sábado, 12 de julho de 2014

Chegando em Umea

Depois de descermos em Estolcomo, pegamos um ônibus que parte de lá e passa por várias cidades da Suécia, sendo Umea uma das últimas paradas dele. A viagem é rumo ao Norte todo o tempo, e para nós ela começou às dez da noite.

O que significa que tinha sol. E que, se íamos sempre rumo ao Norte, o sol não sumia. Era como se estivéssemos todo o tempo correndo em busca dele, sem deixá-lo escapar de vista. Enquanto na cidade por onde tínhamos acabado de passar, o sol dava lugar a um entardecer misturado com amanhecer (aquele aspecto que o céu tem por volta das quatro e meia da manhã), na cidade seguinte o sol tentava escapar, ainda, para o alcançarmos novamente no próximo trecho. E esse cabo de guerra aconteceu principalmente entre meia noite e duas da manhã, as únicas horas em que se pode dizer que houve alguma noite, durante a viagem.

Fizemos uma parada na metade do caminho, pouco depois das duas manhã: no meio do nada, em uma cidade que não consigo fazer ideia de qual era. E, aqui na Suécia, lembrar nome de ruas e lugares requer uma memória poderosa: a quantidade de consoantes e sílabas impronunciáveis, além dos símbolos como tremas e círculos (?) por cima de letras torna tudo mais difícil de se ler, escrever, e, claro, memorizar.

Para quem já viajou de ônibus outras vezes, cruzando estados, o lugar da parada é característico, e deve parecer o mesmo em muitos lugares do mundo, mediante descrição: um espaço aberto onde fica algum restaurante e/ou lanchonete, com banheiros e às vezes uma loja de souvenirs. Às vezes junto a um posto de gasolina. E na frente dele (ou ao redor), tem um amplo estacionamento, silêncio, pouca luz, e carros na estrada logo à frente, que parecem ir e vir sem pressa e/ou sem rumo pela madrugada. Sempre paramos nesses lugares quando é madrugada.

Vinte minutos são suficientes parados em um lugar  como esse: quem não estiver em sono profundo, desce para ir ao banheiro e respirar um ar frio e puro, para ouvir um silêncio ensurdecedor, e certificar-se de que essa parte ruim de viajar logo acaba, e que poderia ser pior se não fosse verão (e não estivesse fazendo 13°C).

Entre 2h40 e 3h da madrugada é possível assistir a um nascer do sol arrebatador, por mais clichê que soe a palavra. Quase todos dormiam no ônibus. Quase todos eram suecos ou estrangeiros morando na Suécia há pelo menos algum tempo. Quase todos lidavam com tudo aquilo de um modo corriqueiro e tedioso. O sol nascia nesse horário atípico saindo por de trás de montanhas – montanhas que estavam por de trás de lagos lindos, ou de verdes extensos. Uma ou outra casa ponteava ao longo da paisagem. Uma ou outra propriedade com cara de boa solidão e placidez. A paisagem ia sendo clareada pelo sol e iluminada pelos raios. Todos dormiam no ônibus, até mesmo quando o sol despontou e começou a invadir nossas janelas e entrar em nós por dentro dos nossos olhos. Sol forte.

Também era um sol arrebatador. Era uma manhã bem clara quando chegamos em Umea.

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