquer, e não a redação de um artigo de opinião: porque eu não acho que vou conseguir argumentar à altura. Nem defender meu ponto de vista logicamente. Uma vergonha.)

Vergonha foi o que senti nos primeiros dias. De ter falado mal da gente, de ter tido vontade de fugir, de ter imaginado que era só dar um pulo do outro lado do oceano para sentir um mundo melhor. Me arrependi e me envergonhei de tudo isso. E isso aconteceu por causa de confrontos dúbios com os quais tive de lidar: tapas na cara bons e ruins.

O tapa na cara bom: é o brasileiro falando bem de Natal, com orgulho e satisfação de ter pisado lá, e com orgulho e satisfação de conhecer alguém com esse sotaque distinto (em todos os sentidos). Outro tapa na cara bom: o brasileiro que fala bem de onde vem, e afirma que, sim, ama o lugar onde vive, apesar de todos os problemas. "Apesar de todos os problemas": o que indubitavelmente nos diz o quão bom é o lugar de onde viemos. Tem mais tapa na cara bom: o estrangeiro que nos admira, única e exclusivamente por sermos... brasileiros. O tapa na cara bom é aquele que nos acorda no susto, mas logo dá uma notícia boa. A gente abre os olhos, ouve a notícia, e sorri (envergonhado).

Tapa na cara ruim que me deram: estrangeiro com preconceito contra brasileiro; brasileiro com preconceito contra nordestino (e eu achava que isso era História). Mais: estrangeiro hostil, estrangeiro frio, professor gelado. E a certeza convicta de que você não importa para ninguém - quando você não está no seu país. Tapas na cara óbvios que os depoimentos omitem: mendigos, miséria, drogas, muitas drogas, furtos e roubos, impostos altos, especulação imobiliária, população descontente com governo, população de mãos atadas, a política também sendo um (grande) problema. E mais.

Fiquei com vergonha de mim mesma nos primeiros dias. Mas me recuperei logo do susto: e meu orgulho surgiu rápido, surgiu maior, e passou a ser como o de outros brasileiros que estão por aqui - e como o de nenhuma outra nacionalidade que eu conheci até agora.

Não existe país como o nosso. Não só porque "é nosso", e sim porque é Brasil, eu chuto. Eu aposto. Nos lugares fora do Brasil onde já estive (são poucos), não me senti bem vinda em nenhum deles. E, por vezes, sujeitos fizeram questão de deixar isso bem claro (crianças irlandesas nos atiraram bexigas d'água enquanto voltávamos para casa - e os pais delas assistiam à tudo com naturalidade). No meu país: todo mundo é bem vindo, todo mundo faz parte ou pode fazer parte dele*. Porque a gente gosta de gente, e gosta de receber, de sorrir, de olhar nos olhos, de ser passional (e por isso eu não culpo os fanáticos do futebol - os fanáticos saudáveis). Vou forçar a barra: a gente é mais humano, em certa medida. (Eu avisei.) E é por isso que os bons tapas na cara vieram: porque há pessoas lá fora que reconhecem isso, e que ficam felizes de nos terem por perto, de verdade.

E esse parágrafo aí soa mentiroso e romântico em excesso, porque, é claro, temos deixado tudo isso ir embora, e a troco de nada. Temos olhado menos para os outros: os outros que somos nós. Temos amado menos o país e a cidade, e o estado da gente. É claro que sim. Tá difícil cuidar do Brasil, a gente sabe, mas fica mais difícil quando todo mundo quer fugir. E fica terrível quando quem vai embora diz pra gente que: lá fora é melhor.

Aí, então: estão faltando os tapas na cara, os olhos arregalados depois do sonho. Ou da cegueira. A gente não vai mudar o Brasil, é provável. A gente não vai reformar a cidade para um futuro novo, ou voltar a um passado distante, quando "tudo era melhor". Mas a gente é que pode ser um pouco melhor. Ou bem melhor. Se começarmos e sentir mais orgulho e a abrir mais os olhos: é no Brasil que a gente fica, e é só dele que a gente cuida.

Depois de quarenta dias longe, eu só consigo pensar que o Brasil é o melhor lugar do mundo. "Mesmo com todos os problemas?" Mesmo com todos os problemas. O que só prova, é muito claro: que ele deve mesmo ser o melhor lugar que existe.







