quarta-feira, 16 de julho de 2014

Eu sinto falta

Eu sinto falta do calor absoluto. Sinto falta da previsibilidade. De saber exatamente como os dias seguem, como o clima vem, como as pessoas me tratarão na rua. Pois é, deu pra sentir falta de como ser bem tratado na rua, por vezes. E olhe que minha cidade não tem vivido os melhores exemplos disso - eu vejo. Mas por aqui a hostilidade pode ser maior, pior. Sinto falta de não ter medo dela.

Sinto falta das vozes. Do barulho na rua, do barulho na casa, do corredor da universidade cheio de gente falando besteira e falando coisa séria da Psicologia. Acho que deu até pra sentir falta da Psicologia. Porque era um pedaço meu, de qualquer forma - mesmo que um pedaço de fôrma mal feita. Mas era. É. E por aqui a gente sente falta dos nossos pedaços que não conseguimos trazer.

Sinto falta daquela blusa, do vestido verde, do almoço no restaurante preferido, do final de semana sem nada incrível para se fazer. É bom estar em casa e não ter nada incrível para se fazer. Afinal você está em casa. As coisas incríveis são incríveis, mas até elas perdem a graça, eu confirmo. Eu juro. Admito. A nossa casa nunca perde a graça.

Sinto falta dos amigos ao alcance (mesmo que ao alcance de um trânsito ridículo e lento. Mesmo.). Sinto falta do feijão e do tempero do frango. Da coxinha pelas esquinas, mesmo que eu não coma tanta coxinha assim.

Sinto falta do atendente oferecendo água ou café, e sorrindo. Sinto falta dos sorrisos. Das gargalhadas altas no meio da lanchonete, do banco (não, no banco aí já é mais difícil se ouvir gargalhadas), e em plena luz do dia. Aqui é luz do dia e faz silêncio e faz pouco barulho de riso. Pouco barulho de gente. As pessoas continuam todas reclusas dentro de si mesmas mesmo sem estarem reclusas dentro de casa. Sinto falta da "expansão em excesso".

Sinto falta das coisas que reclamo sempre, e que vou reclamar nas primeiras horas. Sinto falta das coisas boas das quais nunca reclamo - essas que estou falando por aí por cima. Por cima. Não dá nem pra dizer em detalhes que senão isso aqui não acaba.

A viagem que acaba: acaba já. E eu vou direto pra casa, que sentir saudade é um negócio que incomoda, machuca, e dói. E que ainda faz silêncio. Eu não. Eu chego já.

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