terça-feira, 15 de julho de 2014

Clarão

Nos dizem por aqui que nada é mais desesperador do que o inverno. As noites longas, os dias curtos, os dias brancos, o frio intenso e o desconforto físico e psicológico que tudo isso pode gerar. Eu ouço isso e sempre repito comigo mesma: nunca quero passar por essa experiência. E vez ou outra arrisco: talvez um dia eu arrisque, olha; só para dizer que passei por isso - e sobrevivi.

Mas, até então, o que eu nunca experienciei de mais desconfortável e, por vezes, desesperador, foram esses dias longos. Na Irlanda, tínhamos um dia claro durando suas vinte horas. E só umas quatro horas noturnas, de escuro e frio maior, de silêncio nas ruas e um leve adormecer dos pássaros. Aqui em Umea, na Suécia, não tem noite.

E se antes eu já experimentava o efeito coruja, os olhos abertos, eu alerta o tempo todo, a vontade de fazer qualquer coisa menos dormir, aqui em Umea isso é ainda mais rotineiro. E eu só estou por aqui há alguns dias, e por alguns dias, enfim.

Entre onze horas e meia noite, o dia parece estar entardecendo. Entre meia noite e três e meia da manhã, ele está amanhecendo. Não tem noite nem nenhuma escuridão. O céu é sempre em algum tom de azul, e a sensação que tenho quando olho para ele, na madrugada, além da ausência de sono, é de que está amanhecendo enquanto faço qualquer outra coisa senão dormir. E isso me lembra os tempos idos de quando eu amanhecia bebendo cerveja e assistindo a shows de roquenrou nas ruas. Eu olhava para cima, e: eram essas cores que eu via no céu. E aqui na Suécia eu as vejo o tempo inteiro.

Quem vive o inverno frio e escuro desses lados provavelmente está em êxtase nessa época do ano. Quem vive em plena linha do Equador e tem os dias tão bem cronometrados como os nossos: deve achar tudo isso apenas diferente e curioso. Mas para quem o espaço, o clima, e as cores do lugar são tremendamente importantes para o humor, para a disposição, e para algum controle emocional: esse dia longo pode ser inferno.

É só depois das onze da noite que me dá alguma fome de janta. Na hora da janta, eu sinto fome pouca: quero só fazer um lanche ou tomar um café de fim de tarde (!). É passada a meia-noite que me dá vontade de trabalhar e escrever um pouco. Eu nem tenho trabalhado, é verdade, mas a vontade me dá, eu juro. Porque é como se a meia-noite fosse umas sete da noite; não sei explicar, mas é o que meu corpo me diz, e o que o ambiente não corrobora nem estimula: todo mundo está dormindo em sono pesado, e eu digitando tanto no computador vou acordá-los no meio da noite (a qual, pra mim, acabou de começar).

E eu acordo várias vezes pela madrugada, porque já faz sol. E a gente abre os olhos (para logo escancará-los, com tamanha claridade) e se assusta: devem ser pelo menos dez horas da manhã! Mas são cinco. Ou quatro.

A gente come em horários errados, porque sente fome em horários diferentes, já que o dia é todo um clarão, e não avisa com muita certeza pro nosso estômago o que é que a gente deve comer naquela hora. E se não existir relógio, a gente vai fazendo tudo errado ao longo do dia.

Do dia que não acaba. À noite, temos sol; é dia, mas já damos "boa noite" uns aos outros. Como se tivéssemos um falso dia, ou uma noite mentirosa, a depender da perspectiva. Para os notívagos, a ausência de noite pode ser um problema, ou exatamente a solução: o dia longo nos deixa acordados em excesso. O dia em excesso. A luz em excesso. É outro ponto que depende da perspectiva.

E da minha perspectiva: sigo na contramão, porque dependo do dia organizado para me organizar. Já são quarenta dias longe de casa, com pouca noite, dos quais oito dias em Umea, sem nenhuma noite (foram oito dias, literalmente). E os dias longos continuam sendo meus pesadelos de olhos abertos, meus sonhos lúcidos, meu corpo confuso e meu humor transbordando sua instabilidade.

Eu não sei o que fazer com tanta luz, esse é o problema. Dormir é o que eu não quero. Agora, passa da meia-noite, acabei de jantar, e o céu está clareando, me dizendo que vai amanhecendo mais uma vez (e, vai, pelas próximas horas). Vou fechar as cortinas e deitar; talvez eu consiga ter uma noite (dia) de sono dessa vez.

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