*Sobre conseguir fazer parte do Brasil: eu sei que o termo termina evocando população vulnerável e marginalizada; evocando a pobreza e a miséria que não fazem parte do Brasil - ou que fazem parte do Brasil do jeito errado. Mas o texto não é bem sobre isso. No final, na verdade, eu quis evocar o olhar para dentro do país pensando nessas questões óbvias também. Mas a frase lá do * tenta não remeter a esse tema.
Sem confusões.

Eu sinto falta

Eu sinto falta do calor absoluto. Sinto falta da previsibilidade. De saber exatamente como os dias seguem, como o clima vem, como as pessoas me tratarão na rua. Pois é, deu pra sentir falta de como ser bem tratado na rua, por vezes. E olhe que minha cidade não tem vivido os melhores exemplos disso - eu vejo. Mas por aqui a hostilidade pode ser maior, pior. Sinto falta de não ter medo dela.

Sinto falta das vozes. Do barulho na rua, do barulho na casa, do corredor da universidade cheio de gente falando besteira e falando coisa séria da Psicologia. Acho que deu até pra sentir falta da Psicologia. Porque era um pedaço meu, de qualquer forma - mesmo que um pedaço de fôrma mal feita. Mas era. É. E por aqui a gente sente falta dos nossos pedaços que não conseguimos trazer.

Sinto falta daquela blusa, do vestido verde, do almoço no restaurante preferido, do final de semana sem nada incrível para se fazer. É bom estar em casa e não ter nada incrível para se fazer. Afinal você está em casa. As coisas incríveis são incríveis, mas até elas perdem a graça, eu confirmo. Eu juro. Admito. A nossa casa nunca perde a graça.

Sinto falta dos amigos ao alcance (mesmo que ao alcance de um trânsito ridículo e lento. Mesmo.). Sinto falta do feijão e do tempero do frango. Da coxinha pelas esquinas, mesmo que eu não coma tanta coxinha assim.

Sinto falta do atendente oferecendo água ou café, e sorrindo. Sinto falta dos sorrisos. Das gargalhadas altas no meio da lanchonete, do banco (não, no banco aí já é mais difícil se ouvir gargalhadas), e em plena luz do dia. Aqui é luz do dia e faz silêncio e faz pouco barulho de riso. Pouco barulho de gente. As pessoas continuam todas reclusas dentro de si mesmas mesmo sem estarem reclusas dentro de casa. Sinto falta da "expansão em excesso".

Sinto falta das coisas que reclamo sempre, e que vou reclamar nas primeiras horas. Sinto falta das coisas boas das quais nunca reclamo - essas que estou falando por aí por cima. Por cima. Não dá nem pra dizer em detalhes que senão isso aqui não acaba.

A viagem que acaba: acaba já. E eu vou direto pra casa, que sentir saudade é um negócio que incomoda, machuca, e dói. E que ainda faz silêncio. Eu não. Eu chego já.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Clarão

Nos dizem por aqui que nada é mais desesperador do que o inverno. As noites longas, os dias curtos, os dias brancos, o frio intenso e o desconforto físico e psicológico que tudo isso pode gerar. Eu ouço isso e sempre repito comigo mesma: nunca quero passar por essa experiência. E vez ou outra arrisco: talvez um dia eu arrisque, olha; só para dizer que passei por isso - e sobrevivi.

Mas, até então, o que eu nunca experienciei de mais desconfortável e, por vezes, desesperador, foram esses dias longos. Na Irlanda, tínhamos um dia claro durando suas vinte horas. E só umas quatro horas noturnas, de escuro e frio maior, de silêncio nas ruas e um leve adormecer dos pássaros. Aqui em Umea, na Suécia, não tem noite.

E se antes eu já experimentava o efeito coruja, os olhos abertos, eu alerta o tempo todo, a vontade de fazer qualquer coisa menos dormir, aqui em Umea isso é ainda mais rotineiro. E eu só estou por aqui há alguns dias, e por alguns dias, enfim.

Entre onze horas e meia noite, o dia parece estar entardecendo. Entre meia noite e três e meia da manhã, ele está amanhecendo. Não tem noite nem nenhuma escuridão. O céu é sempre em algum tom de azul, e a sensação que tenho quando olho para ele, na madrugada, além da ausência de sono, é de que está amanhecendo enquanto faço qualquer outra coisa senão dormir. E isso me lembra os tempos idos de quando eu amanhecia bebendo cerveja e assistindo a shows de roquenrou nas ruas. Eu olhava para cima, e: eram essas cores que eu via no céu. E aqui na Suécia eu as vejo o tempo inteiro.

