quarta-feira, 16 de julho de 2014

Nessa viagem

Brinquei demais com a solidão. Ouvi silêncios ensurdecedores. Ouvi silêncios pesados. Senti pesar. Senti medo. Chorei de medo. Chorei de raiva. Chorei assustada com algumas pessoas com quem tive de trombar pelo caminho. Falei inglês. Tentei falar alemão. Escrevi longos e-mails. Troquei e-mails com meu pai. Lembrei do meu avô. Pensei muito no meu futuro. Comi demais. Senti muita fome. Senti fome por muitas horas. Senti vergonha de mim. Tive vergonha de falar, de pedir, e de chorar em público. Senti foi saudade. Senti o peso da ausência das coisas normais. As coisas triviais é que fazem falta. Bebi pouco. Deveria ter bebido mais. Mas não quis passar mal no outro dia. Passei mal de dor de dente. Fui a um dentista que falava mais rápido que o narrador da Rádio Globo. Fui ignorada por brasileiros. Fui acolhida por estrangeiros. Almocei ao ar livre, sentindo o sol e o frio ao mesmo tempo. Senti frio nas madrugadas. Senti dor nas costas e nos ossos das costas de tanto frio que tive. Fiquei pasma com a indiferença dos estrangeiros. Fiquei pasma com a arrogância de outros estrangeiros. Fiquei pasma com a hostilidade de tantos brasileiros. E de tantos estrangeiros também. Tive de ouvir que "sou do Norte", e tive de explicar a alguns estrangeiros que Norte e Nordeste são regiões bem diferentes (e muito massa) do Brasil. Falei sobre coxinha, cuscuz e tapioca sem tradução. E senti o gosto dessas coisas sem tradução nem explicação. O gosto. Estive em um pub com música latina rodeada por venezuelanos. Que dançavam. E dançavam. Não andei de bonde nem de trem. Andei de ônibus por oito horas acompanhando o sol, sem perdê-lo de vista no norte da Escandinávia - eu ia rumo ao nordeste, eita, desculpa. Confusões acontecem. Eu me perdi. Eu me senti perdida. Eu desisti de voltar pra terapia. Eu engordei. Eu me senti sozinha. Eu me arrependi de não ter estudado mais inglês quando pude, anos atrás. Eu prometi que vou me dedicar ao alemão, que se arrepender duas vezes da mesma coisa é um negócio feio. Eu pensei que talvez eu devesse voltar para a terapia. Eu quero viajar de novo. Eu quero viajar demais. Eu quero voltar pra casa. Nessa viagem, eu quis voltar pra casa. Várias vezes. Eu vi uma natureza exuberante, e tive aquela sensação de bem estar só em estar ali, de frente para uma paisagem incrível. Vi lagos e rios, vi o mar (um mar esquisito, uma praia sem graça). Aterrissei de avião assistindo a outras paisagens de tirar o fôlego. Sentei na grama do parque enquanto era sol. Tomei muito café quando fazia frio. Repeti que minha cidade é que é massa, é que tem calor, é que tem verão. "Você não sabe o que é verão", tive de responder ao meu professor irlandês, feliz com os dezenove graus celsius - e resumindo-os a verão. Sofri com insônias. Sofri com sono em excesso. Tive preguiça de ir ver a vida lá fora - a realidade me cansa. Tive dias longos, e ainda tenho-os tido. Fiquei noiva. Acho que li pouco. Tenho certeza de que escrevi de menos. E(s)tá acabando.

Um comentário:

Maíra D disse...

ah, as viagens e esses textos pós-viagens...