segunda-feira, 28 de julho de 2014

Falsa memória

Dizem que, na época da escola, eu assistia aula às 7h15 da manhã. Às 7h10 tocava para que a gente entrasse na sala (o que significa que, antes das 7h, a maior parte de nós já estava no colégio, escorados nas muretas dos corredores, falando sobre qualquer coisa de muito importante - à época, esperando a música do toque). Entre 7h10 e 7h15, a gente assistia à oração e rezava. Às 7h15, o professor começava a nos ensinar alguma coisa de útil para a vida (ou para o vestibular).

Eu não sei quem inventou tudo isso. Depois de cinco anos de uma graduação vespertina (com trabalhos acadêmicos feitos na madrugada, é evidente), entrei em uma nova, no turno Matutino. Eu ia colocar para a noite, é verdade, mas perdi a inscrição do Enem, e, naquele ano, era só via Enem que tu poderia ser da turma noturna de Letras. Me restou o vestibular e as primeiras horas da manhã.

Nenhum problema. Eu gosto de estar na universidade durante o dia. Gosto de acordar cedo, estudar cedo, trabalhar logo cedo também. Mas por cedo, é claro: não significa de madrugada, não significa sete horas da manhã.

Lá estou eu com o comprovante de matrícula: leitura e produção de texto argumentativo (que, na época do colégio, significava aula de redação, ou seja, aula boa), primeiro horário de manhã. É preciso que eu esteja na universidade às sete horas. Da madrugada.

Eu sabia que não conseguiria. Falhei na primeira semana: faltei. Nova falha hoje: cheguei com quase uma hora de atraso. E cheguei e fiquei assustada: eram 7h50 e diversos seres humanos já estavam não só acordados, como também produtivos. Todo mundo estava na sala, com a maior naturalidade de quem havia acordado há horas, tomado café em mesa farta (não só deu tempo de tomar café, como também de prepara-lo), dirigido com os olhos bem abertos e um sorriso no rosto. Eu não quis nem sondar se, dentre aquelas pessoas (?), também havia daqueles que fazem exercícios antes de ir para a aula ou para o trabalho. Porque essas pessoas não existem. Elas não podem existir.

E fiquei lá por toda a manhã: tentando abrir os olhos, assistindo à aula que, por melhor que fosse (afinal, eu faço Letras), não conseguiria me fazer sorrir naquela hora. Nem ser produtiva. Nem fazer exercícios antes dela. (Nem depois, porque é claro que adormeci assim que cheguei em casa.) Também fiquei me perguntando se algum dia na vida eu seria como aquelas pessoas: maduras, responsáveis, produtivas, matutinas. Adultas. Parece que eu já fui assim, na época do colégio, mas eu duvido. Hoje descobri que essas aulas de Matemática e Química às 7h15 são memórias falsas, delírios preocupantes, inclusive. Falei com alguns amigos e eles compartilham da mesma inquietação, da mesma dúvida, do mesmo sono.

E paro aqui. Daqui a pouco serão nove da noite: vai ser hora de começar a trabalhar.

3 comentários:

Jeferson Cardoso disse...

Liga não, Biazetz. Eu, por exemplo, até hoje não sei se as aulas de química e matemática que tive na vida foram reais ou alucinações “º~º” Aproveito e convido para que comente meu CIRCO NONSENSE http://jefhcardoso.blogspot.com Abraço!

Rafael disse...

Não sou um acadêmico, por isso que eu sempre chegava atrasado na faculdade. Agora minha rotina de trabalho começa as 6h30, o que significa que eu tenho que acordar mais cedo que isso, e a vida segue bem assim. Foda é no horário de verão.

Deyze Ferreira disse...

Sempre acordei cedo. Meus pais costumavam caminhar às 05h e eu os acompanhava. Hoje acordo às 05h pra me arrumar pra ir ao trabalho e queria voltar a acompanhar meus pais nas caminhadas matinais.