Quem vive o inverno frio e escuro desses lados provavelmente está em êxtase nessa época do ano. Quem vive em plena linha do Equador e tem os dias tão bem cronometrados como os nossos: deve achar tudo isso apenas diferente e curioso. Mas para quem o espaço, o clima, e as cores do lugar são tremendamente importantes para o humor, para a disposição, e para algum controle emocional: esse dia longo pode ser inferno.

É só depois das onze da noite que me dá alguma fome de janta. Na hora da janta, eu sinto fome pouca: quero só fazer um lanche ou tomar um café de fim de tarde (!). É passada a meia-noite que me dá vontade de trabalhar e escrever um pouco. Eu nem tenho trabalhado, é verdade, mas a vontade me dá, eu juro. Porque é como se a meia-noite fosse umas sete da noite; não sei explicar, mas é o que meu corpo me diz, e o que o ambiente não corrobora nem estimula: todo mundo está dormindo em sono pesado, e eu digitando tanto no computador vou acordá-los no meio da noite (a qual, pra mim, acabou de começar).

E eu acordo várias vezes pela madrugada, porque já faz sol. E a gente abre os olhos (para logo escancará-los, com tamanha claridade) e se assusta: devem ser pelo menos dez horas da manhã! Mas são cinco. Ou quatro.

A gente come em horários errados, porque sente fome em horários diferentes, já que o dia é todo um clarão, e não avisa com muita certeza pro nosso estômago o que é que a gente deve comer naquela hora. E se não existir relógio, a gente vai fazendo tudo errado ao longo do dia.

Do dia que não acaba. À noite, temos sol; é dia, mas já damos "boa noite" uns aos outros. Como se tivéssemos um falso dia, ou uma noite mentirosa, a depender da perspectiva. Para os notívagos, a ausência de noite pode ser um problema, ou exatamente a solução: o dia longo nos deixa acordados em excesso. O dia em excesso. A luz em excesso. É outro ponto que depende da perspectiva.

E da minha perspectiva: sigo na contramão, porque dependo do dia organizado para me organizar. Já são quarenta dias longe de casa, com pouca noite, dos quais oito dias em Umea, sem nenhuma noite (foram oito dias, literalmente). E os dias longos continuam sendo meus pesadelos de olhos abertos, meus sonhos lúcidos, meu corpo confuso e meu humor transbordando sua instabilidade.

Eu não sei o que fazer com tanta luz, esse é o problema. Dormir é o que eu não quero. Agora, passa da meia-noite, acabei de jantar, e o céu está clareando, me dizendo que vai amanhecendo mais uma vez (e, vai, pelas próximas horas). Vou fechar as cortinas e deitar; talvez eu consiga ter uma noite (dia) de sono dessa vez.

sábado, 12 de julho de 2014

E os primeiros dias em Umea

Não tem ninguém por aqui. A cidade faz silêncio o tempo inteiro, e a cidade universitária faz um silêncio ainda maior, se é que isso é possível. Isso aqui parece o início de janeiro em Natal: porque é verão, e tem luz demais na rua para as pessoas se trancarem dentro de salas trabalhando.

Nossos amigos são uns dos poucos residentes na cidade universitária nesses dias. As outras pessoas que, por algum motivo provavelmente extraordinário, permaneceram em Umea, se esticam no gramado em cima de toalhas, usando biquínis e sungas, ostentando aquele bronzeado sueco: um marrom que insiste em não ficar dourado, cor de cobre, que faz o contraste com os cabelos loiros translúcidos. Cores do verão em Umea.

Dentro do quarto é possível se escutar silêncios. É possível ter a sensação de que o silêncio pesa, incomoda com sua presença. E que mesmo que falemos, liguemos a televisão, o rádio e o youtube, ele vai pairar por cima da gente. Aquele silêncio maciço de ausência de vozes, de carros, de crianças brincando; de ausência de dias cheios, dias de trabalhos atrasados, dias em que se deseja silêncio.

O silêncio vai pairando. É um peso por cima de quem fica por aqui. Por cima das árvores que não se movem. E do calor que faz com a gente não se mova – é um enfado por trás do outro, uma refeição mais preguiçosa e demorada que a anterior.

Nas ruas do centro, devem ter poucas centenas de pessoas. Fazendo qualquer coisa não muito importante, sem muita urgência nem pressa, nem esmero também. As pessoas vão guiando suas bicicletas e carregando suas poucas compras. Vão sentindo o calor e deve ser por isso andam um pouco devagar. E muitos prédios estão envoltos em obras: aproveitando o tempo aberto e a cidade vazia, as reformas acontecem e nem fazem tanto barulho.

O dia se arrasta e ainda por cima não anoitece. Faz sol o tempo inteiro. Faz calor e faz silêncio. Faz cara de quem não aprova estar aqui mostrando todo o seu esplendor, todo o seu sol e sua luz, se todos se foram embora. Ou quase todos. Os quase que se danem – os dias não fazem questão de ser um espetáculo para um público tão pequeno. Mas terminam sendo mesmo assim: nesses meses do ano, não tem como o dia não ser algo bonito de se ver.

E é assim que os dias seguem.

Chegando em Umea

Depois de descermos em Estolcomo, pegamos um ônibus que parte de lá e passa por várias cidades da Suécia, sendo Umea uma das últimas paradas dele. A viagem é rumo ao Norte todo o tempo, e para nós ela começou às dez da noite.

O que significa que tinha sol. E que, se íamos sempre rumo ao Norte, o sol não sumia. Era como se estivéssemos todo o tempo correndo em busca dele, sem deixá-lo escapar de vista. Enquanto na cidade por onde tínhamos acabado de passar, o sol dava lugar a um entardecer misturado com amanhecer (aquele aspecto que o céu tem por volta das quatro e meia da manhã), na cidade seguinte o sol tentava escapar, ainda, para o alcançarmos novamente no próximo trecho. E esse cabo de guerra aconteceu principalmente entre meia noite e duas da manhã, as únicas horas em que se pode dizer que houve alguma noite, durante a viagem.

Fizemos uma parada na metade do caminho, pouco depois das duas manhã: no meio do nada, em uma cidade que não consigo fazer ideia de qual era. E, aqui na Suécia, lembrar nome de ruas e lugares requer uma memória poderosa: a quantidade de consoantes e sílabas impronunciáveis, além dos símbolos como tremas e círculos (?) por cima de letras torna tudo mais difícil de se ler, escrever, e, claro, memorizar.

Para quem já viajou de ônibus outras vezes, cruzando estados, o lugar da parada é característico, e deve parecer o mesmo em muitos lugares do mundo, mediante descrição: um espaço aberto onde fica algum restaurante e/ou lanchonete, com banheiros e às vezes uma loja de souvenirs. Às vezes junto a um posto de gasolina. E na frente dele (ou ao redor), tem um amplo estacionamento, silêncio, pouca luz, e carros na estrada logo à frente, que parecem ir e vir sem pressa e/ou sem rumo pela madrugada. Sempre paramos nesses lugares quando é madrugada.

Vinte minutos são suficientes parados em um lugar  como esse: quem não estiver em sono profundo, desce para ir ao banheiro e respirar um ar frio e puro, para ouvir um silêncio ensurdecedor, e certificar-se de que essa parte ruim de viajar logo acaba, e que poderia ser pior se não fosse verão (e não estivesse fazendo 13°C).

Entre 2h40 e 3h da madrugada é possível assistir a um nascer do sol arrebatador, por mais clichê que soe a palavra. Quase todos dormiam no ônibus. Quase todos eram suecos ou estrangeiros morando na Suécia há pelo menos algum tempo. Quase todos lidavam com tudo aquilo de um modo corriqueiro e tedioso. O sol nascia nesse horário atípico saindo por de trás de montanhas – montanhas que estavam por de trás de lagos lindos, ou de verdes extensos. Uma ou outra casa ponteava ao longo da paisagem. Uma ou outra propriedade com cara de boa solidão e placidez. A paisagem ia sendo clareada pelo sol e iluminada pelos raios. Todos dormiam no ônibus, até mesmo quando o sol despontou e começou a invadir nossas janelas e entrar em nós por dentro dos nossos olhos. Sol forte.

Também era um sol arrebatador. Era uma manhã bem clara quando chegamos em Umea.